No dia 17 de setembro do corrente ano, a comunidade internacional foi surpreendida pela assinatura de um pacto militar de defesa mútua entre o Paquistão e a Arábia Saudita. O acordo, que passou quase despercebido entre analistas, merece maior atenção. Não se trata apenas de um acordo bilateral, sendo que alguns especialistas já o comparam ao artigo 5º da aliança atlântica (NATO) ou mesmo ao recente tratado militar entre Rússia e Coreia do Norte, que consagram a defesa coletiva, em caso de agressão a um dos países signatários..

O contexto é decisivo. O Médio Oriente continua a ser um dos epicentro da instabilidade, a par do leste europeu. Conflitos históricos, rivalidades religiosas, clivagens étnicas e disputas económicas fazem da região um espaço volátil, onde as grandes potências mundiais (EUA, China e Rússia) e os atores regionais (Irão, Israel, Arábia Saudita e Turquia) competem por influência. Os Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial, mantêm bases e um forte contingente militar no médio oriente, mantendo-se como o principal garante de segurança regional. Paralelamente, há outros atores que vêm ampliando a sua esfera de influência na região, como é o caso da China e Rússia, transformando a amalgamada geografia, num verdadeiro espaço de disputas geopolíticas e económicas.

Portanto, entre desconfiança e realismo político, o pacto militar saudita-paquistanês é mais do que um mero detalhe diplomático, sendo que poderá marcar o início de uma nova era no Médio Oriente.

Por conseguinte, a realidade está em mudança. Depois da invasão russa à Ucrânia, o conflito em Gaza tornou-se o segundo maior foco de tensão mundial. A resposta militar de Israel aos ataques do Hamas, em outubro de 2023, despoletou uma escalada que persiste até hoje, com milhares de mortos e deslocados tanto localmente como abroad, de acordo com dados recentes da ONU. Para além do drama humanitário, o conflito expõe a fragilidade da arquitetura de segurança regional.

Todavia, é certo que a insegurança entre os países árabes aumentou. Os ataques a Gaza, a violência na Cisjordânia, a instabilidade no Iémen e até o bombardeamento do Catar – tradicional mediador e aliado dos EUA – alimentaram um sentimento coletivo de ameaça. Para Riade, o pacto com Islamabad surge como forma de diversificar garantias de defesa, sobretudo num contexto em que Washington é visto como um aliado cada vez menos previsível.

É inegável que o Paquistão acrescenta uma dimensão singular à equação. Potência nuclear, aliado estratégico da China e com boas relações tanto com Moscovo como com Washington, Islamabad é um ator de peso no tabuleiro geopolítico. A aproximação saudita-paquistanesa pode, assim, abrir caminho a um novo equilíbrio de poder no Médio Oriente, reduzindo o papel exclusivo dos EUA como protetores da região.

Há, contudo, analistas que acreditam que este movimento poderá até vir a congregar outros países árabes, como sugerido na última reunião de emergência da Liga Árabe pelo Egito, realizada após o ataque israelita ao Catar. Mas, mais do que uma simples aliança, este pacto insere-se numa dinâmica de transformação mais ampla da ordem internacional: a passagem de uma hegemonia unipolar norte-americana para um sistema multipolar, com vários centros de poder.

No fundo, os sauditas parecem procurar alternativas concretas e imediatas a médio e longo prazo. O peso da influência de Israel em Washington e a imprevisibilidade da atual política externa dos EUA motiva a Arábia Saudita a reforçar as suas garantias de segurança através de outros atores. O Paquistão, por sua vez, junta proximidade religiosa e cultural a um posicionamento geopolítico pragmático, que o coloca como interlocutor privilegiado entre grandes potências. Contudo, embora não esteja diretamente envolvida, a China poderá ter maior influência na região, dada a sua relação estratégica e de proximidade com o Paquistão.

Outrossim, acredito que estamos diante de uma dinâmica que segue o rumo das grandes transformações que estão a ocorrer na ordem internacional, cada vez mais multipolar, e representado por vários polos de poder.

Não obstante, a questão permanece: este pacto traduz desconfiança em relação ao tradicional aliado americano ou é simplesmente realismo político num cenário internacional em transformação? Talvez seja um pouco dos dois. O certo é que inaugura um novo paradigma de segurança regional, que poderão influenciar comportamentos, cujas consequências poderão redefinir o futuro do Médio Oriente.