Até ao dia 27 de maio, data em que o Observador organiza a Cimeira das Cidades, desafiamos alguns especialistas a escrever sobre os desafios das urbes do futuro. A entrada no evento é gratuita, mediante inscrição, que pode ser feita AQUI.
Esta semana quando estava a vir de autocarro de uma entrevista no bairro da Graça, em Lisboa, (sou jornalista, no jornal local Mensagem de Lisboa), dois jovens que os meus preconceitos me tinham dado a impressão de serem desinteressantes e auto-centrados — vocês sabem, telemóvel na mão, calças largas, cabelos de gangue, tatuagens — saíram para ajudar uma mãe a descer com uma cadeirinha de bebé. Mais à frente, quando saí, o motorista esteve pacientemente à espera que um senhor mais velho descesse também, enquanto, num parque infantil, decorria um piquenique entre uma avó e três netos pequenos. Duas amigas atravessavam a rua a rir às gargalhadas. O quiosque à beira da minha casa estava cheio de gente a beber imperiais de fim de tarde, e a conversa sobrepunha-se à televisão. A minha manicure deu-me a encomenda que guardara para mim no cabeleireiro na esquina, e o senhor da mercearia, que é paquistanês e está aqui desde a pandemia, perguntou-me se eu não queria morangos que estão ótimos e ofereceu-me um.
Falo-vos destes gestos na cidade porque são todos pequenos e imperceptíveis. Podem achar parvos, até. São pequenos gestos de gentileza. Mas são também muito mais. Neles reside a civilização. Como em convivência, organização de uma existência contra a barbárie. E é nelas, na gentileza e na convivência, que reside a razão de ser das cidades. Como me dizia numa entrevista recente a arquiteta Daniela Sá, uma das curadoras da Open House da trienal de Arquitetura, “as cidades nasceram para podermos conversar”.
É essa a cidade que conheço, sobretudo desde que começou a Mensagem de Lisboa — porque é essa a cidade que contamos.
A cidade do Mauro Wah, que canalizou todos os recursos da associação que dirige, no PER 11, Lumiar, na pandemia, para matar a fome aos vizinhos. A cidade da D. Florentina (assim, sem apelidos) que convocou os vizinhos e juntos fizeram um jardim numa lixeira nas traseiras do seu prédio em Alvalade.
Ou do Filipe Crespo que fez o mesmo, mas com árvores de fruto que, em Chelas, alimentam os vizinhos. Árvores de citrinos que Laura Lorenzo, espanhola e engenheira agrónoma a viver em Portugal, descobriu nos logradouros de Lisboa. Ela inventou uma forma de os limões poderem salvar as nossas casas do frio. O João Pombeiro homenageou-os numa escultura feita por um urban sketcher.
A Grande Lisboa da Sofia Gonçalves que criou uma livraria solidária em Carnaxide. Mas também da Lorena Travasssos que fundou a Greta, uma livraria só com livros de mulheres, em Arroios. E do Rafael Gomes e do André Coelho, dois amigos que se juntaram e criaram uma fonte tipográfica chamada T2, para vender e… comprarem um T2, que está tão difícil de conseguirem.
Ou do João Almeida que é varredor de rua (sim, o nome é esse mesmo) na Graça, e escreve e desenha livros para ensinar as crianças a reciclarem. E dos Eco-Estilistas que, em Chelas, reciclam vestuário.
É esta a cidade que pulsa e funciona. Onde há olhares, mãos e ternura. Onde as pessoas se ajudam e não se odeiam. E existe. Está lá, por exemplo, na Mensagem de Lisboa. Mas está também em todas as ruas, bairros e largos. Nós é que muitas vezes não damos por ela.
E vocês perguntam: será esta a altura certa para falar disto? Não será ingenuidade, quando na maior sondagem que é possível ter, uma eleição, o que as pessoas quiseram foi gritar o desencanto, o medo, o ressentimento e a divisão?
Sim, digo-vos eu. Esta é a altura ideal para falar disto. Porque é esta cidade que não escutamos. E que é preciso mais. Mais desta cidade, a da gentileza, para que não nos sintamos sós e com vontade de gritar. Para que esta raiva não cresça mais. É, também, e puxando a brasa à minha sardinha vos digo, preciso um outro jornalismo sobre a cidade. Para contar do que une e não apenas o que separa, sejam etnias ou constituições. Para amparar os que se sentem soltos e frágeis. Para denunciar os que fazem sofrer.
Somos precisos todos. E nunca fomos tão pouco isso.
Catarina Carvalho é licenciada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa. Jornalista, recebeu o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas em 1996 e passou pelas revistas Sábado e Visão e pelos jornais Diário Económico, Expresso e Diário de Notícias, de que foi subdiretora. É fundadora e diretora da Mensagem de Lisboa desde 2021.