Escrevo estas linhas na qualidade de viticultor. A pouco mais de dois meses da vindima, a região duriense vive em ansiedade e abandono.

Ainda não existe qualquer comunicado de vindima por parte do IVDP, apesar da promessa de que este ano o fariam mais cedo. Não há sinal de esperança. Apenas o eco do silêncio institucional — um silêncio que magoa mais do que a geada tardia, fora de tempo.

As companhias compradoras de uvas ameaçam os lavradores: ou não compram, ou compram a preços vexatórios.

A crise que atravessamos no Douro não é apenas económica. É ética, cultural e estrutural.
O problema está na brutal discrepância entre o preço pago ao produtor e o preço final cobrado ao consumidor. A matemática é cruel: o que nos dão pela pipa mal paga um mês de enxada. Mas o rótulo, esse, reluz com medalhas e marketing gourmet.

Vivemos tempos em que a técnica eclipsa a verdade da terra. Há vinhos que falam de chocolate, café, grafite, trufas ou mirtilos colhidos à meia-noite… mas calam o essencial: a alma do xisto, o suor do lavrador, a luta contra o fogo, o granizo e o esquecimento.

A gastronomia e certos “enólogos gourmet” tornaram-se cúmplices — em círculos urbanos — de exercícios de vaidade estética, enquanto as vinhas morrem caladas sob o sol do verão.

Os preços dos vinhos ao consumidor são elevados, mas as uvas que lhes deram origem valem menos que uma hora num SPA urbano.

A isto chamam “mercado livre”. Mas o que temos é um mercado desregulado, onde o produtor é o elo mais frágil — e o mais sacrificado. E pior ainda: reina um silêncio institucional cúmplice. A menos de dois meses da vindima, não há orientações, nem garantias, nem rumo.

Esta situação é mais do que uma crise — é uma traição a uma região que sempre deu mais do que recebeu.

Os que permanecem e resistem não pedem caridade. Pedem respeito.