Alerta competição de clichés: o senhor de meia idade, seja isso o que for hoje em dia, de porsche carrera e loiraça debaixo do braço e a ex-mulher com botox, que anda de caso com o amigo do filho mais velho, têm uma nova competição — a crise dos millennials.

A malta que agarra em carreiras alcançadas em empresas que lhes pediram o currículo, ou mesmo para as quais tiveram que fazer 5 rondas de entrevistas e estimar quantos bilhetes valida a CP por dia, perde o amor pelo dinheiro que pouparam à custa de só ir jantar fora três sextas-feiras por mês e decide que precisa de um abanão.

Há quem peça um regime de visto especial para ir brincar aos Ubers na Austrália, com a promessa de que não pode lá ficar. Há quem decida abrir o seu negócio, on the side ou mesmo on the front, dependendo do peso da mão que aposta as fichas.

Abrem-se negócios de fatos-de-banho 100% made in Portugal, sabonetes biológicos e bolos de 3 andares. Estudam-se as leis do yoga até se estar capaz das ensinar. Pagam-se cursos para se ser personal trainer e o já clássico, workshop de fotografia (quando o escritório permite sair mais cedo às quintas-feiras).

E aqui andamos todos, a tentar que, customizando os caminhos das clássicas “boas carreiras”, talvez se nos torne mais fácil controlar o ímpeto de bocejar.

Parece-me a mim que há muitos ângulos para olhar para a coisa, mas sendo eu a assinar o texto, teremos de ficar pelo meu.

É-nos anti natura não ver a resposta.

A solução não vem num pacote, nem disponível num site com portes grátis (e nem pagos!). Temos que esperar, dizem-nos, é o inicio e é preciso perdurar para alcançar. E já temos maturidade para perceber que a vida não é um swipe up nas redes. Que nem tudo o que parece é, e que as próprias famosas nos informam que foi preciso um exército para ficar com ar de gala.

Mas isso não nos consola o âmago. Não nos tira o azedo do final de mais um dia que foi igual a ontem e se adivinha não muito diferente de amanhã.

Agora, não querendo desiludir imensamente, precaver: eu não alcancei aqui o caminho iluminado para fazer parar este carrossel do aborrecimento (ou melhor, da alergia ao aborrecimento).

Mas tenho uma sugestão. [Pausa para não a apresentar em formato pocket read]

Fase 0 – [optativa] Descobrir o que se gosta de fazer
Fase 1 – Pensar no que se gosta de fazer
Fase 2 – Fazer mais disso

E agora vão-me dizer — a pausa foi em vão. Nada disto é novo. Verdade, não é. Mas tem de ser, aos nossos olhos. É preciso voltar às coisas pequenas, às origens. Ao que gostávamos antes de percebermos se isso paga ou não as contas.

Eu era a miúda que não conseguia pintar dentro das linhas da pequena sereia, que tropeçava na bola de futebol e os cavalos não me aquecem nem arrefecem (para tristeza do meu pai).

Mas sempre gostei de ouvir pessoas a falar. De ver gestos e ouvir vozes. Histórias. Gostava de pessoas que tinham dessas. E fazia perguntas. Inusitadas maior parte das vezes. Ia recolhendo material e pensava que quando fosse grande, talvez, pudesse eu própria ter histórias para oferecer.

Ontem obriguei-me a fazer conversa com um estranho, nos 10 minutos que coincidimos numa estação de comboio, e a perguntar de como era a vida na terra dele. E hoje disse que sim à ideia inovadora da coffeeshop em que se desenha a cara do cliente no copo do café (no final deixei-o lá porque se parecia tanto comigo como com qualquer outra pessoa). Voltei à recolha.

Larguei o livro do top 5 e demoro-me nas extensivas descrições de Eça sobre a criada ressabiada. Obrigo-me a descobrir como funciona o cérebro num documentário, em vez de limpar a cabeça com mais uma intriga de um qualquer colégio privado em Espanha.

Atenção, bula que adjunto esta mezinha caseira, nem todos os dias vão ser interessantes. Muitas vezes sabe a pouco. Porque o relatório insiste em não se fechar sozinho e podia jurar que já respondi a este email antes, penso, no metro encostado às costas de alguém que podia ter o banho mais fresco (que é como quem diz, no trânsito a olhar para as placas dos mesmos quilómetros, ou no sofá a ver se apanho a notícia de rodapé até ao fim).

É preciso contrariar e insistir. Comprometer. Esquecer o desconforto da última vez e chegar à próxima. É que, tendo em conta que a meteorologia não prevê chuvas fortes, não se-me ocorre outra forma de encher o recipiente que não gota-a-gota.