Há anos que se repete a ideia de que os jovens se afastaram da cultura. Que deixaram de ler, de ir ao cinema, de frequentar museus. Mas talvez o problema não esteja na falta de interesse, e sim na insistência em procurar cultura nos mesmos lugares de sempre, quando ela já se deslocou para outras plataformas.

Continuamos a falar sobre a dificuldade em envolver os jovens na cultura como se fosse um mistério sociológico. Mas talvez este mistério seja outro: estamos a procurar cultura nos sítios onde ela já não está para boa parte dos mais jovens.

A nova geração não está desligada da cultura. Antes pelo contrário, está profundamente ligada a ela, mas através de formatos que a política cultural ainda não reconhece como legítimos. Vídeos curtos que ensinam, pequenos documentários feitos por criadores independentes, podcasts de análise cultural, newsletters que fazem curadoria de temas complexos. Isto já é cultura. É comentada, partilhada, debatida e, muitas vezes, mais influente que a oferta institucional.

Quando ignoramos esta produção, criamos um afastamento que depois interpretamos como “desinteresse”. Não é desinteresse. É desadequação. Estamos a medir a participação cultural através de métricas que são de outro tempo — contamos entradas em salas de cinema quando a geração Z vê ensaios visuais no TikTok antes de dormir, registamos espetadores de teatro enquanto milhares assistem a monólogos dramatizados no YouTube. Enquanto o fizermos, continuaremos a confundir ausência física com desinteresse.

Este desfasamento afeta também o crescimento de novos criadores. O sistema público tende a privilegiar trajetos convencionais através de escolas profissionais ou graus universitários. Muitos dos realizadores e comunicadores digitais que hoje têm impacto começaram sozinhos, sem enquadramento, sem apoio e sem qualquer ponte para o sistema cultural.

É por isso que um programa de apoio à criação digital pode fazer sentido. Não como debate ideológico sobre o que é ou não cultura, mas como medida pragmática. Países como o Canadá, a Austrália e o Reino Unido já integram estes formatos nos seus sistemas de apoio público, com microbolsas para projetos experimentais. O que descobriram é que pequenos investimentos iniciais produzem mais tarde artistas, realizadores e comunicadores que podem vir a entrar nos circuitos formais. O digital torna-se assim uma porta de entrada, não um destino final.

Portugal poderia implementar um programa-piloto de microbolsas (entre 1.000€ e 10.000€) com candidaturas simplificadas e exigência proporcional. Isto permitiria identificar jovens criadores em diferentes contextos e dar-lhes condições para desenvolver trabalho que hoje fazem sem enquadramento institucional. Ao mesmo tempo, aproximaria uma geração que se sente distante das instituições culturais, não por falta de curiosidade, mas porque raramente se vê refletida nelas.

Sei que há quem recue perante a ideia de “financiar influencers com dinheiro público”, mas esta é uma leitura redutora. Não se trata de apoiar conteúdo comercial ou promocional, mas sim trabalho cultural com intenção artística, narrativa ou educativa. A diferença entre um criador digital que faz entretenimento ligeiro e outro que produz documentários curtos sobre história portuguesa é evidente — e é essa diferença que os critérios de um programa podem salvaguardar.

É importante sublinhar que estes apoios não substituem o cinema, o teatro ou os museus; pelo contrário, fortalecem-nos. Um jovem que começa com uma minissérie vertical pode, daqui a alguns anos, apresentar uma série à RTP Play. Alguém que hoje faz um podcast independente pode ser uma voz futura da rádio. Um criador digital que usa a sua conta de Instagram pode tornar-se num artista visual com presença em galerias. A cultura renova-se e cresce quando criamos portas de entrada e não quando apenas protegemos o que já existe.

Um exemplo disto são organizações como o Camp Studios ou a Means of Production, nos Estados Unidos, que trabalham com criadores nascidos no digital para transformar ideias em projetos culturais com maior ambição. Ao oferecer mentoria, produção e espaço para experimentar, demonstram como o talento que surge das redes pode ser trabalhado para formatos mais estruturados.

A questão, então, não é “devemos apoiar o digital?”, mas sim “durante quanto tempo vamos ignorar o espaço onde os jovens criam e consomem cultura?” A resposta deveria ser clara. Se queremos um sistema cultural vivo, plural e preparado para o futuro, temos de admitir onde o futuro está a ser construído. E neste momento, está a acontecer fora do radar do Estado.

Apoiar a criação digital é uma decisão estratégica e financeiramente modesta. É corrigir um atraso evidente e facilitar um diálogo entre gerações que já existe, mas não passa pelos corredores habituais. É dar continuidade à cultura portuguesa, em vez de a deixar dependente do acaso e da resiliência individual de quem cria sem rede. É, no fundo, evitar que percamos os autores e criadores que poderíamos ter.

A verdadeira pergunta é: quantos futuros criadores estamos dispostos a perder antes de reconhecermos que a cultura já não cabe apenas nas salas escuras e nos palcos iluminados?

O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.