Com o início dos novos mandatos autárquicos, é impossível não reparar que a cultura continua a ter, em geral, menos importância do que deveria. Todos falam do seu valor, da sua relevância para a cidade, para a economia, para as pessoas… mas, na prática, ficamo-nos, na maior parte das vezes, por palavras. Falta continuidade na aplicação das políticas públicas culturais, falta planeamento, e falta ligação às comunidades, que muitas vezes não são envolvidas. E sem isso, a cultura acaba por ser tratada como acessória, algo que aparece de vez em quando, e depois desaparece.

É um padrão que se repete há anos. Há discursos inspiradores, promessas bonitas e intenções certas, mas pouca ação concreta. O orçamento encolhe. Os projetos ficam a meio. O que poderia ser uma política pública sólida acaba reduzido a eventos isolados, como encontros esporádicos cumprindo apenas uma checklist.

Mas o que realmente falta não é talento, nem ideias. Falta estratégia. A cultura prospera com continuidade nos projetos e nas políticas públicas, e com o envolvimento ativo de artistas, associações e cidadãos, que garantem que os programas culturais respondem às necessidades e interesses reais da comunidade. Quando há planeamento, quando há vontade política, os resultados aparecem.

Os Jardins do Bombarda, em Lisboa, são um bom exemplo disso. Um antigo hospital psiquiátrico transformado em espaço de residências artísticas, feiras e oficinas. Um sítio aberto às pessoas, onde a cultura aproxima, junta e cria comunidade. É o contrário do modelo habitual: em vez de fechar, abre; em vez de isolar, liga.

Como este, há exemplos fora das grandes cidades, o programa Arte e Coesão Territorial, que apoia iniciativas em várias regiões do país, mostram que é possível fazer cultura com continuidade e impacto real nas comunidades.

Além disso, há sinais encorajadores de que a cultura pode chegar a todos. Por toda a Europa, multiplicam-se projetos que levam arte às escolas, às praças públicas e aos bairros frequentemente marginalizados, criando oportunidades de contacto com a cultura mesmo para quem raramente entra num teatro ou numa galeria.

Em Portugal, o Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses, destaca que fatores como escolaridade e recursos económicos influenciam significativamente os hábitos culturais da população. Estes dados reforçam a necessidade de políticas públicas que promovam o acesso generalizado à cultura, visando a inclusão social e a redução das desigualdades culturais.

É aqui que entra o marketing cultural, não o de outdoors e slogans, mas o de planeamento estratégico, comunicação com propósito, que envolve a comunidade. Quando usado assim, o marketing cultural não serve para “vender” cultura, mas para lhe dar vida. Para que os projetos ganhem identidade, se tornem sustentáveis e cheguem às pessoas de forma real. Fazendo da cultura não só um “evento”, mas um elemento vivo da cidade.

Investir em programas culturais contínuos, como aponta a OCDE, não é apenas uma questão de valor social: projetos bem estruturados aumentam a receita local e geram emprego, evitando a dispersão de recursos e a precariedade em ações pontuais.

Este novo mandato autárquico podia ser o momento para mudar o rumo – e ainda poderá. As câmaras podem e devem apoiar programas contínuos em vez de ações pontuais, apostar na descentralização dentro da própria cidade, envolver associações locais, artistas regionais e escutar os cidadãos.

A cultura não se impõe por decreto; constrói-se com tempo, confiança e presença. Exige investimento – sim – mas também proximidade e escuta.

E isto não depende apenas dos decisores políticos. Cidadãos, associações, artistas, todos têm um papel. E é responsabilidade de todos garantir que a cultura seja central na vida das cidades: ao participar em eventos, pequenos e grandes, ao apoiar projetos independentes, pressionando por políticas culturais contínuas e envolventes. Cada gesto conta. Porque a cultura não floresce no vazio: precisa de público, de comunidade, de participação.

Portugal podia fazer da cultura uma ferramenta estratégica: social, económica e humana. Já há quem o prove todos os dias, muitas vezes sem apoios nem visibilidade, como demonstra o relatório de execução do Programa LVT +Cultura 2024.

Mais do que luxo, mais do que um mero extra, a cultura deve ser central não só na vida dos cidadãos, como também no âmbito da governação. E é responsabilidade de todos que assim seja.

Só com ação concreta, presença e compromisso coletivo a cultura poderá deixar de ser um parente pobre e tornar-se um verdadeiro motor social e económico para Portugal.

O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.