Este ano Donald Trump, George W. Bush e Bill Clinton fazem 80 anos.
Esta semana houve dois momentos que me fizeram pensar. Um deles foi aquilo que já leu no título. O outro surgiu numa conversa aparentemente banal com uma amiga. Falávamos de músicos, atuais e do passado, quando ela disse, de forma quase natural: : “ah, mas esse músico não é do meu tempo”. Isso levou‑me a pensar no que chamamos, afinal, “o nosso tempo” .
Porque se continuamos vivos, por mais novos ou velhos que sejamos, as coisas que estão a acontecer são efetivamente do nosso tempo. E aqui volto à primeira frase. Será que alguém considerava o tempo de Bush “o seu tempo” e não considera Trump “do seu tempo”?
Quando começa o nosso tempo? Mas mais interessante que isso, quando é que acaba o nosso tempo?
Naturalmente, e sem sabermos exatamente o dia e a hora, coisas novas começam a aparecer. Deixamos de ver só filmes de animação, passamos a ler legendas. E, de um dia para o outro, aquilo que antes nos entusiasmava passa a ser “não é bem para mim.”
Achamos que é natural. Que faz parte de crescer. Mas talvez não seja tão simples.
À medida que envelhecemos, vamo-nos acomodando. Encontramos o nosso estilo de filmes ou o nosso estilo de música. Não necessariamente um marco como fazer 30, 40 ou 50. Acontece quando deixamos que o algoritmo ou o hábito escolham por nós. Enquanto somos ativos e agimos sobre a cultura, somos contemporâneos, acompanhamos e vivemos o tempo. Quando paramos, o tempo passa por nós.
Deixámos de ter a escolha de uma loja de aluguer de vídeos para o conforto de casa, e de um algoritmo que progressivamente nos conhece mais e mais. E é aqui, exatamente aqui, que ficamos com uma dualidade. A mesma dualidade que vejo no trabalho diariamente: quando otimizamos para uma métrica, otimizamos o mais possível. Temos na ponta dos nossos dedos todas as opções que existem, mas o algoritmo, para nos manter felizes, sugere-nos cada vez mais do mesmo. O próprio pensamento na produção de cinema e séries foi substituído e otimizado para a retenção, não para a descoberta. A aposta segura é a sequela e não a ideia original.
A aposta mais segura é ver o que gostámos e não ir à procura do que podemos vir a gostar.
Também me acomodo. Também deixo muitas vezes o algoritmo decidir. É fácil terminar um dia com uma série que já conheço, de um certo estilo que me permite desligar.
Há pouco tempo um amigo desafiou-me: como forma de sair da zona de conforto, pedir sugestões e recomendações a pessoas, por mais próximas ou afastadas que sejam.
Donald Trump, prestes a fazer 80 anos, vai a meio do seu mandato como presidente dos Estados Unidos. Não pediu autorização para continuar a ser contemporâneo. E nós? A pergunta então não é “quando é que o nosso tempo acaba?” A pergunta é: “quando é que decidimos que acabou?
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.