Um vitorioso terceiro lugar

Nas eleições autárquicas no passado Domingo, na Renânia Vestfália, o Estado mais populoso da Alemanha, a União Democrata Cristã (CDU) do Chanceler Merz ganhou com 33% e os sociais-democratas (SPD), parceiros da coligação da CDU no governo, ficaram em segundo lugar, com 22%. O partido nacionalista AFD ficou em terceiro lugar.

Mas nem tudo são rosas, e muito menos cravos, porque se nas últimas eleições municipais a AFD tinha tido 5,1%, teve agora 15%. Ou seja, triplicou o voto. E isto, apesar da intensa campanha de propaganda a acusar o partido de Alice Weidel de radicalismo e de neo-nazismo. O sucesso da AFD na Renânia-Vestfália, bem longe dos seus feudos da ex-Alemanha Oriental, é mais um sinal de que “a Democracia” não está a funcionar “como devia”.

Aparentemente, a qualificação pelo Departamento Federal para a Protecção da Constituição, a “secreta” alemã, da AFD como “comprovada organização extremista de direita” e as pressões para a proibição do partido, não têm tido grande efeito junto dos eleitores. A última sondagem para as eleições parlamentares alemãs dá a AFD em primeiro lugar (27%) seguida pela CDU (26%) e pelo SPD (15%).

Brasil – um processo político

O progresso da Direita nas urnas enerva; felizmente, nem só de eleições vive a Democracia. No Brasil aposta-se agora no papel correctivo dos tribunais para a “salvar”. A condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão por “conspiração contra a democracia” por um tribunal cuja maioria dos juízes foi nomeada pelo governo de Lula correu mundo e fez a alegria de dois académicos americanos, Filipe Campante, da John Hopkins University, e Steven Levitsky, de Harvard, que trataram logo de elevar o Brasil a grande farol da democracia no New York Times.

E se, no Brasil, o candidato da direita popular foi condenado pelos juízes políticos escolhidos pela Esquerda; na América, com um tribunal supremo de maioria conservadora, aconteceu o contrário. Ou seja, sob um diáfano manto jurídico, foram, um e outro, processos políticos.

A composição do Tribunal, da chamada Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal Brasileiro, que condenou Bolsonaro, os seus ex-ministros da Justiça e da Defesa Anderson Torres e Sérgio Nogueira, o seu candidato a vice-Presidente Walter Braga Netto, o almirante Almir Garnier, o general Augusto Heleno e o seu Ajudante Mauro Cid e o presidente da Agência Brasileira de Inteligência era a seguinte: Presidente, Carlos Zanin, nomeado em 2023 por Lula da Silva; Relator, Alexandre de Moraes, o todo poderoso inimigo jurado da Direita, nomeado em 2017 por Michel Temer; Cármen Lúcia, nomeada em 2006 por Lula da Silva, Luiz Fux, nomeado por Dilma Rousseff, e Flávio Dino, nomeado em 2024 por Lula da Silva.

Flávio Dino filiou-se, em 2006, no Partido Comunista do Brasil, uma dissidência de esquerda do Partido Comunista Brasileiro; foi um partido maoísta, que participou na guerrilha, no tempo do regime militar. Dino era o ministro da Segurança aquando da invasão do Congresso em 8 de Janeiro de 2023 e o seu comportamento, ao não accionar a protecção do Congresso, não foi inocente.

Um processo político, um crime político, juízes políticos, um tribunal político. Com grande descaramento, o académico Steven Levitsky ainda se mostrou indignado com o único voto contrário, o do juiz Luiz Fux, que absolveu todos os acusados, com excepção de Mauro Barbosa Cid, o “delator premiado” que, por isso, pôde ser perdoado.

A delação de Mauro Cid foi a peça essencial da acusação para incriminar os outros réus.

O outro método

O outro método com que os “defensores da Democracia” tentam contrariar o crescente desfavor que encontram nas urnas é a criminalização dos opositores, tornando-os vulneráveis à justiça privada dos “salvadores do mundo”, de que é protótipo o “antifascista” Tyler Robinson, assassino de Charlie Kirk.

O “Bella Ciao” que o homicida gravou nos cartuchos das balas, mostrando alguma erudição histórica, era uma canção dos “partigianni” antifascistas, que lutaram contra os fascistas da República Social Italiana e que, depois da vitória, os liquidaram sumariamente aos milhares. O jovem Tyler dotou também os restantes cartuchos de outras inocentes “inscrições culturais” (com lhe chamaram alguns comentadores) reveladoras, desta vez, da sua erudição em história contemporânea no domínio do activismo antifas e do gaming e do trolling informático.

Como sublinhou a propósito o historiador Victor Davis Hanson, o “discurso de ódio” da Esquerda, praticado e encorajado por intelectuais, académicos, jornalistas e comentadores, ao escalar os epítetos da demonização, cria um verdadeiro “exército das sombras” de potenciais “justiceiros”, prontos a suprimir, pela violência, quem está contra eles.

Porque é disso que se trata. A imputação de falsas acusações a Kirk – como a de “racista” ou de “fascista” – não basta para disfarçar que, para os militantes de uma esquerda representada por convicção ou servilismo “cultural” em números substanciais na comunicação social doméstica, é sobretudo de sublinhar que “os outros”, os Kirks e os que pensam como ele, não têm perdão e merecem ser silenciados que se trata.

A radicalização é de parte a parte, mas a ideia de que há certas ideias que são inadmissíveis numa sociedade liberal e democrática vem hoje da Esquerda. Bem como a conclusão de que, sob a pressão adversa das urnas e em falhando as “linhas vermelhas”, os defensores de determinadas ideias políticas mais “populares” – que podem até ser só conservadoras ou de senso comum – e que não são nenhuma minoria, correm o risco de ser liquidados. E ninguém se deve surpreender muito se o forem, uma vez que se “puseram a jeito” ao serem “portadores de discurso de ódio” certificados ou em vias de certificação.

Se a Democracia não funciona, é preciso pô-la a funcionar.