“Acordas cedo para ir ao ginásio nas férias? Que disparate!” A frase de espanto de uma amiga deixou-me a pensar. Afinal, as férias servem para descansar ou para deixar de cuidar de nós?

Não me interpretem mal: eu gosto de descansar. Sou, aliás, adepta da expressão brasileira “fazer coisa nenhuma”, muito mais animadora do que o clássico português “não fazer nada”. Mas honestamente não percebo quando é que esta ideia de estar de férias passou a significar perder todas as regras e rotinas diárias.

A minha amiga não estava a falar apenas do ginásio. Estava a expressar uma ideia muito enraizada hoje em dia: parece que cuidar de nós passou a justificar o abandono de todas as rotinas. Curiosamente, é exatamente isso que vejo acontecer tantas vezes com o sono. Dormimos como quem vai acumulando pequenas prestações em atraso durante todo o ano e esperamos liquidar a conta em agosto.

Na prática clínica encontro estas duas situações com frequência. Se por um lado há quem assuma que “precisa das férias para pôr o sono em dia”, também há quem defenda que “as férias servem para não termos restrições e para fazer o que bem nos apetecer”. E por isso, em que é que ficamos? É boa ideia recuperar o sono perdido ao longo do ano durante as férias, ou é melhor manter a rotina?

Vamos por partes.

Quando dormimos pouco durante meses, acumulamos cansaço e podem surgir outras queixas diurnas. Depois chegam finalmente as férias e acreditamos que algumas manhãs a dormir até mais tarde são suficientes para “pagar a dívida”. Todos conhecemos alguém que chega às férias convencido de que vai dormir doze horas por noite durante uma semana e regressar completamente recuperado. Gostava que fosse assim tão simples, mas não é. Proteger o sono é muito mais complexo do que dormir mais ou menos horas. Implica regularidade, equilíbrio emocional, saúde e capacidade de desligar do dia.

É verdade que nas férias há aspetos que favorecem o sono e o bem-estar emocional: poder acordar sem despertador, escolher um horário de sono mais ajustado ao que o corpo pede, passar mais tempo ao ar livre, conviver com outras pessoas, diversificar atividades, sentir menos pressão profissional, entre outros. Só que descansar não é exatamente o mesmo que recuperar. E quando os horários de sono mudam radicalmente durante vários dias, o organismo também sente essa alteração. Se por um lado as férias podem “aliviar” uma parte das consequências de dormir pouco, alguns efeitos da privação de sono perduram. O organismo adapta-se ao modo como vivemos todos os dias, e não apenas ao que fazemos durante duas ou três semanas por ano.

Confesso que também gosto de dormir um pouco mais nas férias. Gosto de aproveitar para fazer sestas ocasionais e desligar o despertador. Mas isso é diferente de acreditar que duas semanas conseguem compensar um ano inteiro de privação de sono. É por isso que me preocupa um pouco a forma como olhamos para as férias, como se fosse possível viver onze meses em permanente défice e esperar que uma ou duas semanas resolvam tudo. Depois regressamos ao trabalho, e voltamos muitas vezes aos mesmos horários, exigências e escolhas que, poucos meses antes, nos tinham levado à exaustão. O maior problema não é a falta de férias, mas sim a forma como colocamos o sono sistematicamente no fim da lista das prioridades.

Seja como for, as férias oferecem-nos algo muito mais valioso do que horas extra de sono. São uma excelente oportunidade para observar como dormimos quando a vida abranda. Por exemplo, se não usar despertador, a que horas acordo naturalmente? De quantas horas de sono preciso realmente para me sentir descansado? Como muda o meu humor quando acordo sem pressa? O que acontece quando passo mais tempo na rua? Quando deixo o telemóvel de lado antes de dormir? Quando tenho tempo para conversar, caminhar ou simplesmente “fazer coisa nenhuma”?

Como psicóloga e somnologista, estas perguntas interessam-me muito mais do que saber quantas horas alguém dormiu durante as férias. Porque talvez seja aí que estejam muitas respostas esquecidas sobre as verdadeiras necessidades de sono de cada um.

As férias podem assim funcionar como um laboratório. Um espaço onde experimentamos uma versão da nossa vida em que o sono deixa de ser aquilo que sobra do dia para voltar a ocupar o lugar de destaque que merece. Um laboratório onde não estamos apenas a descansar, mas também a descobrir quais as condições denque o nosso corpo precisa para funcionar melhor.

E o que fazemos em setembro, quando a vida voltar “ao normal”? Os filhos voltam à escola, os horários apertam, o trânsito instala-se de novo, o trabalho acumula-se. Será que faz sentido querer manter exatamente o ritmo das férias? Diria que talvez não, que precisamos de nos adaptar a cada contexto e fase do ano. Mas podemos trazer connosco informação valiosa que o corpo nos dá durante as férias, se nós quisermos ouvir.

Talvez percebamos que funcionamos melhor quando mantemos uma hora relativamente regular para acordar. Ou que um jantar demasiado tardio nos dificulta o sono. Ou que meia hora sem ecrãs antes de deitar faz mais diferença do que imaginávamos. Ou ainda que um passeio ao final da tarde ajuda mais do que mais uma hora agarrado ao telemóvel. Podem parecer pequenas mudanças, mas o bom sono constrói-se precisamente assim: pela repetição de pequenos comportamentos, muito mais do que por grandes gestos ocasionais.

Talvez a minha amiga continue a achar um disparate acordar cedo para ir ao ginásio nas férias. E está tudo bem. Cada um descansa à sua maneira. O que espero é que, quando setembro chegar, nenhuma de nós precise das férias para recuperar da vida que leva. Porque não precisamos de viver como se estivéssemos sempre de férias, mas podemos tentar viver sem depender tanto delas para recuperar.

Teresa Rebelo Pinto é psicóloga e somnologista. É fundadora da Clínica Teresa Rebelo Pinto, onde coordena uma equipa multidisciplinar de psicologia e sono.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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