Portugal foi eleito “Economia do Ano” pela The Economist. É uma distinção que soa bem, dá para discursos e rende excelentes slides. Mas, depois de fechar o artigo, o leitor português continua a fazer exatamente o mesmo que fazia antes: contas.
Crescemos mais do que a média europeia, dizem-nos. Com estabilidade orçamental, responsabilidade e maturidade institucional. Tudo certo. Mas há algo que não bate certo quando o prémio internacional colide com a vida real: o país premiado é o mesmo onde a habitação virou ficção científica, os salários um teste de paciência e o Estado um parceiro omnipresente que nunca chega atrasado — apenas chega sempre mais pesado.
Talvez seja esta a nossa verdadeira competência: parecer melhores por fora do que por dentro. Não é um defeito exclusivo. É apenas uma arte que fomos aperfeiçoando com método e algum treino histórico.
A macroeconomia gosta de gráficos elegantes. A vida real prefere recibos e filas. A primeira vive bem com médias; a segunda vive mal com exceções. Portugal é hoje um país onde o desempenho agregado impressiona mais do que a experiência individual. Somos um bom aluno na fotografia de grupo, mas tropeçamos quando a câmara se afasta.
O prémio não surge do nada: crescimento económico, inflação controlada, défice reduzido, níveis de empregabilidade e uma imagem externa de previsibilidade. Tudo isso conta — e conta muito. O problema começa quando confundimos reconhecimento externo com resolução interna. Quando achamos que um selo substitui uma reforma. Ou, pior, quando acreditamos que já fizemos o suficiente.
É aqui que entram os grandes planos.
Portugal adora planos. Grandes, estratégicos, visionários. Com horizontes de cinco, dez, vinte anos. Planos que prometem reformar o Estado, simplificar a economia, resolver a demografia e preparar o país para o futuro digital. Planos que surgem sempre com uma convicção impressionante: desta vez é que é.
O problema não é a ambição. É a execução. Ou, mais precisamente, a falta dela.
O Estado português tem uma relação curiosa com a modernização: fala muito nela, mas aplica-a pouco. Simplifica procedimentos, mas multiplica exceções. Digitaliza formulários, mas mantém a lógica. Reduz taxas aqui, cria obrigações ali. Cada reforma vem acompanhada de um manual de instruções maior do que o problema que se propunha resolver.
Não é por acaso que Tocqueville avisava que o maior perigo para a liberdade não vem do caos, mas do excesso de tutela bem-intencionada. Portugal parece ter levado isso como desafio.
Ser “Economia do Ano” com um Estado pesado não é impossível. Mas é instável. Cresce-se apesar do sistema, não por causa dele. E isso tem limites.
O investidor aprecia estabilidade macroeconómica, mas não se apaixona por burocracia. O empreendedor aceita impostos, mas não tolera imprevisibilidade. O trabalhador adapta-se, mas cansa-se. E o cidadão começa a desconfiar quando lhe dizem que tudo está a correr bem, enquanto sente que viver ficou mais difícil.
Talvez o maior risco deste prémio seja o conforto. A tentação de achar que chegámos. Que o essencial está feito. Que agora basta gerir.
Não basta.
Portugal não precisa de mais planos estratégicos nem de novas siglas reformistas. Precisa de algo muito mais simples e muito mais difícil: um Estado que saiba parar. Que saiba remover obstáculos em vez de os substituir. Que entenda que governar não é desenhar o futuro em PowerPoints, mas libertar o presente de amarras desnecessárias.
Ser “Economia do Ano” é bom. Mas não é um ponto de chegada. É, no melhor dos casos, um aviso de que estamos a crescer, sim — mas ainda não sabemos bem porquê, nem por quanto tempo.
A verdadeira distinção não será um prémio internacional. Será quando a economia vá bem e isso deixe de parecer estranho.