Há quem analise Portugal através do crescimento do PIB, da execução do PRR ou da evolução da dívida pública. Eu continuo convencido de que basta um almoço de domingo em casa de uma família portuguesa; ao fim de quinze minutos, já se percebeu tudo.
A avó é a primeira a chegar, trazendo a tiracolo uma icónica caixa de gelado da Olá. Lá dentro não há gelado, mas sim arroz-doce.
Na verdade, nunca teve gelado. Ninguém sabe porque lhe continua a chamar “a caixa do gelado”, mas ninguém ousa contrariá-la. É rigorosamente a mesma lógica com que continuamos a rotular de “temporárias” certas medidas fiscais que já sobreviveram a quatro legislaturas.
Entretanto, o pai começa a cortar o pão e lança a pergunta que une mais portugueses do que a própria seleção nacional: “Então… isto dos impostos?”
Ainda ninguém serviu a sopa e já há uma reforma fiscal completa desenhada em cima da mesa. Ele ouviu dizer que o café subiu mais do que o mínimo de existência; ninguém confirma os números, mas todos validam a indignação. Em Portugal, o Orçamento do Estado é como os termos e condições da internet: ninguém os lê, mas toda a gente garante que estão mal feitos.
É então que chega o primo do Luxemburgo… ou da Irlanda, ou dos Países Baixos, já que todas as famílias têm um.
Vem bronzeado, diz que em Portugal continua a comer-se como em lado nenhum e, ao fim de cinco minutos, faz a pergunta mais inocente do almoço.
“Então… já compraste casa?”
Segue-se um silêncio desconfortável.
Não porque a pergunta seja ofensiva, mas porque hoje em dia é humor negro.
Aproveitando o silêncio constrangedor, a mãe muda estrategicamente de assunto e pergunta se alguém quer mais batatas.
Em Portugal, as batatas resolvem conflitos com uma eficácia que faria inveja a qualquer cimeira da NATO.
Ao fundo da mesa, ouve-se o tio.
Sabe exatamente como resolver os grandes problemas estruturais do país; nunca resolveu o problema da infiltração na garagem, mas isso são pormenores logísticos.
Hoje o tema é a onda de calor. Explica, categórico, que os 43 graus são “um exagero da comunicação social” e que, no seu tempo, “havia calor a sério e ninguém se queixava”.
Discursa em camisola interior, com um guardanapo de papel colado à testa e a escassos centímetros de três ventoinhas que o separam de um colapso térmico iminente.
Ao seu lado, o cunhado partilha que descobriu um investimento infalível, introduzido por aquelas que são as três palavras mais perigosas da língua portuguesa: “Conheço um rapaz…” Compra ouro, vende criptomoedas e multiplica fortunas numa aplicação cujo nome termina obrigatoriamente em “X”.
Quando questionado sobre o risco, sorri com a serenidade de quem nunca perdeu um euro: “Risco? Nenhum.”
Cinco minutos mais tarde, pede vinte euros emprestados para pôr gasolina.
Entretanto, o sobrinho de vinte e oito anos observa tudo em silêncio.
Continua a viver em casa dos pais porque fez as contas: lá fora, o mercado exige que se escolha entre pagar a renda ou comer.
Como aprecia ambas as atividades, decidiu adiar a independência para uma data a combinar com o setor imobiliário. É, sem qualquer margem para dúvida, o economista mais sensato da mesa.
“No meu tempo…”, começa alguém, e o guião já se adivinha.
Os avós tinham o escudo, os pais tinham casas a preços humanos e os netos têm palavras-passe de dezasseis carateres com autenticação em duas etapas. Ninguém consegue trocar de século com ninguém.
À sobremesa, chega finalmente a pergunta inevitável: “quem leva o resto do arroz-doce para casa?”
Esta é a única negociação verdadeiramente eficaz de toda a tarde.
Não há grupos de trabalho, não há consultas públicas, nem comissões independentes para estudar a melhor forma de dividir o tacho. Discutiram-se os impostos durante uma hora para resolver a sobremesa em dez segundos.
Ninguém sai dali de acordo sobre a política, a habitação ou o preço do café, mas todos sabem, com absoluta certeza, quem vai herdar a última colherada.
Talvez seja essa a nossa verdadeira vantagem competitiva: não concordamos em nada, discutimos tudo e, ainda assim, ninguém sai daquela casa com fome.
Se o Estado gerisse o país com a mesma diplomacia com que uma família gere um tacho de arroz-doce, se calhar já não estaríamos aqui a falar de impostos. Estávamos só a pedir mais uma colher.