Nada é verdadeiro, tudo é permitido, Hasan bin Sabbah (O Velho da Montanha, líder da seita islâmica Hashashin (Assassinos))

Como designarão os historiadores do futuro a era que vivemos? Deixo-lhes o nome: Idade da Mentira. Mentira agora reclamada pelas multidões. É a húbris, que como se sabe termina em dolorosa punição.

E quando começou a manifestar-se (que acontecimentos a anunciaram) esta nova Idade, com avanços e recuos, mas sempre mais nítida porque é assim o movimento da História?

Com o comunismo e o nazismo.

Primeiro foi servidão imposta a golpes de terror. Depois aceite, a seguir voluntária, hoje desejada e reclamada, eleita como o nazismo. Depois da terraplanagem do niilismo, dos caboucos do Maio de 68, do obscurantismo ultra-relativista do tudo igual a tudo, a verdade à mentira, o bem ao mal, agora finalmente a consagração ululante do reino da mentira — “Venha mais”, é o que se ouve e vê! “Não queremos verdade, dêem-nos a mentira!”

Um exemplo acabado de uma figura política? Trump, o triunfo do caos, dos EUA vem sempre o clímax.

Produto do pós-modernismo, Trump é o primeiro presidente pós-moderno. O que ele faz é “mudar os limites da Realidade Atingível”, na terminologia da “magia do caos”, uma espécie de ocultismo pós-moderno a que está ligado. Uma forma de expressar o desejo de criar a própria realidade, um mundo montado, para o qual o próprio Trump contribui internacionalmente. Leiam-se por aí os seus mensageiros e assusta a notícia das ligações que o Chega parece estar a procurar com ele — nada de novo, portanto, se for assim, apenas grau. Repare-se o que fazem na nossa escala os trumpesinhos domésticos, à esquerda, como à direita, a multiplicarem-se pelo mundo.

O pós-modernismo e o desconstrutivismo prepararam os fundamentos para o ceticismo epistemológico que mina a consciência ocidental, uma espécie de nihil cínico que vai dominando a vida quotidiana, como Nietzsche há mais de um século previra vir a caminho. Muito antes da “pós-verdade se tornar um chavão político, o pós-modernismo sabia tudo sobre fake news, “factos alternativos”, de que Trump e os trumpesinhos se tornaram grão-mestres.

Querem um exemplo português do ruir da fortaleza da consciência e da liberdade? Exemplo até ao paroxismo de despudor? Louçã no Banco de Portugal e no Conselho de Estado. E um exemplo chocante da servidão na comunicação social? O artigo no Expresso (16/10) do mesmo Louçã. Um Trump trotsquista culto e calculista a vituperar o ódio social, político e racial, racial, sim, e onde meteu o seu Trotsky? — ele que destila ódios em cada palavra, expressão de face, gesto.

Onde estão hoje os mosteiros recônditos escondidos nas montanhas da Europa onde perante outros bárbaros, mas bem diferentes cujos efeitos poderiam tornar-se benignos, se refugiou o saber e o relâmpago da civilização para reflorir um dia? As universidades que deviam ser hoje esses mosteiros estão de rastos aos pés do paganismo novo.

E os resistentes? Marginais, párias, os novos leprosos, intocáveis em vias de extinção. O que lhes resta?

“Uma punhado de sal encheu a boca do escravo tagarela.”*

*Albert Camus, O Exílio e o Reino, “O renegado ou um espírito confuso”.