É verdade que já passaram uns bons dias desde o feriado do último 10 de Junho e dos discursos polémicos que então foram proferidos nas cerimónias oficiais que se pretendiam de celebração desse feriado nacional, supostamente de comemoração de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Em todo o caso, por já terem de facto passados alguns dias e, agora, portanto, com a calma e ponderação que a distância, normalmente, confere ao espírito, escrevo a presente reflexão.

De facto, não vou hoje aqui falar sobre as particularidades do discurso feito, p. ex., por Lídia Jorge que tanta celeuma gerou. Isso já oportunamente foi feito e penso que, no essencial, com propriedade. O discurso foi lamentável a todos os títulos, mas não deixa de trazer à baila a tese wokista que, claramente, lhe está subjacente e claro desejo de alterar a narrativa histórica (por muito que Lídia Jorge tenha dito que não, tudo no seu discurso aponta em sentido contrário) e proceder, por via disso, ao tal «revisionismo histórico» que pretende transfigurar todo o entendimento que o povo Português (e já agora, do Ocidente como um todo) tem de si próprio para assim, segundo me parece, controlá-lo de forma conveniente e direcionada. A ideia é passarmos ter uma História de agressores e vítimas, sendo, naturalmente, os portugueses (e o Ocidente, em geral) como um dos «grandes vilões da História» que, por isso, terão de sofrer agora pelos seus grandes pecados do passado. Daí a tónica na questão esclavagista, porque, de forma natural, deixa as pessoas chocadas e com pouca reação. Não está em causa a sua ocorrência histórica, mas claramente o enquadramento que lhe é pretendido dar pelo wokismo e veiculado, diga-se o que se disser, notoriamente, pelo discurso de Lídia Jorge, está transviado e eivado de intenções de culpabilização coletiva tendo em vista precisamente a tal concretização do «revisionismo histórico» e consequente «vilanização» histórica do povo português.

E o mesmo se diga, segundo julgo, relativamente ao projeto do Memorial às Pessoas Escravizadas que se pretende que seja construído na cidade de Lisboa. Tudo no discurso dos seus promotores leva a uma tal consideração: fazendo fé na notícia publicada pelo «Observador» sobre esta matéria em 24 de Junho de 2024, p. ex., o «[…] objetivo principal é prestar tributo à memória dos milhões de africanos “escravizados por Portugal ao longo da sua História, nomeadamente entre os séculos XV e XIX”. O monumento visa homenagear as “vítimas e resistentes de ontem e de hoje”, promover “o reconhecimento histórico do papel de Portugal na escravatura e no tráfico de pessoas escravizadas” e evocar os legados desse longo período na sociedade portuguesa atual, “desde a rica herança cultural africana às formas contemporâneas de opressão e discriminação.” A proposta visa ainda “contribuir para o reconhecimento do papel central que Portugal, e em particular a cidade de Lisboa, tiveram na escravatura e tráfico de pessoas escravizadas”, celebrar a resistência africana “contra a opressão da escravatura” […]. (sic). O essencial deste conteúdo está ainda, aliás, à data de hoje, disponível no site de uma associação promotora deste projeto designada DJASS – Associação de Afro descendentes.

Ora, só por esta linguagem, pode-se verificar que se trata claramente de um projeto que procura «vilanizar» a História portuguesa e, não tenhamos ilusões, por via disso, os próprios portugueses. Como se de facto, o esclavagismo não fosse já uma prática ancestral, altamente difundida e levada a cabo, p. ex., já na Antiguidade Clássica ou durante a chamada Era Viking; durante a época assinalada pelos promotores daquele projeto não fosse uma prática generalizada, levada a cabo senão por todos, por quase todos os povos de então, e não questionada por ninguém. Inclusivamente, sem margem para dúvidas, fortemente praticada pelos próprios povos africanos, desde logo entre si e como prática económica com o exterior. Isto já para não falar do facto de, verdadeiramente, ter sido no Ocidente Europeu onde o movimento intelectual e político do abolicionismo foi efetivamente iniciado e levado à prática, integrando-se Portugal no mesmo desde logo com as leis anti-esclavagistas promulgadas pelo Marquês de Pombal ainda durante o século XVIII. Inclusivamente, tem de ser dito, nenhum movimento abolicionista efetivo foi encetado em África e pelos seus povos, tanto que, a título de exemplo, apenas em 1942, por pressão dos Aliados Ocidentais nesse sentido, é que a escravatura foi oficialmente abolida na Etiópia pela monarquia local (e, pasme-se, as primeiras leis com esse intuito foram até levadas a cabo em 1935 e 1936 pelo poder fascista italiano que invadiu e ocupou aquele país, também com a desculpa de extinguir a escravatura no mesmo).

Tem assim tudo para dividir e acirrar pessoas contra pessoas, criando desconfiança e sentimentos de hostilidade e recriminação dentro do seio da sociedade portuguesa. Por mais que sejam as auto-proclamações de «virtude» e de «bondadismo» que lhe procurem associar, a meu ver, tendo em conta o acima dito, parece que o resultado final, independentemente das intenções (delas está o inferno cheio, como se sabe), poderá muito bem se encaminhar para isso. Além do mais, também parece que a intenção é funcionar como drum beat para o aprofundamento da agenda woke e extremista.

De facto e agora em termos mais gerais quanto ao pretendido «revisionismo histórico» que alguns grupos pretendem promover, «vilanizando» a época da expansão europeia, em geral, e portuguesa, em particular, sempre me pareceu e continuo disso convencido (e não sou dado, de todo, a teorias da conspiração) que, além do controle que se procura ter da sociedade através daquele (gerando uma sociedade complexada e desconfiada de si mesmo), ribombando auto-proclamações de «virtude» e «regeneração», livrando os demais do pecado, claro está sem deixar de promover a sua agenda e controle de cariz político e social, um tal movimento é ainda desejado e apoiado extramuros por países fora do chamado mundo ocidental atento o fim de, através do mesmo, se dividirem as sociedades ocidentais por dentro, colocando em cheque a sua autoconfiança e autoridade moral e, assim, obtendo ganhos de poder à sua custa.

Do ponto de vista pessoal, só fica por encontrar uma resposta plausível relativamente à pergunta que não se consegue deixar de colocar neste tipo de situações: mas por que motivo é que criamos nós próprios, nas sociedades ocidentais, estes «novelos de lã» infinitamente emaranhados? Porque nos colocamos a nós mesmo em tais situações?

Seja como for uma possível resposta a tal questão, parece-me que, acima de tudo, sem deixar de atender sempre aos meios democráticos e legítimos, não devemos deixar de estar atentos e conscientes também a este respeito, pois, quando passamos a deixar que a História passe a funcionar como arma de arremesso político, a final, ninguém fica a ganhar com isso, acabando por, mais tarde ou mais cedo, funcionar a mesma como um bumerangue que cai sobre a cabeça de todos.