Se hoje lhe aparecer um vídeo perfeito, curto, emocional, com “provas” e com tom de certeza, acredita?
Esta não é uma pergunta filosófica, mas prática. Porque se a IA não “inventou” a propaganda, tornou-a mais rápida, mais barata e mais difícil de auditar. A propaganda deixou de ser massificada e passou a ser personalizada. Os algoritmos não difundem apenas mensagens, mas ajustam-nas cirurgicamente ao perfil psicológico, comportamental e emocional de cada utilizador. É propaganda taylor-made. É programação de emoções e vontades.

A conclusão é desconfortável. Porque o claro risco para a democracia portuguesa em 2025 não residiu apenas na mentira, coisa antiga e praticada com afinco por todos os quadrantes políticos. Residiu na velocidade e na escala, que não só encurtaram o ciclo de correção pública, como deslocaram a disputa dos factos para a da discussão de impressões.

Portugal teve legislativas em maio, autárquicas em outubro e uma campanha eleitoral para as presidenciais durante praticamente metade do ano, que expôs o sistema a uma permanente pressão informativa.

Nesse cenário, a IA funcionou sobretudo como multiplicador de capacidade: com uma produção acelerada, custos mais baixos, manipulação audiovisual mais acessível e maior escala de experimentação criativa.

O primeiro sinal dessa deterioração esteve na agenda: O tema “imigração” ganhou centralidade e o relatório do OberCom, no âmbito do IBERIFIER, aponta um aumento superior a 200% das publicações sobre imigração no Facebook entre 2024 e 2025, com narrativas de invasão e islamização a enquadrar episódios de desinformação.

A política passou a competir com uma economia de atenção que recompensa emoção, identidade e choque, muito acima da explicação e nuance. Simplesmente a janela para aprofundar e discutir qualquer tema eleitoral, diminuiu para ciclos de 24 horas ou menos.

O segundo sinal esteve no formato. O vídeo consolidou-se como meio dominante, com montagem, voz, legendas, memes e recombinação de excertos televisivos.  E não se tratou apenas de estética, mas de uma verdadeira arquitetura de influência.

Existem inúmeros exemplos de vídeos que combinam, peças jornalísticas, imagens parlamentares e imagens geradas por IA, com a alteração do ritmo e tom de voz de um adversário político com um propósito de criar impacto e alterar a perceção sobre a realidade.

Mesmo sem o chamado “deepfake” clássico, parece-me que se deu uma erosão de autenticidade e aumentou a dificuldade do público em distinguir realidade, metáfora e montagem.

O terceiro sinal esteve numa magra resposta institucional. É verdade que ainda em 2025, surgiram iniciativas interessantes do ISCTE e CNE para medir, classificar e denunciar ações de desinformação e publicidade paga, mas mesmo com o fim da publicidade política pelo Meta, a verdade é que assistimos a uma migração para formatos orgânicos e influência paga não declarada desses conteúdos e a emergência de “micro” criadores e conteúdo político, com menor rastreabilidade pública, tornando o cenário ainda mais confuso e perigoso.

A verdade é que quando se junta uma agenda algorítmica que premeia o choque e conflito, vídeos persuasivos e canais menos auditáveis, regressamos à questão que coloquei no início: O problema central não é a existência de falsidades, mas a sua capacidade de circular mais depressa do que a correção das mesmas. E agora?

Em 2025 provou-se que há um verdadeiro risco democrático e, bem sei, que alguns acham que só tem um sentido político, mas é apenas uma questão de tempo até que tenha vários, com inclinações políticas sempre radicais, seja da direita ou da esquerda, mas unidos pelo mesmo propósito criar conteúdo cada vez mais chocante e emocional, seja como for e doa a quem doer.