O ensino superior em Portugal mostra hoje um sintoma preocupante que não pode ser ignorado. Pela primeira vez em muitos anos, há mais vagas do que candidatos: 49 595 jovens concorreram à primeira fase deste ano, menos 9 046 do que em 2024. Este dado não significa falta de talento ou de ambição, mas sim uma mudança de percepção: estudar já não compensa da mesma forma que no passado.

O peso financeiro é decisivo. Arrendar um quarto para estudar em Lisboa custa em média 500 euros por mês, havendo casos que chegam aos 700. No Porto, os valores rondam os 400 a 450 euros e a média nacional é de 415 euros. Somando alimentação e transportes, a despesa anual de um estudante deslocado pode ascender a 10 a 12 mil euros. É um esforço incomportável para muitas famílias, sobretudo quando o retorno profissional não é garantido.

A verdade é que, em demasiados casos, esse retorno falha. A taxa de desemprego entre diplomados ronda os 15% e os salários de entrada em várias áreas não ultrapassam os 900 a 1 000 euros líquidos. Muitos licenciados acabam ainda em empregos fora da sua área de formação, o que representa um desperdício de talento e de investimento. Ao mesmo tempo, sectores estratégicos do país continuam a clamar por profissionais: engenheiros, especialistas em tecnologias, técnicos de manutenção, electricistas ou trabalhadores qualificados do sector primário. Nestes domínios há procura real, salários mais competitivos e futuro assegurado, mas o ensino superior insiste em manter cursos desligados destas necessidades.

Durante demasiado tempo, o sistema universitário foi medido pela quantidade de diplomados, não pela sua relevância para a economia. Criaram-se vagas e cursos que alimentaram estatísticas, mas não responderam ao desafio central: preparar os jovens para o mercado de trabalho e para o desenvolvimento nacional. Hoje, a fatura chega em cheio. Os jovens fazem contas e percebem que a universidade já não é sempre um investimento com retorno, mas muitas vezes um risco financeiro.

Portugal precisa de virar o ensino superior para as verdadeiras necessidades do país. Isso significa reorientar a oferta formativa, aproximar universidades e politécnicos das empresas, reforçar áreas estratégicas e, em paralelo, dar dignidade ao ensino técnico e profissional, para que carreiras como a electricidade, a manutenção industrial ou a agricultura moderna não sejam vistas como escolhas menores, mas sim como pilares do futuro económico. É igualmente indispensável expandir a rede pública de residências estudantis, porque o alojamento é hoje a maior barreira de acesso ao ensino superior.

Mais do que estatísticas, está em causa o papel transformador da educação. Não podemos continuar a insistir em cursos sem futuro, enquanto faltam profissionais em sectores decisivos para o crescimento económico. O ensino superior deve voltar a ser um verdadeiro elevador social, capaz de garantir que o esforço de estudar se traduz em oportunidades reais de vida e em progresso para o país.