Na sua mensagem de Natal, o Primeiro-Ministro apelou a que os portugueses adotassem a “mentalidade de Cristiano Ronaldo”. A referência é compreensível. Cristiano Ronaldo tornou-se um símbolo global de ambição, disciplina, exigência e superação. Com talento, trabalho e uma obstinação rara, construiu uma carreira ímpar e projetou o nome de Portugal para uma escala verdadeiramente planetária.

O problema não está no exemplo. Está, sobretudo, no alcance que lhe damos.

Portugal não é feito apenas de futebolistas excecionais. É feito também de cientistas, engenheiros, investigadores, artistas, professores, médicos ou empreendedores que, longe dos holofotes, constroem percursos de excelência em universidades, laboratórios, empresas e centros culturais espalhados pelo mundo. Muitos deles com formação sólida, carreiras consistentes e impacto real — mas sem camisolas, estádios ou transmissões em horário nobre.

Talvez tivesse sido útil lembrar que também se pode ser “Cristiano” na ciência, na tecnologia, na cultura ou na educação. Que o mérito, a ambição e a disciplina não pertencem a um desporto. Que o estudo, o conhecimento e a especialização continuam a ser caminhos legítimos — e necessários — para a realização individual e para o progresso coletivo. Essa mensagem teria um valor simbólico poderoso, sobretudo num país onde, demasiadas vezes, o sucesso académico parece invisível ou socialmente subvalorizado.

Há ainda um dado que não pode ser ignorado. Para alcançar o que alcançou, Cristiano Ronaldo teve de sair de Portugal, como tantos outros portugueses antes e depois dele. Muitos altamente qualificados, hoje a viver e a trabalhar no estrangeiro, não por falta de ambição, mas por falta de condições, de escala, de reconhecimento ou de oportunidades compatíveis com o seu talento.

É aqui que o discurso político começa a revelar a sua fragilidade. Celebramos a mentalidade vencedora, mas convivemos há décadas com uma economia de baixo valor acrescentado, um Estado excessivamente central na vida social e económica, uma dependência persistente de subsídios e transferências, salários médios baixos e uma percentagem inaceitável de portugueses em situação de pobreza ou quase pobreza. Mais de cinquenta anos após o início da democracia, os avanços são inegáveis, mas os bloqueios estruturais persistem.

Talvez o verdadeiro problema seja outro: faltam, na política, “Cristianos Ronaldos”. Não no sentido da fama ou do protagonismo, mas no sentido da exigência, da ambição estratégica, da capacidade de pensar o país a longo prazo e de recusar a mediocridade como destino inevitável. Falta uma cultura política capaz de premiar resultados, de valorizar competência, de assumir riscos e que não se conforme com a gestão do mínimo.

A mentalidade de Cristiano Ronaldo não se resume a querer ganhar. Resume-se a criar condições para ganhar. E isso, num país, não depende apenas do esforço individual. Depende de políticas públicas, de instituições, de liderança e de visão.

Se queremos mais “Cristianos”, é preciso mais do que discursos inspiradores. É preciso um país que não obrigue os seus melhores a partir para poderem, simplesmente, ser quem são.

* O texto reflete a posição do autor e não, necessariamente, a da APESP.