Como é hábito em Portugal, agora falamos todos de uma qualquer idiotice que alguém achou por bem inventar. No entanto e antes disso:
Então agora ninguém previu a subida do CHEGA? Para rir, certo? Ninguém olhou para as sondagens? A menos que estejam todos a alinhar na conversa do Bispo Ventura que as sondagens falharam (e com dolo como gosta de sugerir o Bispo). A verdade é que acertaram. Sejam sérios.
Sobre o que é, para mim, o CHEGA, já perorei o suficiente nas páginas do Observador, sempre sem fazer previsões eleitorais. Não era necessário. Estavam nas sondagens.
Não nego que tive esperança que o CHEGA perdesse bastantes votos, após a missa trágico-cómica da Praça do Município. Para quem não viu, o Bispo Ventura recuperado de uma quase morte voltou à vida e as deputadas que ajudavam à celebração choravam copiosamente num género de orgasmo colectivo. Pensei que todos os da minha Bolha reagissem negativamente à cena patética, foleira e falsa. Tal não aconteceu. A minha Bolha já não é o que era.
Falemos então das Bolhas: Não há quem não venha dizer que vivemos (quem?) numa Bolha e não conhecemos o país real. Ora, foi por conhecer o país real e o sentir português que tentei, na medida das minhas capacidades, que existissem menos votos no CHEGA. Se só uma pessoa mudou o seu sentido de voto por algo que escrevi, sinto-me recompensado. Foi pena que mais escribas (com outro nome, qualidade, reputação e alcance) não tivessem dito o que o CHEGA realmente é: Uma mão cheia de nada.
Agora fala-se muito de que devemos (quem?) sair da Bolha. Acho isso uma coisa pacóvia.
Vivo em Lisboa. Passam-se meses (anos?) sem que me cruze com um cigano. Imigrantes para mim são os condutores de Uber e os pobres coitados que pedalam para nos trazerem comida, ou as empregadas brasileiras que temos em casa ou nos atendem nos restaurantes. Conclusão: vivo na Bolha. Mas quem é que não vive numa Bolha? Os que moram em bairros sociais? Os alentejanos que vivem perto de ciganos e que vêm as suas aldeias cheias de imigrantes, porque não existe mão de obra suficiente para trabalhar na lavoura? Não são essas, igualmente, Bolhas? Não será que todos nós, cada um de nós, vive na sua Bolha?
Qual é, portanto, a Bolha que deve ser atendida em 1.º lugar? Qual é a Bolha mais importante?
No concelho de Oeiras – o concelho com mais literacia e maior pib per capita – O CHEGA teve uma votação condizente com os disparates que preconiza. Por que razão? Certamente pelo facto de os oeirenses viverem numa Bolha.
Na capital do país, o CHEGA foi relegado para o lugar que merece. Porque Lisboa é uma Bolha.
Caro leitor, Bolhas sempre existiram: Pensionistas, funcionários públicos, jovens, retornados, ex-militares da guerra colonial, os do interior do país, etc., etc.
Do que agora nos tentam convencer é que devemos atender às Bolhas onde o CHEGA consegue votos. Então e as outras Bolhas? Pago impostos – bastantes – que ajudam a pagar o RSI de ciganos e estou convencido que a grande maioria dos votantes do CHEGA está naquele escalão isento de IRS. No entanto acham mal que os meus impostos paguem o RSI de ciganos. Para a nossa agricultura funcionar e podermos ter comida na mesa, precisamos dos imigrantes que vêm trabalhar nos nossos campos. No entanto, as pessoas que vivem na província não gostam de os ter lá. Ninguém lhes diz que sem esses imigrantes, os campos secavam e os poucos empregos que ainda existem no interior do país, acabavam de vez (além de tornar o país -ainda mais – dependente do estrangeiro). De igual modo, sem os imigrantes que possibilitam a abertura e a manutenção da hotelaria portuguesa, essa fonte de receita diminuía. Mas isto sou eu, que já se sabe: vivo na Bolha.
Ainda sobre imigrantes: No nosso sistema de pensões, os pensionistas de hoje recebem devido aos descontos dos activos de hoje. Sabem os pensionistas do CHEGA que o sistema tinha falido sem as contribuições dos imigrantes e que ou os imigrantes se vão embora antes de atingirem a idade da reforma ou é melhor que continuem a chegar novos para compensar? Ora eis uma Bolha que pode rebentar.
Pedro Passos Coelho – sempre visto como alguém que arrumava o CHEGA e que é contra o Não é Não – disse, e bem, que não havia mal nenhum em que os portugueses com qualificações emigrassem. No seu Governo as pensões mais baixas não foram reduzidas, não se fecharam as fronteiras e não se acabou com o RSI nem a ciganos nem a ninguém. PPC também vivia na Bolha? É o mais certo.
Olhar para a Bolha do CHEGA é tornar o país numa única e pequena bolhinha. A Bolha dos descontentes, do portuguesinho invejoso, rancoroso e contente com o facto de todos serem pobres.
Não se governa um país a favor de uma Bolha, mas de todas.
PS: Na noite das eleições, existiu um único comentador que soube colocar o dedo na ferida: Sebastião Bugalho. Claro que chocou de frente com o corporativismo da classe. Parabéns, Sebastião.