A minha mãe morreu em nove meses. Nove meses. O tempo de uma gravidez, normalmente associado à chegada de uma vida. No meu caso, foi o tempo que demorou a perder a pessoa que me deu a minha. Seis anos depois de tudo ter começado, continua a ser difícil compreender como uma vida inteira pode ser interrompida num espaço tão curto de tempo.
Tudo começou em setembro de 2020, em plena pandemia da COVID-19. A minha mãe detetou uma mancha na mama, procurou ajuda médica, foi ao Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa, e fez uma biópsia. Aguardava os resultados. Ao mesmo tempo, tinha dores nas costas, atribuídas durante algum tempo a uma possível ciática. Em outubro, tínhamos um jantar marcado. Mas as dores tornaram-se insuportáveis e foi às urgências. Um exame revelou que o cancro já estava espalhado. Era um cancro da mama metastático, em estádio IV, com metástases nos ossos.
Naquele momento, percebi que o cancro era da minha mãe, mas a doença passou também a fazer parte da minha vida.
O cancro não entra apenas no corpo de quem adoece. Entra em casa, interrompe conversas, cancela planos, altera rotinas e até a forma como atendemos o telefone. Tudo passa a depender de médicos, exames, consultas e notícias que possam significar alguma esperança. E existe um sofrimento silencioso em quem acompanha: um medo que não aparece nos relatórios médicos e uma exaustão e tristeza que nem sempre encontra espaço para ser dita.
No dia seguinte, a minha mãe estava internada no IPO. Seguiram-se meses de tratamentos e internamentos, em plena pandemia. Os tratamentos procuravam controlar a doença, travar a sua progressão e ganhar tempo. Não havia uma perspetiva de cura. E é difícil aceitar que, de repente, aquilo que mais desejamos deixe de ser a cura e passe a ser simplesmente mais tempo. O futuro deixa de ser garantido.
Mais tarde, o cancro chegou também ao cérebro. Vieram os esquecimentos, a desorientação e as alucinações. A minha mãe teve episódios de delirium, um estado confusional agudo. Comecei a perdê-la antes de a perder verdadeiramente.
A certa altura, procurei ajuda psicológica. Fui à psicóloga para fazer o luto enquanto a minha mãe ainda estava viva. Tentava preparar-me para uma ausência que não queria aceitar. Ninguém nos ensina a acompanhar uma mãe que está a morrer. E o chamado luto antecipado não nos protege do que vem depois.
A minha mãe morreu com uma septicemia, nove meses depois de tudo ter começado. Por mais que tentasse preparar-me, a morte chegou com uma dimensão de ausência profunda, impossível de antecipar. Perdi também todos os momentos que imaginava viver com ela.
É por isso que escrevo em outubro. O Outubro Rosa tem um papel essencial na sensibilização para o cancro da mama e na promoção da deteção precoce. Mas não pode ser apenas sobre histórias de sobrevivência. Nem todas as mulheres têm a oportunidade de detetar a doença numa fase inicial; nem todas respondem aos tratamentos; nem todas chegam a beneficiar dos avanços da ciência. A história de quem vive com cancro da mama metastático também pertence a esta conversa. E a de quem fica depois da morte, igualmente.
Falar de doença avançada não é retirar esperança. É reconhecer a urgência de compreender melhor as metástases, a resistência aos tratamentos e as formas de proporcionar mais tempo e melhor qualidade de vida. A ciência não pode mudar o que aconteceu à minha mãe, mas pode transformar o futuro de outras mães, outras filhas e outras famílias. Sei o que significa esperar por uma alternativa que talvez nunca chegue.
Seis anos depois de tudo ter começado, aprendi que o luto não acaba quando o calendário avança. Volto a rir, a trabalhar, a fazer planos. Mas há momentos em que a primeira vontade continua a ser pegar no telefone e contar-lhe alguma coisa. Há músicas, cheiros e frases que me devolvem, sem aviso, aos corredores do hospital. O tempo passa, mas nem tudo passa com ele.
Por detrás de cada número sobre o cancro da mama, há uma pessoa. E há também quem tenha de aprender a viver sem ela. Neste Outubro Rosa, gostava que nos lembrássemos das mulheres que já não podem contar a sua história e de quem continua a viver com a ausência. A investigação pode não ter chegado a tempo da minha mãe. Mas pode chegar a tempo de outras.
A minha mãe morreu. Eu fiquei. E falar de cancro da mama também tem de ser falar disto, muito para além de outubro.