Hoje são cerca de oito e meia da manhã, e decidi começar a escrever em jejum. Lembrei-me de como é possível olhar para a mediocridade em que a arte portuguesa se encontra. Ora, seja então arte, aquela que pouco se conhece, ou aquela que todos dizem que ganhou os prémios necessários para ser conhecida.
A arte é a essência do artista, o que o mantém vivo, tal como o que o mantém destemido. Hoje podemos ver o seu declínio, passou de arte para montra, e de montra para ridicularização.
“A Arte existe como autoridade humanista, a Ciência limita-se à autoridade científica… a Arte é sempre a reprodução da esfera.” – Almada Negreiros in “Sobre o Cinema”, ed. Assírio Alvim.
Sobre esta reflexão de Almada, a Arte já estava em declínio, até porque a verdadeira (Arte) se define como esfera, ou seja:
É a realidade do nosso mundo, tal como a diáspora, as conversas entre os outros; a sua verdadeira essência vive em comunidade ou mesmo na natureza.
Se existe falta de meios de promoção da mesma, existe também o escasso mecenato. Desenvolver a verdadeira Arte como riqueza de conhecimento aos nossos leitores deve ser a ambição do artista.
Já os supermercados dos nossos dias estão sobrecarregados de livros sem autenticidade. Ora são de autoajuda, ora são meros romances como prova de amor verdadeiro. E, como tal, é provável que o pequeno meio literário, onde viva a verdadeira literatura, esteja nas pequenas livrarias que se aguentam arduamente nos meios onde poucos gostam de encontrar as verdadeiras obras-primas.
Enquanto isso. Estou triste, demasiado triste para ponderar o fim da Arte, até porque ela só morre quando morre o Artista.
Hoje é possível perceber que quem arrisca são os poucos. E não se petisca de qualquer forma, petisca-se com aquilo que é comer com os olhos no ridículo. Posso afirmar que as pessoas estão a adorar consumir a espuma da ridicularização.
Se existe vontade de publicar por parte dos pequenos editores? Existe, e claro, como sempre, os enormes pouco arriscam. Quanto à enormíssima qualidade, existe, mas não é complacente com a “qualidade procurada” para as grandes editoras.
E essa “qualidade procurada” qual é? Pois claro, a falta de nome na praça, ou mesmo não existirem vontades para o fazer.
Sei que a vontade de muitos é continuar a publicar a mediocridade; outros, que procuram as grandes editoras, e por lá têm a sorte de publicar, perdem-se novamente, e muitos dentro do meio elitista percebem que é necessária a mudança, mas nada se faz.
É a verdade que querem: ora aqui a têm. Não há mecenato no nosso país. Precisamos de mais investimento artístico.
O que me assusta nos dias de hoje é como é possível termos continuado na verdadeira época do ridículo. Se na altura de Almada Negreiros a Arte estava em declínio, hoje ficou realmente e assustadoramente pior.
Enquanto isso, irei fazer uma pausa no texto, e declarar-me ao meu pequeno-almoço.
Voltei, e são nove e quinze. Explico-me a mim mesmo: se não existirem meios reais para que se mude imediatamente o investimento para toda a verdadeira cultura, iremos manter a ignorância, os artistas morrerão pobres, e serão apenas lembrados depois da sua morte.
Se é isto que se quer, ora que se declare a verdade antes.
Esta é a verdade que todos precisavam de ler.
As grandes editoras não querem investir, não são “de boas marés para arriscar”. Se me dizem que arriscam, ora eu penso, como arriscam quando existe tamanha qualidade no meio literário português e hoje revela-se silenciada?
Como arriscam? Entregando prémios, e deitando fora os escritores depois de os entregar. Como arriscam quando os deixam a morrer à fome?
A realidade está aos olhos da mercê. Ora, comecem a arriscar ou então a literatura estará morta.
O que será dela?
Tal como referiu Almada Negreiros: “Então, ia morrendo a Arte, mas afinal só morreram os autores de Arte.”