Uma História nacional com 900 anos seria sempre complexa, e a História Portuguesa tem razões que justifiquem os seus valores e os receios. Se os anos de monarquia tradicional, especialmente até ao século XVI, foram marcados por um período de expansionismo, os séculos que se seguiram, foram menos afortunados, já sob regime republicano foram de recuo geopolítico, desordem interna e erosão do prestígio internacional, uma decadência da qual, em muitos aspectos, ainda não conseguimos recuperar.
Os liberais do século XIX cometeram erros imperdoáveis. Num país que vivia em relativa paz social, impuseram uma guerra civil fratricida. Extinguiram ordens religiosas que, apesar das suas imperfeições, garantiam a instrução, a coesão social e a assistência aos mais pobres, sem providenciar qualquer substituto eficaz em largas regiões do país. A alfabetização regrediu, a cultura popular foi desprezada e a governação passou a servir as ambições doutrinárias dos ideólogos, em vez de respeitar a realidade.
Mas, por muitos erros que os liberais tenham cometido ao destruir a ordem tradicional sem preparar uma nova fundação, o que se seguiu com a implantação da república foi ainda pior. Anos de caos, liderados por executivos de extrema-esquerda, jacobinos, que trataram de apagar a memória histórica,oscilando entre o autoritarismo e a anarquia parlamentar, culminando num Estado de ditadura, de onde socialistas e sociais democratas compartem entre si as glórias de serem os “fundadores da democracia”. O povo Português tem muito medo de guerras, de perder a liberdade e tem abraçado estes “fundadores da democracia” quase como um compasso moral.
A realidade é que Portugal é um país estagnado, demasiados anos entregue a governos do Partido Socialista que por definição ideológica são estranhos ao conceito de propriedade privada e criação de riqueza, mas tem políticos bem falantes, e que dizem que são democratas. Quando o país se torna insustentável, o povo afasta-os, e há sempre um governo Social Democrata, que por comparação parece sempre muito agressivo na sua tentativa de nos impedir de colapsar financeiramente, até porque disso depende a sua própria sobrevivência, os faz parecer quase conservadores, e a sociedade assim os aceita.
Nestas peripécias temporais, perderam-se os liberais. Muitos andavam dissolvidos nos partidos, envergonhados. Outros proclamam-se liberais, mas defendem uma nova forma de marxismo”o wokismo”, na qual confundem o princípio elementar do Estado não ter qualquer interferência na vida privada dos indivíduos, com separatismos identitários.
A verdade é que o contexto Português, neste momento precisa do liberalismo, o liberalismo puro, clássico e como causa tanta aversão entre as elites “democráticas da esquerda”, o famoso papão do “neoliberalismo”.
A pobreza, aliada ao colapso da segurança social, à fuga de novos talentos e total descontrolo da imigração, confronta o nosso país com a necessidade urgente dos valores liberais clássicos, com pouco espaço para gradualismo: Defesa da vida, da liberdade e da propriedade privada.
As sondagens indicam que efectivamente há um cenário possível no qual a Iniciativa Liberal, pode ter que ser parceiro da AD e garantir uma maioria absoluta.
Este cenário é absolutamente vital, para a vida deste partido mas também do país.
A Iniciativa Liberal, que parece ter concluído, depois de expulsar os liberais clássicos, que tinha que os voltar a evocar, ou impõe o seu programa, o único com capacidade de colocar Portugal alinhado com os países mais avançados da Europa, ou vai dissolver-se na AD, aceitando todas as condições impostas e navegando nas águas que nos vão dando para navegar.
Entre as coisas que a Iniciativa Liberal não pode falhar, por muito que os media apontam estas medidas como irresponsáveis, está a criação dos dois escalões de IRS e a descida do IRC para 15% até ao fim da legislatura (excessivamente modesto e gradualista, comparado com os 12,5% da Irlanda ou os 9% da Hungria) e a redução do Estado. Não deve imiscuir-se de explicações, deve torná-las populares, dizer a verdade deve ser popular.
Portugal não necessita de uma companhia aérea, de um Banco público,de uma televisão, nem de uma Companhia Ferroviária falida e ineficiente, e é necessário esclarecer que as privatizações não fariam desaparecer estas empresas por defeito, se são lucrativas vingarão, simplesmente não temos que pagar mais por elas e seria possível empregar o dinheiro dos cidadãos nas áreas onde o Estado efectivamente deve estar, e tem falhado.
A insustentabilidade da saúde e da segurança social, são temas em que a IL também terá que exigir uma mudança radical: factualmente, entre um sistema de saúde plenamente público, e um sistema com PPP, as necessidades continuam sem ser atendidas, e é muito impopular, ou assim parece, insistir numa solução que funciona onde foi implementada, adopção do sistema Bismarck, adaptada a uma ADSE universal, afastando os fantasmas do sistema norte-americano.
A Iniciativa Liberal como portador, pelo menos em teoria, das políticas liberais em Portugal tem que decidir que destino dará ao liberalismo Português: um lugar caricatural, austero, merecedor de se perder, ou um lugar de revolução inconformista de quem decide abandonar complexos ou ambições pessoais inerentes aos homens, e corrigir os erros do passado aproveitando uma potencial posição estratégica de poder, onde não se encontra desde o século XIX.