Quantas mulheres continuam a acreditar que já não vão a tempo? Durante anos, as ciências da computação e a tecnologia foram associadas a percursos lineares: formação técnica desde cedo, entrada no setor e construção de carreira na área. Esse modelo continua válido, mas está longe de ser o único.

O problema é que continuamos a tratá-lo como se fosse.

Hoje, a tecnologia está em todo o lado. Os termos tecnológicos entraram no nosso dia a dia porque os avanços se estenderam a múltiplas áreas, da saúde ao desporto, com aplicações práticas que vão desde dispositivos wearables a soluções emergentes em femtech.

O código deixou de ser um nicho de especialistas. Tornou-se uma ferramenta de compreensão e de apoio à tomada de decisões.

Com linguagens de programação de alto nível, como o Python, é possível trabalhar grandes volumes de dados, automatizar processos e extrair dos dados insights relevantes. A programação tornou-se uma aliada da capacidade de decidir melhor e de forma estratégica.

E, ainda assim, persiste uma ideia silenciosa: a de que entrar neste mundo tem um momento certo.

A curiosidade não tem idade.

Mulher, acima dos 40, formação em economia e finanças, com memórias de Lotus 1-2-3 e Visual Basic – programar? Durante muito tempo, pareceu improvável. Até deixar de ser.

Essa mulher sou eu.

O que começou como uma dificuldade em lidar com grandes volumes de informação tornou-se o ponto de partida para regressar aos estudos e fazer um MBA em Data Science. A partir daí, a curiosidade deixou de ser pontual para passar a estrutural.

Hoje, a programação e a tecnologia fazem parte do meu dia a dia – profissional e pessoal. Não substituem a decisão, mas melhoram o processo – onde o pensamento crítico continua a ser fundamental. Não decidem por nós, mas expandem a nossa capacidade de escolher.

A questão, por isso, não é se é tarde.

A questão é por que razão tantas mulheres continuam a sentir que pode ser.

Essa hesitação existe. Eu senti-a. E, em certa medida, continua a existir. Não por falta de capacidade, mas porque o modelo dominante continua a sugerir que este caminho deveria ter começado mais cedo.

Mas a experiência não é um obstáculo. É uma vantagem competitiva.

Entrar na tecnologia não exige rutura. Exige curiosidade.

Pode começar com aprendizagem progressiva, com experimentação, com pequenos passos. E não tem de ser um caminho solitário.

Comunidades, redes de aprendizagem e espaços de partilha tornam a tecnologia mais acessível, mais concreta e menos distante. Mostram que não existe um único ponto de entrada – e que o caminho se constrói.

O mundo da tecnologia e da programação continua disponível para quem quiser começar.

A única forma de chegar tarde é desistir.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.