Quando eu era criança, havia uma recomendação simples: “Não se fala com desconhecidos”.

Sou a irmã mais velha de três filhos e sempre ouvi: “Não se diz onde vamos”.

Não…

Não…

Cresci na cidade, no meio do anonimato confortável. Nas cidades mais pequenas, ou mesmo na aldeia, todos sabem quem somos na burguesia rural.

Talvez por ser a irmã mais velha, e por ter tido um papel de cuidadora dos meus irmãos quando os meus pais estavam a trabalhar, tenha desenvolvido um instinto de sobrevivência.

A primeira lição era não chamar muita atenção. Esta medida tinha vantagens e desvantagens.

A primeira desvantagem surgia quando os poderosos se revelavam. Mas esses tinham sempre uma resposta pronta e eficaz, e ainda têm.

A lição era clara: não chamar muita atenção. E essa estratégia tinha vantagens evidentes , não sermos incomodados, não sermos alvo fácil, mantermos a paz no lugar onde vivemos e trabalhamos.

Hoje, porém, vivemos num tempo em que esta prudência parece ter sido substituída por uma necessidade quase compulsiva de exibição. Muitos querem mostrar que são ricos, inteligentes, famosos e poderosos. E, ao fazê-lo, esquecem-se de algo essencial: a vida privada não é descartável.

E não são apenas os adultos que se expõem.

As crianças e os jovens, muitas vezes sem consciência dos riscos, tornam-se ainda mais vulneráveis. Publicam tudo: rotinas, amizades, horários, estados emocionais. E, quando não publicam, são os próprios adultos a fazê-lo por eles. Esta exposição precoce pode prejudicá-los , desde a perda de privacidade futura até situações de bullying, manipulação ou contacto com pessoas com intenções duvidosas. . O que hoje parece inocente pode transformar‑se, amanhã, numa fragilidade explorada por outros.

Voltando ao início: falam com desconhecidos, revelam hábitos privados, rotinas, localizações, horários. Expõem‑se sem perceber que, ao fazê‑lo, colocam em risco a própria segurança. A banalização da vida privada tornou‑se tão comum que já nem percebemos o que estamos a entregar  e a quem.

A privacidade não é um luxo antigo.

É um espaço que nos pertence e que não precisa de ser exibido para existir.

Num mundo que nos empurra para a exposição permanente, preservar a vida privada é um ato de inteligência. É recusar a ideia de que tudo tem de ser mostrado, partilhado, comentado. É recuperar a noção de que a segurança começa sempre naquilo que decidimos não revelar.

A vida privada não deve ser banalizada.

Estamos a atravessar a última fronteira: a privacidade deve ser cuidada como sempre foi, quando éramos crianças e nos diziam simplesmente: não se fala com desconhecidos.