Em vez de resolver o problema, o Governo agravou os tempos de resposta no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e “conseguiu ter o pior desempenho dos vários sistemas de saúde europeus”, mesmo tendo executado o seu Plano de Emergência. A crítica parte de Fernando Araújo, ex-diretor executivo do SNS, que aponta medidas “mal calibradas” ao Executivo de Luís Montenegro e denuncia mais 400 mil pedidos a aguardar resposta no serviço público.
Num artigo de opinião publicado no jornal Público, o ex-responsável avisa que a gestão da saúde pública está a deixar centenas de milhares de pessoas sem resposta. Fernando Araújo denuncia uma subida de “aproximadamente mais 50% de pedidos à espera, em dois anos” entre o final de junho de 2024, quando existiam 822.577 utentes a aguardar primeira consulta hospitalar, e o período homólogo neste ano, que registou 1.223.110 utentes na mesma situação.
Desde que o atual Governo tomou posse, com o compromisso político de melhorar o acesso, o resultado foi sensivelmente mais 400 mil pedidos que aguardam uma resposta do SNS. Muitos destes doentes terão de ser operados, mas desta forma nem sequer entram nas listas de espera cirúrgica. Sublinho: aproximadamente mais 50% de pedidos à espera, em dois anos”, sublinhou Fernando Araújo.
No artigo de opinião que assina, com base no relatório dos tempos de resposta do primeiro semestre de 2026, o médico — que liderou o SNS entre novembro de 2022 e abril de 2024 — acusa o Executivo de Montenegro de falhar na sua promessa “mais emblemática”: acabar com os casos de doentes oncológicos à espera de cirurgia para além do tempo máximo de resposta garantido.
Isto, porque, segundo os dados citados por Fernando Araújo, a lista de espera para cirurgia oncológica subiu 11% em dois anos, passando de 7.197 para 8.004 doentes. Mais: a 30 de junho, 1.586 pessoas — cerca de 20% do total — continuavam a aguardar intervenção para lá do prazo limite previsto na lei. “Não só aumentaram os doentes oncológicos que esperam, como aguardam mais tempo”, sublinhou o médico.
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“(…) Mais do que o valor, a tendência de crescimento, nesta ordem de grandeza, não deixa grande margem para dúvidas sobre o desempenho do sistema”, reforça o antigo diretor executivo que considera que a situação é “apenas explicável por um conjunto de medidas mal desenhadas e incorretamente calibradas, provavelmente por, de forma sobranceira, não ter sido integrado o conhecimento que existia nas estruturas técnicas do Estado”. Para Fernando Araújo, estes números deixam à vista “uma gestão pouco capaz dos recursos e dos ativos do país”.
Perante as anunciadas medidas do Ministério da Saúde, com o Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgia, aprovado em Conselho de Ministros em outubro de 2025, Fernando Araújo afirma que “mais de um ano depois, ainda não se encontra em funcionamento generalizado” — uma demora que, ironiza, está perfeitamente alinhada com a retórica de Luís Montenegro na máxima do “para o ano é que vai ser”.