O Acordo de Paris nasceu como a grande esperança da comunidade internacional para travar o aquecimento global, sucedendo ao Protocolo de Quioto e criando um compromisso universal para manter a temperatura média abaixo de 1,5 graus. No entanto, quase uma década depois, as conferências anuais das partes continuam a produzir resoluções tímidas, metas adiadas e uma distância crescente entre aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se concretiza. O problema não reside apenas na falta de ambição política. O problema está na própria visão estratégica que sustenta o Acordo de Paris e que o tem tornado incapaz de produzir resultados. Dois erros estruturantes explicam este bloqueio.

Erro estratégico, o inimigo foi mal escolhido

O primeiro erro foi transformar os combustíveis fósseis no inimigo principal da ação climática em vez de centrar o combate onde sempre deveria ter estado, as emissões em si. Esta escolha criou uma batalha estéril entre tecnologias energéticas, colocou países e indústrias na defensiva e alimentou um clima de bloqueio permanente nas negociações.

Ao declarar politicamente que petróleo, gás e carvão devem ser eliminados, o Acordo de Paris gerou a reação natural de setores que continuam a ser responsáveis por grande parte do fornecimento energético mundial. Não se trata de defender combustíveis fósseis, trata-se de compreender que quando se condena um setor inteiro, esse setor resiste. E resiste com força. O resultado está à vista, textos finais cada vez mais ambíguos, compromissos débeis e adiamentos sucessivos de decisões essenciais.

A pergunta que nunca foi feita é simples. Até onde podemos descarbonizar o setor fóssil. Quanto podemos reduzir das emissões associadas às tecnologias energéticas que a economia mundial ainda utiliza diariamente. Em vez de promover esta cooperação, apostou-se quase exclusivamente no desenvolvimento de energias renováveis, deixando para segundo plano a inovação capaz de reduzir emissões na infraestrutura que já existe. Criou se uma corrida para substituir tudo, quando o racional seria concentrar o combate no carbono e não nas tecnologias.

Há setores como o transporte marítimo ou determinadas cadeias industriais onde a substituição completa dos combustíveis fósseis poderá nunca ser viável. Já existem soluções de filtragem e captura que reduzem uma parte significativa das emissões e que poderiam evoluir muito mais se tivessem beneficiado de uma fração do investimento canalizado para as renováveis. Enquanto persistir o paradigma do extermínio em vez da redução, continuaremos a repetir COP que reafirmam intenções e adiam soluções.

Erro estrutural, uma contabilidade climática sem credibilidade

O segundo erro é estrutural e compromete a confiança de todo o sistema. A arquitetura do Acordo de Paris assenta em dados de emissões e em compromissos nacionais cuja credibilidade é limitada. Os países reclamam e acusam-se mutuamente. Os Estados em desenvolvimento insistem que os financiamentos prometidos não chegam, enquanto os países doadores exigem garantias e transparência no uso dos fundos.

A verdade é incómoda, mas evidente. Não existe atualmente uma contabilidade climática global robusta. Existem metodologias distintas, dados incompletos e inventários baseados em estimativas setoriais. Sem métricas universais, sem protocolos de medição e verificação infalíveis, e sem um sistema de registo partilhado e transparente, não é possível gerar confiança. Sem confiança nos números ninguém confia nos compromissos e, sem confiança nos compromissos, o financiamento climático paralisa entre suspeitas e dúvidas.

Hoje existe tecnologia suficiente para resolver este défice. Sensores avançados, inteligência artificial e infraestruturas digitais distribuídas permitem criar sistemas contínuos de medição, registo e verificação, aplicáveis a qualquer indústria, território ou cadeia de abastecimento. A ausência destes sistemas mantém o Acordo de Paris preso a um modelo de contabilidade incapaz de gerar justiça entre países e transparência entre parceiros.

O reflexo deste bloqueio no texto final da COP30

O texto final da COP30 evidencia este impasse. Reforços de financiamento para adaptação sem valores concretos, metas de mitigação reafirmadas sem calendários, reconhecimento da importância das florestas sem novos objetivos quantificados, um mecanismo de perdas e danos sem montantes definidos e uma transição justa dependente de financiamentos que continuam por concretizar. São sintomas de um acordo que não consegue decidir porque não soube, desde a sua origem, identificar o inimigo certo nem construir as ferramentas necessárias para medir o progresso.

Ou corrigimos a visão ou continuamos a adiar o inevitável

O Acordo de Paris não está a falhar por falta de ambição, está a falhar porque centrou a sua estratégia no alvo errado e porque sustenta todo o seu edifício numa contabilidade que não inspira confiança. Enquanto estes dois erros persistirem, todas as futuras COP continuarão a repetir um guião semelhante, com declarações diplomáticas, compromissos insuficientes e metas que se afastam cada vez mais da realidade.

Se queremos evitar que a temperatura média global ultrapasse 1,5 ou 2 graus, é indispensável corrigir a visão estratégica do Acordo de Paris. O combate deve concentrar se no carbono. E a contabilidade climática deve tornar se transparente, verificável e universal, apoiada na tecnologia que já existe e que está subutilizada. Sem esta mudança estaremos apenas a prolongar a ilusão de que o caminho atual é suficiente para chegar a bom porto.