Estamos a falar cada vez mais de saúde mental. O problema é que nem sempre o fazemos bem. Por vezes com boas intenções, frases fáceis e uma confiança excessiva em ideias que soam bem mas não resistem a um mínimo de escrutínio científico. O resultado é paradoxal: mais informação, menos rigor.

Nunca se falou tanto de saúde mental. É, em si mesmo, um progresso. Mas também nunca se venderam tantos atalhos, tanta linguagem terapêutica de bolso e tanta certeza com ar de ciência. E isso dificilmente pode ser considerado progresso.

Há uma parte do debate público que se tornou uma espécie de fast food emocional: rápido, apelativo, pouco nutritivo. E, como acontece com a fast food, a factura chega mais tarde. Em sofrimento evitável. Em culpa mal distribuída. Em políticas públicas que confundem ruído com evidência.

Uma das razões é esta: continuamos a pensar a saúde mental com base em mitos. Mitos populares, repetidos com convicção. Mitos úteis para posts, palestras e boas intenções. Mitos com excelente imprensa. E que, por serem fáceis de partilhar e difíceis de desmontar, tornam-se perigosos.

Foi dessa constatação que nasceu o livro Mitos da Psicologia: não do prazer académico de desmontar crenças, mas da observação reiterada de que ideias erradas, quando orientam decisões reais, tendem a produzir consequências reais. E frequentemente negativas.

Comecemos por um dos mais celebrados: a ideia de que o stress é sempre mau. A frase tem um problema sério — é curta, mas é falsa. E é falsa de uma forma particularmente nociva, porque ignora que, em muitos contextos controlados e transitórios, uma activação moderada pode ser funcional. O que esta ideia incentiva, porém, são duas coisas ao mesmo tempo: o evitamento e a infantilização.

O evitamento, porque transforma qualquer activação normal — aquela que nos põe em movimento, que nos prepara para uma reunião difícil, que nos faz estudar para um exame, que nos ajuda a responder sob pressão — num inimigo a eliminar. A infantilização, porque instala uma expectativa impossível: vida sem fricção, trabalho sem exigência, relações sem conflito e um corpo que reage como se estivesse permanentemente em repouso. Não está. Nem vai estar.

O problema não é sentir stress. O problema é o distresse crónico: prolongado, sem controlo, sem recuperação, sem apoio e sem sentido. Ao confundir tudo no mesmo saco, patologiza-se o que é normal e banaliza-se o que é grave. O resultado é conhecido: falha da prevenção, descrédito do discurso sobre saúde mental e terreno fértil para a ideia de que “agora queixam-se de tudo”. A cultura do “stress zero” pode gerar dois efeitos colaterais muito concretos: culpa e cinismo.

Outro mito persistente é o das personalidades “fortes” e “fracas”. Uma classificação simplista, enganadora, que ignora a diversidade de traços, contextos e recursos psicológicos que moldam a nossa resposta à adversidade. Não há personalidades fortes ou fracas. Há traços, histórias, contextos, recursos e ausência deles. O resto é uma forma socialmente aceitável de dizer: “se não aguentas, o problema és tu”.

Este mito não é neutro. Legitima a estigmatização, empurra o sofrimento para a vergonha e transforma pedidos de ajuda em falhas de carácter. Nas organizações, tem ainda uma utilidade prática: serve para normalizar culturas onde a exaustão é confundida com compromisso, onde a vulnerabilidade é penalizada e onde a resiliência funciona como argumento para não mexer nas causas do problema. Depois chama-se a isto bem-estar. Com um workshop, dois cartazes motivacionais e a consciência tranquila.

Há ainda um terceiro mito, mais recente e extraordinariamente sedutor: a ideia de que, se dissermos muitas vezes que vamos conseguir, se acreditarmos o suficiente, se visualizarmos com clareza, se repetirmos a frase certa — o objectivo acaba por se concretizar. É uma crença com excelente marketing, pontualmente eficaz em contextos específicos e controlados, mas que, na esmagadora maioria dos casos, é irrelevante ou até prejudicial. Sobretudo quando promovida em discursos motivacionais esvaziados de método, dirigidos a pessoas vulneráveis ou sem acesso a competências para filtrar essa promessa.

Quando resulta, é mérito individual. Quando falha, também. O contexto desaparece, as desigualdades evaporam-se e os constrangimentos materiais deixam de existir. A psicologia transforma-se num discurso de auto-responsabilização total, onde a atitude substitui as condições e a motivação dispensa o método. Não é empoderamento. É uma ilusão confortável, com um efeito colateral previsível: quem não consegue sente-se duplamente incapaz — por não ter alcançado o objectivo e por não ter “pensado bem”.

Este tipo de narrativa tem um impacto directo na saúde mental, porque desloca sistematicamente o foco das condições reais — económicas, organizacionais, relacionais — para a suposta insuficiência psicológica do indivíduo. A emoção certa passa a ser apresentada como substituto da intervenção certa. E isso, em psicologia, não é apenas uma simplificação. É um erro.

O mais irónico é que estes mitos prosperam precisamente quando a saúde mental ganha centralidade. Quanto maior a urgência, maior a procura de respostas simples. E quanto maior a procura de respostas simples, maior o mercado de respostas erradas. O ciclo fecha-se com boa retórica e maus resultados.

Prevenir, aqui, não é “ser positivo”. É fazer distinções difíceis.

Na vida individual, começa por distinguir desconforto de incapacidade. Stress de distresse. Tristeza de depressão. Exigência de abuso. São distinções pouco sedutoras, difíceis de comunicar e quase impossíveis de transformar em slogans. Mas evitam muita confusão — e evitam sofrimento desnecessário.

Nas organizações, prevenção é desenhar trabalho que não trate pessoas como consumíveis: autonomia, reconhecimento real, gestão de carga, previsibilidade, possibilidade de recuperação e liderança competente. Não basta falar de saúde mental. É preciso retirar o pé do acelerador quando a parede já está à vista.

Nas políticas públicas, prevenção é resistir à tentação da medida avulsa como substituto de estratégia. Medidas pontuais podem aliviar. Sem uma abordagem estrutural — acesso, continuidade, literacia, integração e avaliação séria — tenderão apenas a administrar sintomas. O país fica com a sensação de que fez alguma coisa. As pessoas ficam com a certeza de que continuam sozinhas quando a moda passa.

A saúde mental não precisa de mais crenças. Precisa de menos crenças e mais conhecimento. Precisa de pensamento crítico — não como pose, mas como higiene. Porque, no fim, a pergunta não é se um mito é reconfortante. É porque um mito se mantém. E que tipo de estragos tende a causar.

Os mitos da psicologia não são apenas uma curiosidade. São pseudociência, desinformação e exemplos de como somos tão fáceis de enganar. E, em muitos casos, um problema de saúde pública.

Francisco Miranda Rodrigues é psicólogo, especialista em Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações e em Psicologia da Saúde Ocupacional. Autor de Como Gerir Pessoas (ed. Presença) e Mitos da Psicologia (ed. Manuscrito), é consultor na área Comportamental, Liderança e Desenvolvimento Organizacional e conselheiro nacional de educação. Diretor executivo da Ordem dos Médicos Dentistas, foi bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses entre 2016 e 2024.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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