Nas últimas semanas, tenho visto multiplicarem-se nas redes sociais vídeos dos novos adeptos de “escolas alternativas”, programas intensivos, sem cadeiras teóricas, diretos ao código e ao produto. O discurso é sedutor, rápido e disruptivo, e o subtexto é cada vez mais explícito: este modelo deveria substituir a universidade tradicional. Concordo com parte do diagnóstico, mas discordo da conclusão: acredito que não devemos escolher entre um modelo e outro, o que precisamos é de um ecossistema onde ambos tenham lugar.
Escrevo como professora convidada de inovação e empreendedorismo na Universidade Católica Portuguesa, por isso não finjo neutralidade. Mas vejo, ano após ano, o que a sala de aula universitária ainda faz e que nenhum bootcamp consegue fazer.
Há uma certa ironia em querer substituir a universidade por escolas hiper-técnicas justamente quando a inteligência artificial torna a competência técnica pura cada vez mais comoditizada. Scott Hartley, um veterano de Silicon Valley, documenta, em The Fuzzy and the Techie (2017), como algumas das empresas tecnológicas mais bem-sucedidas foram moldadas por pessoas formadas em humanidades, que sabiam formular as perguntas certas sobre pessoas, ética e significado. Quanto mais automatizamos o “como”, mais valioso se torna quem consegue pensar sobre o “porquê”.
A universidade não é apenas uma fábrica de empregos
Nas minhas aulas, são muitas vezes os alunos vindos de áreas mais improváveis, distantes da gestão ou da engenharia, que fazem as perguntas mais úteis: para que serve isto, afinal, na vida real das pessoas? Essa capacidade de questionar o óbvio não nasce de um manual técnico, nasce de uma formação que deu tempo para pensar em várias direções ao mesmo tempo.
Talvez seja por esta razão: não absorvemos bem conhecimento novo em gavetas fechadas, precisamos primeiro de as abrir e de as equipar com estruturas mentais e cultura geral, para que qualquer competência técnica tenha depois onde ser arrumada em vez de se perder por falta de lugar. É isso que uma formação ampla proporciona: não só ferramentas para o primeiro emprego, mas a arquitetura mental que permite continuar a aprender ao longo da carreira, em profissões que talvez ainda nem existam.
Reduzir o valor de um curso ao salário do primeiro emprego ignora tudo aquilo que uma formação constrói para além do currículo profissional. Se hoje já não aceitamos que uma empresa seja avaliada apenas pelo lucro trimestral, e lhe exigimos (bem) que preste contas do impacto ambiental, social e de governação que gera, porque esquecemos esse ponto de vista quando falamos de educação? Se o pensamento ESG nos ensinou a olhar para o valor de uma empresa em várias dimensões, o retorno de um curso universitário devia ser lido da mesma forma: não só pelo salário que gera no imediato, o equivalente ao lucro trimestral, mas também pelo capital social que cria, cidadãos capazes de diálogo e de confiança mútua, e pela governação que prepara, pessoas com juízo crítico e sentido de responsabilidade. Um sistema educativo que só mede emprego e salário é tão míope quanto uma empresa que só mede o lucro do próximo trimestre.
O mercado de trabalho não precisa só de universidades
Aqui talvez surpreenda: concordo que a universidade não precisa de ser a única fornecedora de competências técnicas. Politécnicos, escolas profissionais, academias corporativas e os novos programas de formação especializada que agora são ativamente promovidos fazem, muitas vezes, esse trabalho melhor e mais depressa, e não há nada de errado nisso.
O que a universidade tem de distinto, e que nenhuma destas alternativas substitui sozinha, é a sua missão mais ampla: formar cidadãos capazes de pluralismo de ideias, de mobilidade social e de zelo pelo conhecimento especializado ao longo do tempo. Um ecossistema com vários tipos de instituição, cada uma fiel à sua missão, é bem mais robusto do que um sistema dominado por um único modelo.
Os funis estreitos deixam gente pelo caminho
Algumas destas escolas de conceito inovador, agora com grande visibilidade e numerosos defensores, têm uma característica raramente dita em voz alta: o funil entre candidatura e conclusão é muito estreito. A seleção e o ritmo de trabalho são implacáveis, e quem não se encaixa nesse perfil acaba por desistir, histórias que não aparecem nos vídeos das redes sociais.
Ora, a universidade, com múltiplos pontos de entrada e a possibilidade de mudar de rumo a meio do percurso, continua insubstituível para quem precisa de outro ritmo e de outro apoio na sua aprendizagem. Se o sistema educativo for composto apenas de funis apertados, o que acontece com os que são excluídos? Michael Sandel, em The Tyranny of Merit (2020), alerta para os custos sociais de sistemas que tratam quem não vinga em percursos estreitos como quem simplesmente falhou, corroendo a confiança e a coesão de que qualquer sociedade precisa.
Em conclusão, se queremos um sistema de ensino superior sustentável, precisamos de deixar de o avaliar apenas pela empregabilidade imediata. Vamos avaliá-lo também pelo capital cívico, cultural e de inovação que gera ao longo de décadas, e pela quantidade de talento diverso que consegue integrar, não apenas selecionar. Portugal tem hoje um ecossistema plural, com universidades, politécnicos, escolas profissionais e programas intensivos, e essa pluralidade é uma força, desde que nenhuma dessas peças se apresente como a única resposta certa.
A universidade não é apenas uma fábrica de empregos. É uma infraestrutura de pensamento, de cidadania e de inovação responsável, o lugar que prepara pessoas para profissões e desafios que ainda não sabemos nomear. É por isso, mais do que pelo salário do primeiro emprego, que continua a merecer o nosso respeito e investimento.