Campanhas publicitárias, flores estrategicamente colocadas em montras de floristas, jantares temáticos, estadias em hotéis perfumados e coloridos de vermelho e rosa. Abrimos a caixa de e-mail e lá estão elas: as promoções especiais para casais, as sugestões de presentes românticos, as escapadinhas a dois. Perfumes, chocolates, experiências inesquecíveis. “O presente perfeito pode surpreender quem amas”, dizem-nos. Percorremos as redes sociais e somos inundados por declarações de amor, fotografias de casais (aparentemente) felizes, legendas carregadas de juras e promessas eternas. Na televisão, nos cartazes de rua, nos anúncios que nos seguem de site em site, a narrativa repete-se: este dia é para celebrar, e há uma forma certa de o fazer.
Esquecemo-nos de que a pressão colocada neste dia ignora, muitas vezes, realidades de amor não correspondido, relações abusivas ou negligenciadas ou até os desafios de quem tem, por exemplo, uma relação à distância. A saúde mental entra em roda livre, ameaçada por ansiedade, medo de falhar, inseguranças pessoais, desvalorização e sentimentos de inadequação.
Para muitos, este dia não é apenas uma celebração inofensiva do amor, mas um gatilho emocional que pode afetar a saúde mental. A pressão para corresponder às expectativas sociais ou para demonstrar afeto de forma grandiosa pode despertar níveis elevados de ansiedade, inadequação social e solidão. A omnipresença da data — nas redes sociais, na publicidade, nas conversas do dia a dia — pode reforçar a sensação de que falta algo na sua vida, mesmo que, noutras circunstâncias, se sinta plenamente realizado. Para quem acabou de sair de uma relação ou vive um momento de instabilidade emocional, este dia pode dificultar o luto e amplificar a dor da perda.
Mesmo para quem está numa relação, a pressão para criar um momento especial pode ser uma fonte de stress. A comparação com outras celebrações, a ideia de que um gesto precisa de ser suficientemente romântico ou surpreendente, ou mesmo o medo de dececionar o parceiro podem gerar ansiedade. Para alguns casais, este dia não fortalece a relação — pelo contrário, expõe inseguranças, aumenta expectativas irrealistas e pode até desencadear conflitos. O amor, que deveria ser espontâneo e natural, torna-se uma obrigação a cumprir, um padrão a atingir, e esse peso emocional pode transformar o que deveria ser um momento de conexão num teste de performance romântica.
Sinto que o marketing desmedido parece querer dizer-nos como amar e sermos amados. E assim são os dias que antecedem o 14 de fevereiro. A mensagem parece ser clara: se amas alguém, tens de o provar. Se não tens alguém, precisas de encontrar.
Mas será assim para todos? É que esta enxurrada de mensagens bonitas não chega a todos da mesma maneira. Para quem está apaixonado, talvez seja uma atmosfera excitante e um convite para celebrar a relação que vive. Mas para quem está a lidar com um desgosto amoroso e terminou uma relação, a avalanche de declarações públicas pode ser um lembrete doloroso daquilo que já teve e perdeu. Para quem nunca viveu uma história romântica, pode representar uma reafirmação daquilo que sente estar em falta.
E para quem está numa relação, mas simplesmente não se identifica com a celebração, esta repetição incessante pode ser sufocante, e a pressão para “fazer algo especial” pode tornar-se um incómodo, até mesmo uma perceção de falha. Mesmo entre casais felizes, a comparação inevitável pode gerar dúvidas: “Estarei a fazer o suficiente?”, “Será que estou a corresponder às expectativas?”. Para alguns, esta data serve o propósito de redenção anual e um momento para compensar a falta de atenção, cuidado e generosidade durante todo o ano.
O 14 de fevereiro parece ser o dia do “temos de” forçar a presença quando esta virou ausência. Celebrar o amor num dia específico não é o problema – o problema é quando esse dia se torna a única manifestação visível de um sentimento que, no resto do tempo, é negligenciado.
Diariamente, confronto-me com pessoas que mostram que a romantização massiva do amor a dois, impulsionada pelo marketing, cria a ilusão de que estar numa relação é um objetivo supremo e que qualquer vivência amorosa – seja ela casual, platónica ou solitária – é insuficiente.
Não há espaço, nesta narrativa idealizada, para a complexidade dos afetos humanos. Tudo isto pode agravar sentimentos de baixa autoestima, isolamento e tristeza. No fundo, o problema não está na celebração em si, mas na forma como ela nos é imposta — como se existisse apenas um modelo legítimo de viver e qualquer desvio dessa norma fosse um sinal de fracasso.
O Dia de São Valentim, tal como é promovido, não é apenas uma celebração do amor. É também um reforço social de que estar acompanhado é melhor do que estar sozinho. E é daqui que nasce a intolerância para connosco mesmos, para com os outros e para com a sociedade, que nos ensina a romantizar a vida a dois. Tal como nos é apresentado, o 14 de fevereiro reforça uma narrativa única do amor: romântico, visível e digno de celebração anual.
A verdade é que, com tantas campanhas de marketing e expectativas sociais, esquecemo-nos do essencial: o amor é uma experiência subjetiva, diversa e pessoal. Há quem o expresse em grandes gestos e há quem o encontre na rotina do dia a dia. As linguagens de amor variam de pessoa para pessoa, e é válido que possamos preferir um serão tranquilo no sofá ao jantar com champanhe e velas.
E se víssemos o Dia dos Namorados como o Dia do Amor? E se, em vez de uma corrida ao cumprimento de expetativas alheias, este dia servisse o propósito de parar e refletir sobre o amor que cultivamos dentro de nós? E se o amor fosse visto nas suas diferentes dimensões e o pensássemos como algo que vem de dentro para fora, que é genuíno e não imposto pelo calendário?
Falo-vos do amor-próprio, tantas vezes relegado para segundo plano, que merece ser celebrado. Parece-me óbvio que o amor não se mede pelo número de rosas recebidas, pelo tamanho da reserva feita num restaurante ou pela quantidade de fotografias partilhadas nas redes sociais. Porque é que continuamos a ver este dia como uma espécie de ritual público, onde a celebração não acontece intimamente, mas sim sob o olhar atento dos outros? Vivemos numa era em que o amor, tal como tantas outras experiências humanas, se tornou cada vez mais performativo. Já não basta sentir – é preciso mostrar.
O amor nasce do modo como nos tratamos e, consequentemente, permitimos que nos tratem a nós. O amor mantém-se pela liberdade de sermos nós mesmos e de escolher a forma como queremos viver os nossos afetos. Cuidarmos de nós, respeitarmos os nossos limites, apreciarmos a nossa própria companhia – tudo isso é amor. Passar o Dia dos Namorados a fazer o que nos traz prazer, sem culpa ou obrigação, pode ser o modo mais autêntico de celebrar o amor.
O discurso interno, ou amor-próprio, é um dos pilares mais importantes e protetores da saúde mental. É um alicerce que nos permite enfrentar desafios emocionais, sem perder o sentido de valor pessoal. Quando cultivamos uma relação interna saudável, tornamo-nos menos permeáveis e vulneráveis à validação externa e às pressões sociais que nos dizem como devemos amar e ser amados. Neste sentido, o amor por nós mesmos contribui para uma melhor autoestima, através da autoconfiança e da autoeficácia. Se eu souber colocar limites, definir o que é importante para mim e escolher relações saudáveis, sinto-me mais seguro, menos ansioso e mais confiante perante as minhas decisões e a solidão, ou mesmo as minhas escolhas em relação ao modo como desejo celebrar este dia, sem que isto seja doloroso ou represente sofrimento emocional.
Mais do que um conceito abstrato, o amor-próprio manifesta-se no cuidado diário – na forma como nos tratamos, na gentileza com que lidamos com as nossas falhas e na capacidade de nos proporcionarmos aquilo que esperamos dos outros. Passar o Dia dos Namorados a fazer o que nos traz prazer, sem culpa ou obrigação, pode ser o modo mais autêntico de celebrar o amor.
Parece que está na altura de olharmos de forma diferente para este dia, transformando-o no Dia do Amor. Um dia que não pertença apenas aos casais, mas que celebre todas as formas de amar – o amor romântico, sim, mas também o amor-próprio, o amor entre amigos, o amor na família, o amor pela vida. Limitar o amor a um único formato é empobrecer algo que é, por natureza, vasto e plural. O amor acontece nos gestos de cuidado, nas amizades que nos sustentam, na forma como nos respeitamos, nos vínculos que criamos ao longo da vida.
Se pararmos de tratar este dia como um teste à validação romântica e o passarmos a ver como um convite à celebração do afeto em todas as suas expressões, talvez possamos libertá-lo da ansiedade, da exclusão, da culpa e da obrigação. Ao desenvolvermos uma base sólida de aceitação e ao promovermos o amor no seu todo e nas suas diferentes dimensões, tornamo-nos emocionalmente resilientes e encontramos dentro de nós a segurança que tantas vezes procuramos fora.
Talvez o maior presente que podemos dar a nós mesmos seja viver e celebrar o amor todos os dias, com a liberdade de o fazer da forma que nos faz felizes.
Inês Sampaio Figueiredo é mestre em psicologia clínica e pós-graduada em intervenção em crise, emergência e catástrofe, sexologia clínica e terapia de casal. Fundadora e CEO da Clínica Inês Sampaio Figueiredo, tem prática especializada em perturbações de ansiedade, Perturbação Obsessivo-Compulsiva, perturbações da personalidade e quadros de burnout.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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