Começo com uma declaração de interesses, sou médica especialista em Medicina Interna, trabalhei 5 anos num Serviço de Urgência onde fui Chefe de Equipa, desempenho funções em Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), tenho a Competência em Emergência pela Ordem dos Médicos, e possuo, desde Julho de 2025, uma segunda especialidade, a de Medicina de Urgência e Emergência com admissão por consenso pela comissão organizadora.

Por tudo isto, sinto-me na posse de informação privilegiada para vos elucidar sobre o que é ser emergencista e porque é que é tão importante escolher e investir nesta especialidade.

Portugal foi um dos últimos países da Europa a admitir a sua necessidade, mas a partir de 1 de janeiro de 2026 vamos finalmente formar médicos especialistas em Urgência e Emergência.

A lógica era, se enquanto sociedade, quando somos submetidos a uma cirurgia desejamos o cirurgião mais bem treinado, porque não ambicionávamos o médico mais qualificado em emergência para nos receber num contexto em que o desfecho é particularmente tempo-dependente? Esse problema está ultrapassado.

Mas agora do ponto de vista do clínico, porquê escolher esta especialidade?

A resposta não é simples. Há uma nova geração de médicos que se preocupa com a sua qualidade de vida, em ter tempo para família e amigos, em poder viajar e descansar numa ótica de slow living, em ter um rendimento adequado ao estilo de vida europeu e em ser reconhecido pelos pares e pela sociedade. Ora, a urgência é um sítio inóspito, com elevado nível de stress pelas próprias características dos doentes, mas também pela enorme quantidade de tarefas que pode ser necessário desempenhar em simultâneo, e em que o tempo determina uma parte do prognóstico. Para além disso, a urgência tem má imprensa e as condições de trabalho, desde a remuneração ao horário (muitas horas em regime noturno), não são as mais aliciantes – note-se que a maioria das especialidades nos últimos anos tentou reduzir tanto quanto possível o tempo de permanência ou consultoria na urgência. Há também um certo preconceito entre pares porque até agora qualquer médico, mesmo sem uma especialidade, podia trabalhar nestes serviços.

Então, como convencer um de nós no início da sua carreira a ter a coragem de fazer esta escolha?

Identifico pelo menos 13 razões:

1. A urgência é a porta mais frequente de entrada do hospital e no sistema de saúde – é importante que aqui estejam os médicos mais aptos para tratar estes doentes

2. Na urgência não há rotina – é parte do seu “charme”.

3. Observamos doentes com patologias diversas – um bom desafio intelectual.

4. Somos o elo entre as várias especialidades – estamos no centro da ação.

5. Cabe ao emergencista identificar e resolver o problema que ameaça no imediato a vida – haverá maior sensação de adrenalina seguida de recompensa?

6. Cabe ao emergencista decidir que doente deve ficar internado para investigação etiológica de um dado problema clínico ou dar-lhe alta com recomendações especificas e um plano – elevado poder de decisão individual.

7. Cabe ao emergencista discutir com o imagiologista a necessidade de um exame de imagem em regime de urgência de um doente que eles não estão a ver – algumas das melhores discussões clínicas que poderão ter

8. Cabe ao emergencista garantir que cada especialidade envolvida na abordagem de um dado doente se comprometa com um plano por si coordenado – desenvolve elevada capacidade de trabalho em equipa, soft skills e conhecimento técnico

9. É por inerência dele a coordenação da Sala de Reanimação em estreita articulação com Medicina Intensiva, Anestesia, Cirurgia e Ortopedia, sempre que se justifique – o vosso “escritório” é a sala de Reanimação

10.É do emergencista a gestão de balcões, onde garante a discussão atempada dos casos mais relevantes e orienta colegas em formação, tanto internos como alunos de Medicina – papel contínuo e em tempo real na formação de pares em condições particularmente desafiantes

11.Cabe ao emergencista garantir a adequada partilha de informação com a equipa de enfermagem e outros técnicos de saúde – uma equipa multidisciplinar coesa é o segredo para o sucesso em vários contextos, na urgência onde existe a necessidade de elevada performance isto é particularmente relevante

13. O emergencista precisa de tempo privilegiado para formação contínua, de treino com simulação e de realização de estudos clínicos – este ponto está contemplado no atual plano de formação.

E, perdoem-me a visão “cinematográfica”, mas esta especialidade inclui os melhores 15 minutos de todas as outras e este é o médico (a) que todos gostariam de ter por perto.

É evidente que formar emergencistas por si só é insuficiente, outros fatores influenciarão o futuro da especialidade e dos Serviços de Urgência.

É preciso proteger estes profissionais e dar-lhes as condições adequadas ao contexto particular em que trabalham (falo de Centros Integrados de Gestão ou soluções com a mesma finalidade);

É imperativo otimizar a referenciação à urgência e para isso há que aumentar a capacidade dos Cuidados Primários de dar resposta a doentes não críticos – para que estes não saturem a urgência mas encontrem uma resposta no sistema de saúde;

É fundamental incrementar vagas de internamento hospitalar e promover a hospitalização domiciliária.

Ainda assim, pela sua importância, a sua natureza intelectualmente desafiante e livre de monotonia, pelo seu imediatismo recompensador, espero que este novembro seja uma das primeiras especialidades a ser escolhida…e que todas as vagas sejam preenchidas!

Que este seja o princípio de um caminho diferente: mais eficiente, eficaz e funcional para os Serviços de Urgência dos hospitais portugueses.