As conexões entre a Europa e a Ásia já têm alguns séculos, no entanto, instituições como Fórum para o Diálogo Ásia-Europa (em inglês Asia-Europe Meeting, ASEM) foram criadas no final do século XX para promover o diálogo e a cooperação e diálogo entre a Ásia e a Europa. Além das reuniões políticas organizadas por este Fórum — uma cimeira bienal, reuniões para Ministros de Negócios Estrangeiros e para Altos Comissários –, a ASEM promove um festival cultural. No ano passado, este festival teve o seu concerto de abertura em dezembro, aqui em Bruxelas. Os discursos de introdução ao concerto por membros de entidades com sede em na capital Europeia, ecoaram-se uns aos outros e  o amplo consenso era o de que o concerto seria um exemplo do encontro entre Oriente e Ocidente – ‘onde a Europa encontra a Ásia e a Ásia encontra a Europa’.

Sentada na plateia, descendente da comunidade de retornados de Moçambique de ascendência Indiana, eu mesma do encontro entre Oriente e Ocidente, pensei no maravilhoso concerto a que estava prestes a assistir. Com expectativas elevadas e lembrando as músicas cantadas de cada vez que a família se junta, que vão desde fado, a canções devocionais em gujarati e sânscrito, a músicas da Revolução Portuguesa de 74 de Zeca Afonso, vi as luzes na sala escurecerem.

No centro do palco estava, conforme mencionado na brochura que tinha nas mãos, uma cantora francesa, convidada especial que se juntava ao trio de músicos da banda Saiyuki naquela noite. O concerto começou e, juntamente com os sons do koto japonês, tabla indiano e guitarra elétrica do trio original — e músicos convidados que tocavam vibrafone, baixo e bateria –, a cantora no centro do palco começou a cantar em carnático, o estilo da música clássica Indiana. Foi uma tentativa, talvez, de seguir o caminho dos grandes cantores de qawwallis, Nursrat e Rahat Fateh Ali Khan.

O músicos, cada um deles sem dúvida brilhantes, esforçavam-se para criar uma ‘fusão’ que fosse para além da fusão que os instrumentos que tinham nas mãos o seu perfil já era. A fusão tornou-se confusão, e eu esforçava-me para encontrar musicalidade no exercício que ali se fazia. O concerto continuou durante uma longa hora, o canto carnático já só eram sílabas soltas – e as sílabas iam-se acabando. Enterrei-me o mais que podia na minha cadeira, procurei entre as pessoas sentadas ao pé de mim por um sorriso, um riso – mas a plateia, obedecendo às normas sociais, só se riu quando devia e bateu palmas a cada pausa entre músicas.

Olhei em volta, lembrei-me do conto do autor dinamarquês Hans Christian Andersen, ‘O Rei vai nu’. Quem conhece a história sabe que é a de dois alfaiates que prometem um traje novo ao Rei, invisível para todos aqueles que são estúpidos ou incompetentes. Efetivamente os alfaiates nunca tecem nada, mas como é tido e sabido que quem não vê as roupas ou é estúpido ou é incompetente, o Rei vai nu enquanto todos aplaudem o novo traje. Isso até que uma criança aponta e grita ‘o Rei vai nu!’ Seria eu, uma fusão de Oriente e Ocidente, tão ‘estranha’ quanto a música tocada?

Lembrei-me da exposição fotográfica no trabalho que retratava as ‘comunidades da diáspora indiana na Europa’: duas meninas sozinhas com uma expressão desanimada, de uniforme escolar, contra uma parede; dois homens sentados nas escadas no meio de uma rua tocando tabla; mulheres em saris com tinta vermelha no rosto. As fotos, a música de ‘fusão’, não representam normalidade para mim – e para mim, assim como para muitos outros estudiosos do assunto, a Europa e a Ásia não se ‘encontraram’ séculos XX e XXI, encontraram-se há já muito tempo. Um encontro profundamente enraizado na “normalidade” da Europa atual.

O que é importante entender é que a história do encontro da “Europa” e da “Ásia”, dois grupos em si imaginados e inventados, tem ainda partes que permanecem não contadas. O que se conta da história das conexões Europeias com a Ásia, centra-se nas conexões que pertencem ao legado do Império Britânico. Esta forma de lembrar a história, como afirma o antropólogo goês-português Jason Keith Fernandes, ‘elimina as nuances nascidas de outras experiências coloniais e suas ramificações no mundo pós-colonial’. A história do Estado da Índia, por exemplo, é uma história de pontes construídas. Pontes que mais tarde foram usadas por países Europeus como a Holanda, Inglaterra e França, que facilitaram a circulação de pessoas e ajudaram a construir a comunidade que a Europa é hoje.

Esta história, no entanto, não é conhecida. Primeiro, evidentemente, porque o impacto do Império Britânico na história da Ásia excede em muito o do Estado da Índia. Segundo, porque não se deve esperar da Europa abordar o que os próprios portugueses e o currículo escolar português quase não abordam, e quando o fazem, como descrito pela historiadora e escritora Joana Bousa Serrano, fazem-no “de rajada” — como já é o caso desde os anos 80. De facto, em 1988, o historiador australiano M. N. Pearson, ao pesquisar sobre o Estado da Índia, escreveu: “fiquei ciente das enormes lacunas no nosso conhecimento, (…) há vasto material disponível sobre o assunto, mas até agora ninguém sequer olhou para ele”.

Estas ‘lacunas’ históricas, seja na história das conexões portuguesas com a Ásia ou outras histórias, tornam compreensível, e realmente necessário, que fóruns se promovam da forma como a ASEM se promove, como sendo um fenómeno novo. Em encontros políticos, estas ‘lacunas’ históricas tornam também provavelmente ainda mais difícil o trabalho dos organizadores e participantes das reuniões quando tentam encontrar terreno comum.

Que a menção à ASEM, ou o concerto em Bruxelas, não seja entendida como uma crítica à sua missão ou existência — como cidadã europeia, estou grata por estas iniciativas. É também como cidadã europeia que digo: temos recursos para fazer melhor. Vale a pena considerar como e quais os efeitos que o conhecimento desta história esquecida ou não contada, de pontes já construídas, poderia ter para os esforços da Europa para se aproximar e promover a conectividade com a Ásia.

Porque, efetivamente, não precisamos falar em sílabas ou fazer “fusão” — falamos a mesma língua há muito tempo.