O vinho sempre foi mais do que uma bebida. É cultura, identidade, território, memória. E, no caso de Portugal, é também um dos pilares do nosso turismo — não só pela qualidade dos vinhos que produzimos, mas pela forma como os integramos num estilo de vida, num acolhimento e num património únicos.
Nas últimas décadas, o enoturismo afirmou-se como um produto estratégico no panorama turístico nacional. Tem capacidade de gerar valor acrescentado, atrair visitantes qualificados e, acima de tudo, diferenciar Portugal num mapa turístico global cada vez mais competitivo. Somos um dos poucos países do mundo onde, por todo o território nacional, podemos encontrar vinhos com alma, paisagens de excelência e produtores apaixonados por contarem as suas histórias.
É exatamente por isso que a crise que hoje atravessa o setor vitivinícola deve ser encarada com seriedade e urgência.
A vindima de 2024 já tinha deixado muitos viticultores em dificuldade. As uvas ou ficaram por colher ou não encontraram compradores interessados, ou os preços oferecidos representavam perdas incomportáveis. O investimento de um ano, feito com trabalho e fé, revelou-se inviável. E o cenário de 2025 promete ser ainda mais sombrio.
Estamos perante uma tempestade perfeita: queda global no consumo de vinho, campanhas anti-álcool que esquecem o valor cultural e moderado do vinho mediterrânico, instabilidade nos mercados internacionais e uma política tarifária agressiva nos EUA que trava as exportações.
Reafirmo a importância de manter a fileira do vinho saudável e dinâmica. O enoturismo é um produto transversal: junta produtores, restaurantes, alojamentos, empresas de animação, guias e muito mais. Quando o vinho sofre, sofre toda uma cadeia de valor — e sofre o destino turístico nacional.
É crucial reforçar as campanhas nos mercados internacionais, alinhando-as com os valores da nossa cultura de consumo moderado e com a autenticidade que caracteriza o vinho português— elemento essencial da nossa gastronomia e da dieta mediterrânica, amplamente reconhecida como uma das mais equilibradas e saudáveis do mundo. Os vinhos são parte integrante das celebrações e do estilo de vida nacional. São presença habitual nas festas, símbolos de hospitalidade e cumplicidade. Com eles, partilhamos momentos, fortalecemos laços e brindamos àquilo que nos une.
Paralelamente, há que reconhecer e potenciar o enoturismo como verdadeiro motor económico, valorizando as experiências nas adegas, a criação de rotas estruturadas, a integração com a restauração e o alojamento turístico locais e a formação qualificada dos profissionais envolvidos.
Nesse esforço de valorização, não pode continuar a ser ignorado um fator fiscal que contraria a lógica: atualmente, o vinho servido na restauração está sujeito à taxa máxima de IVA (23%), enquanto no retalho já beneficia da taxa intermédia de 13%. Esta disparidade penaliza precisamente os espaços onde o vinho é apresentado, recomendado, contextualizado e vivido como parte da cultura nacional.
Um restaurante, um bar ou um hotel são, muitas vezes, o ponto de descoberta para consumidores nacionais e estrangeiros, que ali experimentam um vinho pela primeira vez e constroem uma relação com ele, com forte impacto na criação de memória e preferência. Ao manter uma tributação agravada nestes contextos, estamos a comprometer o estímulo ao consumo consciente, qualificado e responsável, que valorizaria a produção nacional, ajudaria a aliviar a tesouraria de milhares de empresas e traria efeitos diretos para toda a fileira vitivinícola.
A reposição da taxa intermédia do IVA em todas as bebidas, seria um ato de justiça fiscal para a restauração — que enfrenta atualmente margens cada vez mais estreitas — e reforçaria a função estratégica deste setor como embaixador da produção nacional.
Não podemos permitir que os vinhos — contidos na alma de Portugal — sejam tratados como um mero produto comercial. São também um símbolo de quem somos e de como queremos receber. Para podermos brindar no futuro, temos mesmo de cuidar agora de quem o faz nascer, uva a uva, vindima a vindima. E de quem o sabe promover. Queremos ser um país de bons vinhos e boas políticas?