Há uma imagem em Adolescência (minissérie disponível na Netflix) que perdura mesmo depois dos créditos: um rapaz de estatura pequena, em princípios de adolescência, curvado sobre si mesmo, fita a luz do ecrã do telemóvel. À sua volta, o mundo fervilha – gargalhadas, festas, namoros, vidas ininterruptas – mas ele está noutro lugar. Isolado. Silenciado. Preso num ciclo de scroll infinito, numa procura por respostas afetivas naquele lugar onde nunca lhas serão dadas. O seu olhar, vazio, faminto, revela a verdade que ele mesmo não consegue pôr em palavras: ele não se sente visto.

Embora a série nunca se centre inteiramente na cultura incel, a sua presença paira no fundo — na solidão, na humilhação, na raiva contida. Incel, abreviatura de “celibatário involuntário”, começou por designar e associar pessoas que tinham dificuldade em estabelecer relações românticas. Hoje, representa uma subcultura digital em crescimento — sobretudo masculina e jovem — que transforma essa dor e isolamento em ressentimento e misoginia.

É importante denotar, desde já neste início de artigo, que descartar os incels como extremistas, desajustados sociais, ou, inclusive, troçar ou ignorar esta cultura, é negligenciar a crise mais profunda que se desenrola à nossa frente. Estes jovens não nascem zangados, nem a sentir ódio. São moldados pelo isolamento digital, pela falta de educação emocional e pelo silêncio dos adultos que os rodeiam. Estão, em muitos casos, a gritar – e a encontrar respostas não na escola, nem na família, mas nos cantos mais escuros da Internet.

Por isso, para compreender este fenómeno, é preciso ultrapassar as histórias de terror que fazem manchete. Este artigo não pretender acusar, mas servir de ponte entre os jovens apanhados nesta cultura e os adultos que não fazem ideia de quão perto ela realmente está.

O que é realmente a cultura incel? 

O termo “incel” foi criado nos anos 90 por uma mulher canadiana chamada Alana, num grupo de apoio online para pessoas com dificuldade em estabelecer relações românticas. Com o tempo, o termo foi apropriado — e distorcido — tornando-se num rótulo usado principalmente por homens jovens e heterossexuais que culpam as mulheres — e muitas vezes o feminismo — pelos seus insucessos no amor e no sexo.

No centro da ideologia incel está o conceito de “blackpill”: uma crença fatalista segundo a qual o sucesso romântico dos homens está predeterminado pela genética e pela aparência física, e de que as mulheres são biologicamente programadas para procurar apenas os homens mais atraentes — os chamados “Chads”, segundo o léxico incel (a tal teoria 80/20 que a série nos apresenta). Nesta visão, os homens “medianos” ou “inferiores” (ou seja, os próprios membros do subgrupo) estão condenados à rejeição eterna, enquanto as mulheres (ou “Stacys”) são retratadas como superficiais, interesseiras e, por isso, indignas de confiança. É uma visão do mundo que transforma a dor pessoal numa conspiração global.

Mas isto não é apenas ficção digital. A cultura incel já esteve associada a vários atos de violência real, incluindo o massacre de Isla Vista (EUA, 2014), por Elliot Rodger, que deixou um manifesto culpando as mulheres pela sua virgindade indesejada. Em 2018, Alek Minassian conduziu uma carrinha contra uma multidão em Toronto, matando dez pessoas, depois de declarar uma “rebelião incel”. No Reino Unido, Jake Davison matou cinco pessoas em 2021, depois de expressar online opiniões alinhadas com esta cultura. As autoridades no Canadá, Reino Unido e EUA, já classificaram a violência motivada pela ideologia incel como uma forma de terrorismo doméstico.

Ainda assim, o perigo maior pode não estar nos casos extremos, mas no número crescente de rapazes que veem nesta forma de pensar, a única explicação para a sua dor. Afinal, a cultura incel, na sua essência, é uma linguagem de sofrimento.

A série Adolescência como texto cultural 

A minissérie Adolescence, de Matías Lucchesi, não moraliza. Em vez disso, faz algo mais poderoso: observa. Ambientada numa escola situada no norte de Inglaterra, acompanha discretamente um grupo de rapazes enquanto navegam temas como identidade, desejo, vergonha e crueldade. Por baixo dos rituais superficiais do futebol, das aulas e das piadas, emerge um estudo silencioso sobre repressão emocional – e as consequências de quando essa repressão se torna norma.

O carinho é ridicularizado. Os adultos — pais, professores, treinadores — são distantes ou ineficazes. Um dos elementos mais marcantes da série é precisamente a ausência de uma intervenção significativa dos adultos. E o resultado? Uma comunidade de rapazes que aprende, entre si, o que é “ser homem” — não com cuidado ou afeto, mas com competição e supressão emocional, refletindo a própria estrutura das comunidades incel: orientadas pelos pares, emocionalmente distantes, mas estranhamente íntimas.

Em Adolescência as personagens não são vilões — são solitárias. Desorientadas, confusas, assustadas. Querem ser vistas, tocadas, abraçadas — mas têm medo do que essa vulnerabilidade lhes possa custar.

O ciclo de feedback digital 

Para os rapazes que se sentem invisíveis na vida real, o mundo digital oferece um público. Uma identidade. Uma tribo. Mas também oferece algo mais sombrio: um ciclo de feedback de ressentimento e radicalização. O que começa como uma procura de pertença pode rapidamente transformar-se num processo de doutrinação – um processo que recompensa a raiva, pune a vulnerabilidade e reformula a dor pessoal como uma reivindicação política.

O ecossistema incel vive maioritariamente online: Reddit, Discord, TikTok, YouTube. Um estudo de 2022 do Center for Countering Digital Hate revelou que o algoritmo do TikTok promove conteúdo misóginos a rapazes apenas horas depois de estes assistirem a vídeos inofensivos sobre fitness ou autoajuda.

O problema não é apenas o conteúdo – é a arquitetura. Os algoritmos das redes sociais são concebidos para maximizar o envolvimento, não o bem-estar. Se a raiva gera cliques, a raiva será alimentada. Se a vergonha atrai comentários, a vergonha torna-se identidade. O que começa como uma busca por pertença transforma-se em radicalização — não por ódio declarado, mas por repetição: um meme aqui, uma piada ali, um emoji “redpill”, um clip de podcast. Lentamente, de forma indelével, a visão de mundo de um rapaz endurece.

Estas plataformas oferecem identidade e validação – ainda que através de uma explicação cruel. Dizem aos rapazes quem são: rejeitados, falhados, vítimas, guerreiros.

O que os rapazes estão realmente a dizer 

Deixando de lado o jargão, a cultura incel fala de algo profundamente humano: o desejo de ser amado — e o medo de que isso nunca venha a acontecer.

A ciência confirma. Um estudo de 2023 publicado na Frontiers in Psychology concluiu que os utilizadores de fóruns incel têm em comum sentimentos de solidão crónica, baixa autoestima e depressão — não ódio. Muitos mostram sinais de ansiedade social ou neurodivergência. Nesses fóruns, são ouvidos. Compreendidos. Ganham uma linguagem — ainda que tóxica.

O que os espaços incel proporcionam — pelo menos no início — é um estranho tipo de consolo. Um vocabulário. Uma lógica. Um lugar onde dar sentido à rejeição sem ter de a sentir plenamente. Mas o custo deste atalho emocional é elevado: a dor nunca é processada. É redirecionada. Para a culpa. Para o ressentimento. Numa visão de mundo de “nós contra eles”, onde as mulheres são inimigas e os outros homens, rivais.

E a tragédia é que essas necessidades emocionais não estão a ser acolhidas noutros lugares. A escola não ensina a lidar com a rejeição. Muitos pais não sabem falar – nem ouvir — com intimidade. Assim, esses fóruns tornam-se escolas emocionais — que ensinam amargura, em vez de empatia.

Porque é que os pais e educadores não estão a perceber a questão 

A maioria dos adultos não compreende a cultura incel — e é precisamente por isso que ela cresce.

Num relatório de 2023 de The Times, quase metade dos rapazes britânicos entre os 16 e os 21 anos tinham uma opinião positiva sobre Andrew Tate — um antigo kickboxer que se tornou num influencer, conhecido por promover ideias misóginas sob o pretexto de “autoaperfeiçoamento”.

Mas os adultos reagem tarde — ou com pânico. Esta desconexão geracional não tem apenas a ver com literacia tecnológica. Tem a ver com literacia emocional. Muitos adultos simplesmente não têm o vocabulário — ou a coragem — para falar com os rapazes sobre rejeição, vergonha, desejo e poder.

A verdade é que muitos pais e educadores não têm ferramentas para falar de masculinidade, emoções ou identidade digital. Subestimam a fome de reconhecimento que muitos rapazes sentem. Confundem silêncio com estabilidade.

Temos de deixar de reagir apenas à violência — e começar a perguntar: o que está a acontecer antes disso? Como é que um rapaz chega a acreditar que não é digno de ser amado, que não é desejado, que está condenado à solidão?

Conclusão: Se não ouvirmos, alguém o fará 

A cultura incel prospera no silêncio — o silêncio dos rapazes que não sabem como pedir ajuda, e o silêncio dos adultos que não sabem como oferecê-la.

O que Adolescência capta de forma tão poderosa é que esses momentos de silêncio não são espaços vazios – são densos. Carregados de perguntas que os rapazes têm demasiada vergonha para fazer: Serei suficiente? Alguém me vai amar? Serei o único a sentir-se assim? E quando ninguém responde — quando não há ninguém que escute — a internet responde. Os fóruns respondem. Os “influencers” com soluções fáceis respondem.

E assim, os rapazes – alguns ainda crianças – começam a construir a sua identidade a partir da mágoa. Do ressentimento. Do medo de nunca virem a pertencer.

Mas isto não é inevitável.

Se Adolescência nos ensina algo, é que os jovens não precisam de adultos perfeitos — precisam de adultos presentes, que ouçam.

Precisamos de lhes dar uma outra linguagem. Uma onde o amor não é algo a ser ganho através da conquista. Onde a masculinidade não se meça pelo domínio. Onde a honestidade emocional não é um risco, mas um direito.

Porque a verdade é esta: a cultura incel não tem a ver com sexo. Tem a ver com vergonha – vergonha por não estar “à altura”, por desejar intimidade num mundo que ridiculariza a necessidade emocional dos rapazes, tratando-a como fraqueza. Trata-se de um desejo profundamente humano de ser visto, ouvido, amado. Para muitos rapazes, especialmente na adolescência, estes sentimentos não são fugazes – são formativos. Marcam os limites da identidade, da pertença e da autoestima. E quando estes rapazes não têm linguagem para expressar essa dor, quando os adultos não os ajudam a vivê-la, a internet fá-lo-á. As comunidades incel não começam com ódio. Começam com desgosto.

O objetivo não é desculpar a ideologia incel – esta é perigosa e deve ser desafiada. Mas se quisermos evitá-la, temos de perceber onde começa. E isso significa ouvir os rapazes antes que os fóruns o façam. Significa criar espaço para emoções difíceis.

Se não os ouvirmos, alguém os ouvirá.

E talvez não gostemos do que lhes vão dizer.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.