E se a esperança fosse um direito a ser garantido pelos nossos governantes e um dever, de uns para com os outros, a ser mantido por nós, cidadãos?
As critical raw materials (matérias-primas críticas) são descritas como recursos indispensáveis para a sustentabilidade da economia de um país, mas sujeitos a riscos elevados de disrupção no acesso, devendo por isso, ser protegidos. São exemplos o lítio, o cobalto ou as terras raras, imprescindíveis para a tecnologia e para a transição verde.
Confrontada com o recomeço que setembro simboliza — novo ano letivo, rentrée política, retoma do ritmo social — pus-me a refletir sobre quais os recursos verdadeiramente fundamentais para um recomeço renovado. E cheguei, ao que me parece ser, a matéria-prima mais crítica e indispensável à vida humana e em sociedade: a Esperança.
Não me refiro à esperança enquanto estado de espírito leve, ingenuidade ou otimismo inato. Nem tampouco como fruto de circunstâncias externas que permitem a alguns viverem mais livres de preocupações, sonhando com futuros promissores. Refiro-me à Esperança enquanto realidade ansiada, experimentada, vivida e por isso, passível de ser construída coletivamente.
Coloco então a seguinte questão: e se a esperança fosse tratada como tratamos o lítio ou o cobalto — um recurso crítico, indispensável e escasso?
As crises sucessivas – a pandemia, as guerras, a crise climática, a polarização social – têm “minado o stock” de esperança. Corroem o contrato social, e, segundo a função social deste, o que poderíamos chamar de um “contrato de esperança” entre Estado e cidadão. De facto, nos últimos tempos, temos vivido tendências globais que são termómetro de uma sociedade depressiva, autolesiva, mais inclinada a mitigar a dor através da destruição do que da construção, mais estimulada pelo instinto de morte do que pelo gosto de viver – uma sociedade escassa em esperança.
Em Portugal, vemos sinais claros desta erosão: radicalização social que se manifesta – nas não somente — em populismos e xenofobia; abstenção de voto entre jovens; emigração de talento; isolamento que corrói a saúde mental, sobretudo – mas não só – dos mais novos. Os media, variadas vezes, amplificam catástrofes, mesmo quando os números oficiais desmentem a perceção de insegurança. A política, por sua vez, reduz-se à “marketização” de rivalidades ideológicas, espelhando o racional de que diferentes ideias não podem coexistir num mesmo país, ou que trabalhar conjuntamente para uma realidade partilhada e plurifacetada não é uma realidade exequível – ou sequer desejável. A desinformação que mina a nossa capacidade de distinguir o real do ilusório e manipulado, mantendo-nos em estado permanente de alerta contra “inimigos eminentes”.
Reduzimos a esperança ao domínio religioso ou espiritual, esquecendo a sua essencialidade no campo social e político. Criam-se acordos europeus, como o Critical Raw Materials Act, que visam proteger recursos estratégicos para o futuro económico da Europa, mas raramente se discute a proteção e sustentabilidade da matéria-prima que sustenta todas as civilizações e todos os recomeços — a esperança.
A própria comunidade científica já reconhece o seu potencial como mecanismo de sobrevivência. Segundo estudos da Harvard Medical School, a esperança ativa zonas específicas do cérebro, reduz o stress e melhora prognósticos médicos. Expectativas positivas e confiança ativam vias bioquímicas semelhantes às usadas por medicamentos, produzindo efeitos terapêuticos. Resumindo: a esperança pode ser remédio, pode ser cura.
Se assim o é, porque não a tratamos como um direito e um dever a proteger e salvaguardar?
- Como direito, porque todos devemos viver num país onde o futuro não seja sinónimo de precariedade ou medo. Cabe aos governantes criar políticas que mantenham vivo esse horizonte. Aliás, essa esperança já está implícita em direitos como saúde, educação e bem-estar — apenas raramente é nomeada.
- Como dever, porque a esperança não é responsabilidade exclusiva do Estado. Implica cidadania ativa, redes de solidariedade, imaginação política e coragem para propor alternativas (vejam o exemplo das Comissões de Cidadãos do projeto Os 230)
Talvez devêssemos consagrá-la como bem essencial, ao lado da saúde ou a educação. Cada parte tem o seu papel: aos governantes, cabe não fazer falsas promessas, mas propor visões coletivas e sustentáveis; ao jornalismo, cabe recusar a comunicação catastrofista, geradora de cliques, e optar por informação rigorosa, acompanhada de soluções e caminhos (vejam o exemplo do Jornalismo de Soluções); aos cidadãos, a atitude de não desistir, mesmo perante tempos difíceis. Em suma, a todos caberia o trabalho de participar e cultivar a esperança comum.
Comunidades mais esperançosas têm maior coesão social, menos violência, mais participação cívica (Journal of Migration and Health, 2024). A Esperança não é um luxo, um resultado conjetural, ou um esoterismo, mas uma infraestrutura social. Deve ser cuidada como tal – não como promessa eleitoral, mas como direito e dever coletivo.
Tal como nos cabe cuidar da integridade física dos outros ou da preservação da via pública, também deveria ser nosso dever cuidar da Esperança coletiva. Assim como definimos e protegemos “materiais críticos” para a economia verde, devíamos reconhecer a Esperança como material crítico da humanidade. Sem lítio não há baterias. Sem Esperança não há futuro. Viver – como diz Pessoa – com “saudades do futuro” deveria ser entendido não como utopia poética, mas como direito a garantir e dever a manter.