Tenho tido uma mistura bastante simpática de sorte e trabalho na minha vida. Sou naturalmente interessada por uma imensidão de temas, não tendo grandes dificuldades a aprender coisas novas. Nunca lutei particularmente por nada, seja uma vocação ou uma ambição. Fui-me deixando navegar à bolina, aproveitando oportunidades e deixando-me desafiar pelo que surgia. E foi correndo bem, com uma carreira diversificada e uma promoção permanente. A miúda das boas notas continuou o seu percurso no mundo profissional: sempre com bons resultados, sempre agradando aos outros. Sempre controlando cada minuto e cada emoção. Não há cansaço, há força de vontade.
De conceito em conceito, de moda em moda, vamos tentando espartilhar as partes da nossa vida perfeita, criando metas e objetivos. Com linhas grossas traçamos o equilíbrio entre a identidade própria, o trabalho, a família e os amigos. Comprometemo-nos a dar tempo aos outros e a dar tempo a nós próprios. Enchemos as horas de decisões, de sins e de ações. Queremos controlar o equilíbrio como controlamos tudo o resto: com apps, calendários e determinação. Recusamos que a linha se desfoque, que tenha movimento. É nossa. E perfeita.
Durante vários anos consegui alimentar a ilusão de que podia ter tudo. Mãe de duas filhas, com um marido que sempre incentivou a minha realização pessoal e profissional, mesmo em prejuízo da sua própria, acumulava semanas e meses seguidos com dias de mais de 12 horas de trabalho. É só mais um projeto, é só mais uma fase exigente, sem deixar cair as reuniões na escola e o acompanhamento dos trabalhos de casa.
Em 2019, ganhei uma nova identidade, com um diagnóstico que podia trocar-me as voltas. Acrescentei às identidades anteriores o ser mãe de uma criança autista. Não mudei nada do que fazia, apenas passei a ser também gestora de um calendário imprevisível de comportamentos e terapias e estudante obcecada do tema, para ser a melhor mãe possível, nestas circunstâncias. Ativa-se o modo controlo, não se falha em lado nenhum. Apenas se acrescenta, com o mesmo rigor, como se fosse possível esticar alguém indefinidamente. Sou um sistema, de quem se pode depender, que absorve o stress dos outros e adivinha o que é preciso, uma máquina perfeita que nunca se desliga.
Até que, há uns anos, esta vida perfeita começou a dar sinais fortes da sua imperfeição. Primeiro vieram o cansaço e o desânimo e as noites que mais pareciam um coma, em que acordar é tudo menos uma renovação. Depois, multiplicaram-se as manifestações físicas: as crises de enxaqueca, as dores lombares e todas as outras que um corpo consegue gerar. No mundo das empresas, chamam-lhe burnout ou esgotamento – uma fase mais complicada de quem trabalha demais e precisa de descansar um pouco antes de regressar à rotina, com energia renovada (e possivelmente novas ideias). No mundo das pessoas, estes sintomas configuram uma depressão, com consequências físicas e mentais que podem ficar para sempre.
Sempre senhora de um autodomínio sem falhas, achei que podia curar-me com comprimidos, regulando a serotonina para manter a mesma performance, sem parar. Sobretudo sem nunca parar. Imprescindível e insubstituível para todos, exceto para mim mesma. À medida que os sintomas continuaram a multiplicar-se, percebi finalmente que um esgotamento é bastante mais do que cansaço e envolve todo o corpo, que vai decidindo o ritmo da recuperação. Não é possível viver em modo automático, por muito que tentemos enganar o cérebro nesse sentido. O próprio corpo rejeita este tratamento, e encarrega-se de disparar sinais. Um burnout não é um dia pior, é uma máquina viva a desligar-se.
A sirene de alarme teve, para mim, um dia no calendário. Sem aviso, com uma frieza burocrática, num local de dádivas de sangue, um médico informa-me de que não podem aceitar o meu sangue, porque sou doente crónica. Um dos tais sintomas do meu corpo desesperado configura uma doença autoimune, permanente, colocando-me na lista de exclusões. Doente crónica. Para sempre. Por minha culpa. Fiquei dias em choque, com estas três frases na cabeça. Foi só aí que abri a app de um hospital e marquei a primeira consulta de psiquiatria, de onde saí com uma responsabilidade grande: escolher o caminho para a recuperação, sob pena de simplesmente me desligar, com avarias sistemáticas das partes. Mesmo assim, enfrentei o diagnóstico de braços cruzados, defensiva e zangada, porque sempre fiz tudo bem. Sou perfeita, tudo isto é injusto.
Optei por combinar a medicação para a depressão com a terapia psicológica, aceitando que a ansiedade é uma parte fundamental das minhas defesas e não deve ser escondida ou camuflada. Desde então, tenho vindo a entender, num trabalho lento de auto-compreensão, que o equilíbrio implica uma transformação de nós próprios. Numa pessoa perfeccionista, implica perseguir o bom e não o ótimo.
Numa pessoa controladora, implica delegar e deixar seguir, aceitando o resultado.
Numa pessoa omnipresente, implica aprender a ausentar-se e a cortar as dependências que foi alimentando. Numa pessoa controlada, implica deixar sair tanto a zanga como a gargalhada ou a frase mais sarcástica. Numa pessoa que existe para agradar aos outros, implica perceber o que nos agrada.
Quando o instinto e a memória muscular nos atiram para o “sim”, é aprender o “não”, aceitando as consequências. O sim esgota, apesar da satisfação imediata que provoca – sobretudo nos outros. O não contraria, traz guerras que evitámos — mas é um ato de resistência e de defesa do nosso eu. Errar e falhar a vida é, afinal, a melhor perfeição que podemos tentar ter.
Passei a errar todos os dias no trabalho — entre emails que ficam para o dia (semana?) seguinte e prazos que são reajustados, assumindo as prioridades do meu trabalho e da minha vida, e não só as dos outros. Tenho a sorte grande de poder fazer escolhas e de estas serem respeitadas, obrigando-me a parar para ler um livro, a aproveitar uma esplanada ou um museu durante uma viagem de trabalho, e a tirar férias. Obrigando-me a ser substituível, para meu próprio bem.
Erro também como mulher, como mãe, como filha, como amiga e como irmã. Estou mais vulnerável e desiludo pessoas, mas deixei de me iludir a mim mesma. Reconheci a medida dos meus acasos nas escolhas de vida. Percebi também que nunca estarei recuperada; também aí já errei, ao acreditar que podia abraçar o projeto de uma recuperação perfeita. Há questões físicas que ficarão para sempre. E está tudo bem, já o aceitei. Doente crónica, sim, mas em paz com isso.
A arte do erro é uma libertação, um alívio profundo. Beckett teve sempre razão no seu ciclo eterno sobre o falhar: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.”
Se lá chegarei? Talvez. Se saberei falhar ou errar melhor? Não sei. Não controlo tudo.
Ana Craveiro é casada, mãe de duas filhas. É diretora de comunicação na sociedade de advogados e consultores Morais Leitão.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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