Todos os anos, no outono e na primavera, repetimos o mesmo ritual, adiantamos ou atrasamos o relógio uma hora, é o que vai suceder no dia 26 deste mês, vamos atrasar os relógios 1 hora quando forem 2 horas. O gesto é quase automático, mas as consequências são tudo menos irrelevantes. Apesar disso, continuamos a insistir numa prática que nasceu noutro século e que já não se justifica à luz das necessidades atuais.

A mudança da hora foi introduzida no início do século XX, durante a Primeira Guerra Mundial, com o objetivo de poupar energia elétrica. A ideia era simples, aproveitar melhor a luz solar, reduzindo o consumo de iluminação artificial. Naquele contexto, fazia sentido, pois a eletricidade era cara e escassa, e a maior parte da atividade humana seguia o ritmo do dia. No entanto, mais de cem anos depois, essa lógica perdeu validade.

Vivemos numa sociedade global, urbana e digital, em que o consumo energético é dominado por tecnologias que não dependem da luz natural. Os escritórios, as empresas, os centros de dados, os transportes e até os lares modernos funcionam num regime contínuo, 24 horas por dia. A economia já não dorme, e o sol deixou de ser o relógio da produtividade. Diversos estudos europeus têm demonstrado que a economia de energia resultante da mudança da hora é praticamente nula, uma diferença tão pequena que, em muitos casos, nem chega a compensar os custos sociais e organizacionais da alteração.

O que sobra, então, é o desconforto humano. O corpo não se adapta facilmente a mudanças bruscas no ritmo biológico, a perturbação do sono, o aumento da fadiga e a perda de concentração são sintomas frequentes. Há até estudos que associam a mudança da hora a um ligeiro aumento de acidentes rodoviários e de problemas cardiovasculares nos dias seguintes. Em suma, o que antes era uma medida racional tornou-se numa fonte de perturbação desnecessária.

Há também um argumento de coerência. Num mundo em que se fala tanto de saúde mental, de equilíbrio e de estabilidade, não faz sentido que os governos insistam em ajustar artificialmente o tempo duas vezes por ano. A União Europeia discutiu o fim da mudança da hora em 2018, e a maioria dos cidadãos manifestou-se a favor da sua eliminação, contudo, a decisão política ficou suspensa, perdida entre burocracias e divergências nacionais. O resultado é esta indefinição que se arrasta ano após ano, sem que ninguém tenha a coragem de encerrar o assunto.

Acabar com a mudança da hora seria um gesto simples, mas simbólico. Representaria a capacidade de adaptar políticas antigas à realidade contemporânea, de valorizar o bem-estar das pessoas acima da inércia administrativa. Num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade e qualidade de vida, manter esta prática é um anacronismo.

Chegou, de facto, a hora de dizer adeus à mudança da hora. O mundo moderno precisa de estabilidade em vez de ponteiros que recuam e avançam ao sabor de uma tradição ultrapassada. O tempo não deve ser manipulado por hábito, mas vivido com sentido.