Há momentos na literatura em que uma simples troca de palavras faz mais pela compreensão da Europa do que tratados inteiros. Um desses momentos encontra-se em A Montanha Mágica, de Thomas Mann, no célebre diálogo entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat, iniciado de forma quase banal – um pedido de lápis — e transformado num dos encontros amorosos mais singulares do século XX. Duas semanas após o Fórum Económico Internacional, decorrido em Davos, vale a pena revistar outras paisagens que a mesma Davos já consentiu, ainda que no plano da literatura.

Ora, em A Montanha Mágica, o que está em jogo não é apenas o nascimento de um amor tardio, hesitante e imperfeito. Mann usa o diálogo como laboratório cultural. Quando Hans e Clawdia abandonam progressivamente o alemão e passam a falar francês, algo mais profundo acontece: a língua da identidade, da disciplina e da introspeção cede lugar à língua do desvio, da ironia e da sedução. Falar numa língua “estrangeira” permite dizer o que, noutra, soaria excessivo, pesado ou comprometido. O amor, parece sugerir Mann, precisa de distância para poder existir.

Este gesto formal, que leva o próprio autor a escrever numa língua que não domina plenamente, é tudo menos decorativo. Ao deslocar o diálogo amoroso para um território linguístico instável, Mann suspende certezas culturais e psicológicas. O resultado é um discurso amoroso que não se fecha, que oscila entre o sonho, o jogo e a reflexão. Um parler sans parler, como o próprio Hans o define, onde a intimidade nasce precisamente da imperfeição.

Mas o eros, em Mann, nunca é apenas privado. O diálogo, em francês, entre um jovem alemão e uma mulher russa funciona também como ironia política. As identidades nacionais — tão rígidas, tão carregadas de destino no início do século XX — tornam-se móveis, quase caricaturais. O desejo introduz um “sadio desarranjo” nos esquemas culturais e geopolíticos, incluindo naqueles que o próprio Mann havia defendido anos antes. O amor, aqui, corrói fronteiras.

Esta lógica atravessa toda a obra tardia do escritor. Muitas vezes acusado de trabalhar mais por “recorte e colagem” do que por invenção, Mann revela nesses romances uma modernidade subtil: a consciência de que toda a narrativa é construção, artifício, diálogo com textos anteriores. (Que seria, afinal, de Shakespeare ou Camões sem tudo isso).

No caso de A Montanha Mágica, no fim, Clawdia parte. O amor não se cumpre. Fica apenas o lembrete: “Não se esqueça de me devolver o lápis.” Mas esse objeto mínimo encerra tudo: a escrita, o desejo, a distância, a ironia. Em Thomas Mann, o amor não resolve — complica. E é nessa complicação, elegante e inquieta, que reside a sua duradoura modernidade.