No prefácio de Jesus de Nazaré, depois de apontar, com paciência germânica, as insuficiências do método histórico-crítico, Joseph Ratzinger, já Bento XVI, ou seja, alguém que, em princípio, não precisava de pedir nada a ninguém, faz um pedido aos leitores. Não pede que concordem com ele. Pelo contrário: «cada um tem a liberdade de me contradizer». Pede apenas mais uma coisa: «aquela pressuposição de simpatia, sem a qual não há nenhuma compreensão». Hoje, seria acusado de fraqueza, de branqueamento e, com sorte, de cumplicidade. A ideia é simples: sem afeição, não há interpretação. Compreender alguém é perceber que aquilo que diz é sempre uma mistura do que deve, do que pode e do que quer dizer.
Atenção: nada disto é um elogio ao consenso. A tensão é normal, desejável, essencial. O espaço democrático traduz-se, precisamente, na legitimação da oposição. O mundo não funciona como o Live Aid, toda a gente de braço dado a cantar a mesma canção. Até porque, ao fim de umas horas, aquilo devia ser cansativo. Porém, ser do contra não é uma virtude em si. Qualquer pessoa que tenha passado dois minutos com uma criança de três anos sabe isso. Discordar nem sempre é sinal de perspicácia. Em Anna Karénina, Stepan é liberal não por achar o liberalismo mais razoável, mas pelo facto de este se coadunar melhor com o seu modo de vida. Não raras vezes, defender ideias é uma maneira de defender hábitos.
Ora, a impossibilidade da simpatia tem reduzido a nossa capacidade federativa. No fundo, só existe contraditório. Por detrás desta ineptidão está o apagamento da distinção fundamental introduzida pelo cristianismo na história do pensamento ocidental, e que Santo Agostinho sistematizou e popularizou: a distinção entre pecado e pecador. Por isso, qualquer aliança, amizade, conversa ou proximidade com alguém que discorde de nós é apresentada como um modo temível de conspurcação. A propósito de Agostinho, é curioso pensar que Tomás de Aquino, na sua obra magna, discordou dele em pontos importantes sem nunca deixar de o tratar como mestre. E ninguém duvida de que ambos estão entre os maiores génios que alguma vez pisaram o planeta.
Antigamente, o estrangeiro era qualquer pessoa de um país diferente do nosso. Hoje, o estrangeiro é, fundamentalmente, o nosso concidadão. O mundo tornou-se uma máquina de fazer estrangeiros. O famoso dramaturgo romano Terêncio tinha aquela frase: «nada do que é humano me é estranho». Atualmente, a máxima é «nada do que é humano me é familiar».
Nestes dias, Jesus já nem precisaria do sacerdote e do levita para explicar quem é o próximo. Poupava tempo. Bastava começar assim: «Um português descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de salteadores, que o deixaram meio morto na berma da estrada. Como tinha (escolha o leitor a opção que lhe for mais confortável) a) um lenço palestiniano ou b) um boné MAGA, os outros portugueses foram passando e, como não concordavam com ele, seguiram caminho.»
Não se pede muito. Não se pede que o do lenço vá jantar com o do boné, nem que dividam a sobremesa, nem que troquem números de telemóvel. Pede-se apenas o que Ratzinger pedia: uma pressuposição de simpatia. Ou seja, admitir a hipótese, por remota que pareça, de que quem discorda de nós não seja necessariamente estúpido nem mal-intencionado, nem esteja a soldo de alguém. Parece pouco. Nos tempos que correm, é quase um programa revolucionário. Convém começar por aí, antes que a parábola precise de nova atualização: o homem continua meio morto na berma da estrada e os portugueses que passam já não seguem caminho. Param. Mas só para lhe tirar uma fotografia e a publicar com um comentário indignado.