Estão um pouco por todo o lado. Cartazes gigantes, com a cara de Rui Rocha e a palavra “Confiança” em letras garrafais. Funcionam como uma espécie de lembrete confrangedor: em maio, Rui Rocha pedia a confiança dos eleitores de todo o país para, presumivelmente, ser o número dois de Luís Montenegro. Não conseguiu, demitiu-se da liderança do partido, prometeu cumprir o mandato de deputado e continuar a “andar por aí”; agora, sensivelmente dois meses depois, o mesmo Rui Rocha pede confiança aos eleitores de Braga para ser presidente ou, mais realisticamente, vereador da Câmara Municipal.

Não há nada de errado num líder que, percebendo ter ficado aquém dos resultados a que se propôs, assuma a responsabilidade e se afaste da presidência de um determinado partido — Rui Rocha terá essa e outras razões perfeitamente atendíveis. Sem quebras eleitorais, conduziu o partido em circunstâncias difíceis e num contexto político particularmente complexo. Cumpriu a sua missão e está no seu perfeito direito de se libertar de um fardo solitário e tantas vezes difícil de carregar.

Agora, é um bocadinho mais difícil compreender que, num partido com as alegadas características da Iniciativa Liberal, Rui Rocha passe de candidato a sócio de Montenegro a candidato a sócio de João Rodrigues (PSD) em Braga sem que ninguém se interrogue ou levante ondas. Seria o mesmo que ver Pedro Nuno Santos ser agora candidato a São da João da Madeira depois de ter sido candidato a primeiro-ministro. A parte interessante desta bizarria é que basta grafitar a palavra “Braga” nos cartazes já existentes e sempre se poupam uns trocos. A parte mais complicada é que a IL começa a parecer perigosamente um clube de amigos.

Até porque não parece ser um defeito; é mesmo feitio. Antes de Rui Rocha, e nuns alucinantes cinco anos, Mariana Leitão foi candidata autárquica, chefe de gabinete do grupo parlamentar, deputada, líder parlamentar e fugaz candidata presidencial, missão que teve de abandonar para ser presidente do partido. No mesmo período de tempo, terá descoberto que não é feminista, apenas defende a total igualdade entre homens e mulheres (o que calha de ser a exata definição de feminismo) e que há um “estigma” injusto em relação aos negócios que se vão fazendo a partir da Baía de Luanda (o que calha de ser um bocadinho aborrecido para um partido que considera Angola um Estado autocrático).

O mesmo vale para João Cotrim Figueiredo. Até janeiro de 2023, foi presidente da Iniciativa Liberal. Afastou-se mais ou menos com o mesmo pretexto utilizado por Rui Rocha. Um ano depois, candidatou-se a eurodeputado a pedido (desesperado) da grande família liberal. A campanha fez-se toda à volta da “marca Cotrim”, apesar dos protestos aparentemente genuínos do próprio, que não gostava de ver o partido reduzido à sua imagem e semelhança. Um ano depois de ser eleito para um mandato de cinco, vem agora anunciar a disponibilidade para ser candidato a Presidente da República. Fica difícil compreender.

Depois há outros sinais. Em Lisboa e no Porto, onde o partido tem verdadeira existência, os liberais abdicaram de ter candidatos próprios para se enfiarem nos respetivos bolsos de Carlos Moedas e de Pedro Duarte. E por lá se arriscam a ficar durante oito ou doze anos se as coisas correrem bem. Claro que, em caso de vitória, reclamarão os louros e prometerão guiar o PSD até ao pote de ouro no final do arco-íris. Mas, para efeitos práticos, a IL perdeu mais uma grande oportunidade de criar identidade, estruturas autónomas e, sobretudo, quadros para o futuro.

Como em todas as crises, há oportunidades. A melhor notícia é que a Iniciativa Liberal vai poder deixar de maçar todos com aquela conversa gasta de que são “um partido de ideias e não de figuras” e outras variações. Não são. Neste aspeto muito concreto, fazem igual ou pior ao que se vai fazendo noutros partidos. E é difícil descortinar como é que um partido que se diz tão amigo da inovação, da criatividade, do rasgo, da ousadia, do empreendedorismo, do mérito… escolha frequentemente os seus líderes e candidatos em circuito fechado.

Talvez isso explique a pobreza programática do partido nos últimos meses. Além de uma fixação quase juvenil pela motosserra de Javier Milei e de umas críticas desgarradas a Luís Montenegro (o tal que em maio era um parceiro de governação perfeitamente confiável e sedutor), vai faltando aos liberais um rumo evidente. Mariana Leitão poderá sempre dizer que começou agora e que precisa de tempo. É perfeitamente razoável. E terá esse tempo. Mas os sinais que se vão acumulando não auguram nada de bom: a IL parece caminhar alegre e empenhadamente para a irrelevância.