Mário Centeno é um OVNI político. Sabemos que anda por aí, mas não sabemos para onde vai. Nem como. Sabemos que foi ou quis ser quase tudo. Foi ministro das Finanças, foi presidente do Eurogrupo e foi governador do Banco de Portugal. Quis ser primeiro-ministro quando Costa caiu, mas Marcelo não deixou. Tentou ser candidato presidencial, mas Seguro não deu espaço, as sondagens não eram brilhantes e isso de ir a votos é coisa que dá trabalho. E, de acordo com as últimas revelações, propôs-se a ser o grande reformador do SNS, mas António Costa teve juízo e deixou-o a falar sozinho.

Sabemos que tem uma plataforma de comentário político que usa para criticar o Governo e também o partido que lhe deu o palco. Sabemos que publicou uma espécie de livro de memórias que é uma espécie de ajuste de contas e que é também uma espécie de reescrita da história (spoiler alert: acredite-se ou não, Centeno nunca se enganou e raramente teve dúvidas). Sabemos que partiu em tour e sabemos que não faltarão entrevistas em que Centeno dirá a mesma coisa usando apenas ligeiríssimas variações. “A salvação do país responde apenas por duas letras: Eu.”

Diz Centeno: “As pessoas não têm em quem votar”. Pergunta subsequente: e a culpa é de quem? Desde o momento em que Aníbal Cavaco Silva se despediu do cargo de primeiro-ministro, o PSD esteve 10 anos (and counting) no poder, de tanga e com troika pelo meio. O PS esteve 20, com direito a duas maiorias absolutas — a primeira diminuiu por indecente e má figura; a segunda acabou por má figura e indecência. Mário Centeno não fez parte da reta final de Costa, mas esteve quatro anos e meio a ditar o ritmo a que dançavam todos os colegas no Conselho de Ministros. E o “somos todos Centeno” deu para muitas coisas. Deu para o primeiro excedente orçamental em 47 anos, sim senhor, mas deu também para cativações máximas e investimento público em mínimos.

Talvez, mas só talvez, a fatura que veio associada ao “somos todos Centeno” na saúde, na educação, na habitação, nos transportes ou na administração pública justifique o porquê de haver cada vez mais gente que não se revê nos partidos tradicionais. Ou, no mínimo, desconfie deles. Quando o excel faz cair o elevador social é possível que os que ficam para trás não tenham grande entusiasmo. Centeno, porventura demasiado ocupado a explicar o quão irrepreensível foi e o quão inimitável é, talvez não tenha tido oportunidade de refletir sobre as suas próprias responsabilidades nesta descrença coletiva.

Mas Centeno teve tempo para pensar em três coisas: que não é comparável a Pedro Passos Coelho; que José Luís Carneiro é um líder pálido; e que o país, bem vistas as coisas, só lá vai com um Bloco Central. Tem razão quanto à primeira ideia, tem bom remédio para a segunda e tem algum descaramento quanto à terceira. Centeno não é de facto comparável a Passos, porque Passos foi duas vezes a votos e ganhou duas vezes. Além disso, se Centeno acha que Carneiro é mau e que não chega lá, então que se filie no PS e vá a votos. Primeiro internamente, depois no país. Não há nada mais democrático do que isso.

E se Mário Centeno acha que um Bloco Central (naturalmente por ele liderado, um tecnocrata independente e suprapartidário, estilo Mario Draghi) é a solução para todos os problemas do país, talvez não devesse ter feito parte da ‘geringonça’ que rasgou a tradição parlamentar que existia entre os dois maiores partidos. Agora que o PS vai percebendo que, perante o desaparecimento da esquerda parlamentar, só voltará ao poder com uma maioria absoluta ou com a permissão do PSD, é demasiado fácil e muito conveniente defender entendimentos ao centro.

Não há problema algum em reconhecer erros e mudar de ideias. Mas convém que se assuma o legado — todo o legado, e não apenas parte dele. Sabemos que Mário Centeno é um OVNI político. Convém é que não finja ser um marciano acabado de aterrar num país que ainda não conhece o Académico, o Intelectual e o Político que veio trazer a salvação.