Se continuarem a testar sem critério clínico e até epidemiológico (pois como o vírus está já instalado e bem adaptado na comunidade, já não se podem falar em cadeias de transmissão) vão sempre encontrar positivos.

Testar “clusters” de população em fábricas, hospitais ou empresas ou bairros ou seja aonde for de forma aleatória em pessoas maioritariamente assintomáticas (por conseguinte saudáveis até prova em contrário) nesta fase da progressão descendente da curva epidémica é um erro, levanta questões médico-legais, não traz mais valia analítica e só serve para perpetuar o medo, que começa a ser insane, além de hipotecar a nossa saúde pública, social e económica de forma preocupante.

Dos casos que são anunciados como positivos, neste momento só temos a percepção que a maioria não tem nem nunca teve e provavelmente nunca virá a ter sintomas e para isso basta analisar atentamente o gráfico do relatório da DGS e que anexo.

Se repararem na última semana de testes quase não há sintomas reportados (barras laranja):

DGS

Os testes Rt-PCR são muito sensíveis e por essa mesma razão têm muito “ruído” pois detectam indiscriminadamente o vírus íntegro (portanto potencialmente infectante e potencialmente gerador de doença) e as partículas virais que após o sistema imunitário ter actuado ainda permanecem na orofaringe vários dias (senão semanas) mas porque desintegradas são incapazes de infectar ou de causar doença ou sequer de a transmitir.

Por isso existem falsos positivos…

Portanto sem testes serológicos concomitantes nem clínica que o justifique esta forma de testagem errática não permite tirar qualquer conclusão objectiva e não tem outra utilidade senão manter o estado de torpor em que a nossa sociedade se encontra há já demasiado tempo.

Seria interessante saber desses grupos de indivíduos testados recentemente quantos se mantêm assim e se sintomáticos qual a gravidade dos quadro clínicos apresentados.

A verdade é que desde há várias semanas se constata que as enfermarias Covid têm poucos doentes e muitas delas estão quase vazias e as UCI especialmente destinadas a doentes Covid estiveram em média a 25% da sua capacidade total albergando presentemente muito poucos pacientes críticos.

Para o total de camas disponível para doentes Covid cerca de 2000, estão ocupadas 471 (cerca de 23%). Mesmo em Loures, que receberam mais doentes na passada semana provenientes de lares, estão neste com as enfermarias em 40% e destes 20% são precisamente velhos sem indicação formal para permanecerem internados, cujos lares já não os querem de volta com medo de ter que fechar por não conseguirem garantir o isolamento necessário.

Em contrapartida a lotação das alas “limpas” hospitalares (cuidados intensivos incluídos) ocupadas com outros doentes de outras patologias igualmente ou mais graves estão lotadas ou perto disso e a restante actividade assistencial continua congelada ou a ser reabilitada a um ritmo demasiado lento.

Seria, isso sim, fundamental e já tarda, a elaboração de um rastreio aleatório (para ter valor predictivo) e bem estruturado de testes serológicos para aferir e inferir da imunidade da nossa população que pode estar comprometida ou “atrasada” devido ao confinamento. Esse sim seria um instrumento útil e construtivo para o regresso à normalidade que se deseja e já urge.

Acrescem a tudo isto dois pontos:

  1. O facto de as horas de sol estarem paulatinamente a aumentar e de o vírus não sobreviver íntegro e portanto potencialmente infectante na natureza e na própria comunidade porque sensível aos raios UV. Mas tal como o “lixo” viral permanece em nós algum tempo mesmo depois de debelada a infecção, também as sequências virais permanecem na natureza. E são estas sequências virais que mantém a capacidade de estimular a nossa imunidade. É que a imunidade é um músculo e tem que ser estimulada senão definha.
    Por isso o desconfinamento é tão importante e essencial sob pena de virmos a comprometer a nossa capacidade de lutar contra as inevitáveis infecções respiratórias (outras e muitas mais para além da Covid) que nos assolam todos os invernos.
  2. Estamos numa época em que surgem outras doenças infecciosas. Se os vírus respiratórios perdem vigor outros patogénios ganham força como alguns agentes das meningites e por exemplo os da “febre da carraça”.
    Esta obsessão no SARS-Cov2 pode retardar o diagnóstico destas afecções infectocontagiosas graves, que podem deixar sequelas e que são igualmente (se não mais) potencialmente letais

Portanto cuidado porque a verdade é que a infecção SARS-Cov2 está controlada e a estabilidade do nosso Rt desde dia 10 de Abril assim o indica, a mortalidade o confirma e a progressão dos internamentos dos doentes mais graves e críticos assim o atesta.

Existem mais doentes para serem vigiados e tratados, mais doenças infecciosas a ser consideradas e uma mortalidade excessiva por causas não-Covid estimada em cerca de 4 a 5 vezes superior à atribuída a Covid a merecer uma acurada análise e reflexão (Acta Médica Portuguesa de Maio 2020).

(introduzidas pequenas alterações às 11h14 de dia 2 de junho)