Tenho muita sorte. Não falo de encontrar notas no passeio ou de ter sempre onde estacionar, mas sim de ter crescido sem barreiras impostas pela sociedade.

Sou a mais velha de 3, a única menina, mas nunca fui tratada como se fosse diferente dos meus irmãos. As nossas infâncias foram passadas entre brincar às bonecas ou “às lutas”, ler ou trepar às árvores, cozinhar com a avó ou esfolar os joelhos no jardim. As expectativas para o nosso futuro eram iguais: darmos o nosso melhor na escola, tirarmos um curso e entrar no mundo do trabalho. Nunca foi colocada a hipótese de me tornar a mulher que fica em casa a cuidar dos filhos e a cozinhar. Para mim, uma realidade em que as mulheres não estudavam e/ou não trabalhavam era algo distante.

Apenas mais tarde comecei a perceber que a sociedade me via de forma diferente dos meus irmãos. Eu mesma cheguei a achar que certas coisas eram para os rapazes e outras para as raparigas. No entanto, houve coisas que não mudaram: sempre achei que as mulheres eram capazes de tanto quanto os homens. Se os meus irmãos conseguiam fazer certas coisas, porque não haveria eu de conseguir? E ao contrário o mesmo. Crescemos com o hábito de quebrar alguns destes estereótipos, não para desafiar, mas simplesmente para fazermos o que queremos. Ainda assim, as nossas aptidões e afinidades foram tomando forma e encaminharam-nos para caminhos profissionais a que alguns poderão chamar mais tradicionais: eles Engenharia, eu Marketing e Comunicação.

Seguir Comunicação foi algo desafiante para mim, pois em casa estive sempre rodeada de pessoas de Ciências – uma mãe bióloga, um pai e dois irmãos engenheiros. De repente, o meu dia-a-dia vinha recheado de momentos em que tentava contar o que tinha aprendido e acabava por ter de explicar conceitos. De igual forma, à medida que os meus irmãos foram crescendo, os nossos jantares em família tornaram-se conversas à mesa sobre cálculos matemáticos, integrais, números especiais ou explicações sobre fenómenos físico-químicos. Se percebia sempre tudo? Não. Mas estas partilhas deram-me ferramentas para interpretar um mundo que não me era totalmente desconhecido, mas difícil de entender. Abriram-me os horizontes e permitiram-me olhar para os avanços da tecnologia com fascínio e vontade de saber mais, de perceber como tudo funciona. E assim tivemos a oportunidade de criar em casa um ambiente de aprendizagem, de troca de impressões e de partilhas únicas. Um sítio de saber onde as nossas escolhas vocacionais não nos definem, mas sim complementam as nossas várias dimensões.

Foi esta partilha de conhecimento, troca de ideias e de experiências, que me trouxe onde estou hoje. Como “carta fora do baralho” no meio de cientistas e engenheiros, nunca pensei que a tecnologia pudesse ser uma área para mim. Mas, com o passar do tempo, fui aprendendo a traduzir os conceitos e fenómenos mais difíceis para uma linguagem que alguém como eu, uma leiga na área, pudesse compreender. Fui percebendo que, como alguém que gosta de contrariar estereótipos, poderia encontrar no setor tecnológico um lugar onde as mulheres também fazem o mesmo. Estou com mulheres que são como as que sempre me rodearam: fortes, inteligentes e que provam que o que a sociedade diz sobre nós nem sempre é verdade.

Estar em tecnologia pode ser desafiante – continuamos a enfrentar contrariedades como a desigualdade salarial e a falta de representação, como revela o relatório “Women in Tech” da Web Summit (2024). No entanto, estas barreiras tornam-nos mais lutadoras e resilientes. Continuo a acreditar que conseguimos ultrapassá-las, talvez porque não cresci a aprender que posso menos ou mais que os homens. Sim, tenho muita sorte. O meu contexto fomentou estas reflexões e motivou-me a ir onde nunca pensei ir, ignorando os obstáculos. Estou agora a dar os primeiros passos como uma Woman in Tech e é na tecnologia que, neste momento, me sinto em casa – rodeada de inovação, mulheres incríveis e inspiradoras.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.