Sou luso-israelita e vivo em Lisboa há três anos e meio, onde trabalho em projetos na área da saúde mental. Amo o meu novo país. Quanto ao país onde nasci, amo-o e detesto-o ao mesmo tempo. Critico Israel, o seu Governo e o terrorismo judaico na Cisjordânia mais vezes do que muitas das pessoas que gostam de me dar lições sobre o assunto. Este mês vou gastar uma quantia considerável para voltar a Israel por uma razão muito simples: votar para tirar Benjamin Netanyahu do poder.

Ainda assim, não consegui ler o artigo de Miguel Sousa Tavares, “Sobre as ruínas de Israel”, e deixá-lo sem resposta.

Comecemos pela Europa. Sousa Tavares censura a União Europeia por não reconsiderar o Acordo de Associação com Israel. Mas quem imagina ele que seria atingido por isso?

Ben-Gvir? Os colonos violentos? Os ultranacionalistas que já defendem que Israel deve deixar de se preocupar com o que a Europa pensa?

Ou cientistas, artistas, académicos, empresários, profissionais da tecnologia e israelitas liberais, cujas vidas estão ligadas à Europa e que há anos lutam contra a radicalização do seu próprio país?

O Acordo de Associação não é uma medalha atribuída a Netanyahu. É uma estrutura de diálogo político e cooperação económica. Romper essas pontes talvez apenas confirme o argumento preferido dos radicais: a Europa despreza-vos de qualquer maneira, por isso deixem de a ouvir.

A Europa também precisa de acordar para um mundo em que ser excluído da Europa já não significa ser excluído do mundo. A Rússia redirecionou grande parte do seu comércio de petróleo para a China e para a Índia depois das sanções ocidentais. O Irão construiu canais alternativos, sobretudo com a China. Os seus liberais, entretanto, não ficaram mais fortes. Ficaram mais isolados e mais perseguidos.

A Europa arrisca-se a enfraquecer precisamente os israelitas que mantêm maior ligação com ela, deixando-os sozinhos com os radicais e, depois, dando-lhes lições à distância.

E depois há o antissemitismo.

Natan Sharansky propôs um teste útil: os três D, deslegitimação, duplo padrão e demonização.

Sousa Tavares consegue reunir os três.

Primeiro, a deslegitimação.

Sugere que, se a Europa devia aos judeus um Estado depois do Holocausto, talvez devesse tê-lo criado na Baviera, em vez de “naquela terra de pastores beduínos que era a Palestina”.

Porquê a Baviera? Porque não Tomar?

Tomar teve uma comunidade judaica florescente e uma sinagoga que foi encerrada em 1496, quando Portugal expulsou os seus judeus. Se a culpa histórica determina onde os judeus têm autorização para viver, Portugal também poderia certamente ter oferecido algum território.

Mas é precisamente aí que está o absurdo. Israel não foi inventado em 1945 como compensação europeia por Auschwitz. A história judaica e a ligação judaica àquela terra têm milhares de anos. Comunidades judaicas viveram ali muito antes do sionismo moderno, ao lado de árabes e beduínos.

Dois povos podem ter história no mesmo lugar.

Depois, o duplo padrão.

O Médio Oriente moderno está cheio de Estados cujas fronteiras e estruturas políticas foram moldadas pelas potências europeias depois do colapso do Império Otomano. Veja-se a Jordânia. Abdullah I, fundador da dinastia que ainda hoje governa o país, nasceu em Meca e só chegou à Transjordânia em 1920. Poucos meses depois, a Grã-Bretanha reconheceu ali um emirado sob o seu comando.

Ainda assim, ninguém exige que a Jordânia justifique a sua existência todas as manhãs. O Líbano e a Síria também não são rotineiramente tratados como erros coloniais cujas populações têm de explicar porque é que os seus Estados existem.

A intervenção europeia parece tornar-se especialmente desqualificadora quando o Estado em causa é judeu.

E, finalmente, a demonização.

Sousa Tavares pega nas provas de um fracasso catastrófico dos serviços de informação e de segurança israelitas antes de 7 de Outubro e salta para algo muito mais sombrio. “Sim, eles sabiam”, escreve, antes de perguntar se a incapacidade de Netanyahu para impedir o massacre não terá sido irresponsabilidade, mas sim “premeditação criminosa”. Logo depois, apresenta o 7 de Outubro como o conveniente pretexto para aquilo que se seguiu em Gaza.

Pensemos no que isto implica: que dirigentes israelitas ou instituições de segurança sabiam o que ia acontecer e permitiram conscientemente que cerca de 1200 dos seus próprios cidadãos fossem massacrados e 251 sequestrados para que Israel tivesse uma justificação para matar palestinianos.

As próprias investigações militares israelitas e do Shin Bet documentaram falhas graves e sinais de alerta ignorados. Não demonstraram que o massacre tenha sido deliberadamente permitido.

Passar de “houve avisos” para “eles sabiam”, e daí para a ideia de um sacrifício deliberado, sem provas de uma natureza completamente diferente, é uma teoria da conspiração.

E, na Europa, a imagem de judeus a sacrificarem sangue judeu para ganharem licença para derramar o sangue de outros tem uma história particularmente sinistra. As calúnias de sangue não têm lugar na Europa moderna, mesmo quando aparecem vestidas de comentário político sofisticado.

Depois vem a descrição dos judeus ortodoxos: “desagradáveis”, com os seus fatos pretos e “ridículas tranças”, antes de equiparar o seu alegado fanatismo ao islão radical.

Provavelmente tenho mais em comum, culturalmente e politicamente, com Miguel Sousa Tavares do que com um judeu ortodoxo em Jerusalém, Antuérpia ou Brooklyn. Mas estas são comunidades viradas para dentro. O judaísmo não é uma religião missionária. Não estão a tentar converter o mundo.

Pode-se achar os seus costumes estranhos. Mas o que torna “ridículas” as tranças de um homem? E como é que achar a sua roupa ridícula o transforma no equivalente de um islamista violento?

Sousa Tavares não nos dá qualquer ato de violência. Nenhum avião sequestrado, nenhum atentado suicida num autocarro, nenhum veículo lançado contra uma multidão. Dá-nos fatos pretos e tranças.

E como é que a expressão “ridículas tranças” passou por um editor? Teria sobrevivido da mesma forma a frase “o Papa com o seu chapéu ridículo”?

A esmagadora maioria dos luso-israelitas que conheço está a fazer exatamente o que eu faço: gastar o seu próprio dinheiro, apanhar um avião e voltar a Israel para votar contra Netanyahu. Continuaremos a apoiar os liberais que vivem em Israel e a exigir que a verdade sobre o 7 de Outubro, sobre os acontecimentos catastróficos daquele dia e sobre tudo o que se seguiu seja plenamente investigada e trazida à luz.

A Europa não nos ajudará cortando as pontes que nos ligam ao mundo liberal. E a verdade também não será servida por apagamento histórico, duplos padrões ou teorias da conspiração.

Que toda a verdade venha ao de cima.

Mas que seja a verdade.