Analiso o meu currículo literário. Revistas que entretanto acabaram, textos de que só ficou o título, e já não tenho, nem sei o que diziam, gente que perdi de vista, peças que estrearam e o tempo levou, arrependimentos, falsas partidas, links quebrados.

Mantive até há pouco tempo, e estimava-o muito, um arquivo digital de mais de dois milhares de rascunhos, começos de livros, tentativas, frases soltas, títulos, parágrafos interrompidos. Submeti-o a um teste, notando que voltar a ele me impedia de progredir e continuar. Seleccionei alguns textos, muito poucos, dada a extensão do conjunto, imprimi-os e encadernei-os, e destruí o resto.
Depois arrependi-me, tentei reaver o arquivo, recuperar o que sobrara em emails enviados a mim mesma, recuperei alguma coisa, nada que se assemelhasse ao que tinha.
O meu trabalho agora é reconstrui-lo, por isso passo horas a começar romances, em documentos intitulados ‘sem nome’, aprendi a prezar as tentativas frustradas, sentindo que com a sua acumulação vou constituindo novamente o edifício.

Tive em tempos a ousadia de imaginar uma escritora que, além de ser autora dos seus livros, fosse também autora das suas fontes. Bastaria nesse sonho buscar um tema, pesquisar uma palavra, e ir ao arquivo ver que havia lá sobre isso, como quem abre uma enciclopédia, só que em busca de definições poéticas.

Tem sido à procura de construir um arquivo assim que vou escrevendo, por isso conta mais o que não se vê, conta mais a colecção daquilo que não são papéis insignificantes porque é antes o próprio trabalho: e um dia contarão mais os papelinhos, do que qualquer linha que tenha sido impressa.
O arquivo é a melhor das redes sociais, porque é preciso ir atrás do nome dos documentos, nome que às vezes não têm, para dar com surpresa com quem se foi. E a imagem que sai do arquivo, muito mais do que dos livros, também eles, várias vezes, apenas tentados, apenas ensaio, tentativa — essa imagem é a de uma mulher em mudança contínua, na qual quase nunca me reconheço no presente em quem fui, no que escrevi, há um mês atrás.
Abro e fecho documentos, como outros abriam e fechavam gavetas. Tenho uma relação emocional com o computador sem graça onde estas coisas acontecem, um fetichismo amoroso, mantenho-o imaculadamente organizado.
E depois, o que resta? A palavra escrita também é levada pelo vento, porque os papéis ardem e também voam.
É a coisa mais complicada de todas. Recomeçar sempre do zero a cada livro. Parece-se com morrer e nascer de novo. Custa mais à medida que o tempo vai passando e quando não se tem a energia de um demagogo.

Restará um dia essa colecção de nãos que foi o que decidi não publicar: porque não prestava, porque não estava feito, porque estava confuso, porque ficou a meio, porque não me apeteceu.
Dá-se então esse currículo paralelo, dos papéis que não viram página. Pensar que são eles que me aguentam, tentando erigir uma floresta perdurante de saídas, ímpetos, enquanto acumulo aquele currículo outro, oficial, que não conta se não para não me esquecer daquilo que foi vendo a luz do dia.

O arquivo vivo é o arquivo morto. Às vezes, penso o que seria se tivesse de transpor a nuvem digital para uma casa, quantas estantes ocuparia, quantos quartos. E encontro um sentido no confronto com a imagem do espaço que o trabalho ocupa.