Esta semana andei menos, mas vi algumas coisas curiosas. Cães que saíam com os seus donos para passear, todos ao mesmo tempo, cada um mais belo do que o outro, vi um motard no cimo da serra, que se benzeu ao passar pelo meu carro. Teria visto Deus ou o diabo? A verdade é que depois desse estranho cruzamento, descendo a serra a caminho da praia, os motards já não me metiam medo. Na beira-mar, vi as pessoas que habitam na mesma cidade que eu, meus irmãos. E aí havia gente de todos os feitios. Um pai, uma mãe e os seus filhos, bonitos e bem vestidos, felizes. Outra família, todos tão desolados como o triciclo da menina, o pai cabelo ralo, a mãe feia, fiquei nos olhos da menina pensativa e desolada.
É a minha cidade que me salva, com os seus jeitinhos todos. Os pescadores à beira do rio, a gozar as últimas horas da noite, talvez saídos do trabalho, mas ainda com tempo para a melancolia. Avenidas com nomes de grandes treinadores, praças com nomes de poetas, uma luz sobre tudo, dourada, quase quente, quando são nestes dias de Outono quase seis da tarde.
Pode um lugar salvar-nos, pode o amor que ganhamos a um lugar reconduzir-nos a quem somos, lembrar-nos o nosso nome? Sinto-me quase aflita de ter encontrado uma casa no meio desta luta justa e tamanha por uma casa para todos, mas a verdade é que caminho desde sempre, mão engelhada, para encontrar esta guarida.
No regresso a casa, cruzámos diante do rio para ir ver os pescadores, à procura de um amigo que antes estava sempre à pesca, mas agora nunca está. E aí são imigrantes de leste, famílias inteiras que se juntam ao fim do dia para o momento mais desejado. Ver o rio e apanhar peixinhos que largam de volta à água depois de pescados.
Penso na sorte do pescado. Que se vê quase morto para apaziguar as dores dos homens e logo, prévio cadáver, devolvido à água. Satisfaz aquele breve ímpeto, a breve insolência do ardor, sofreu por isso, e logo volta ao rio.
O peixe podia parecer mais digno, ferido em vão. Mas o pescador também se fere na ferida de cada peixe, em vão também, mesmo que para regressar no dia seguinte, estacionar o carro, contemplar o negrume umas horas, esquecido da vida, fumando cigarros, escutando música pelo rádio do carro.
E logo a génese de tudo quanto é bom me atinge em cheio na cara. Do carvão vieste e ao carvão voltarás.