Volto a casa, às casas, em virtude da crise em curso. Durante o confinamento, um amigo, velho artista, disse-me que agora, confinadas, as pessoas aprenderiam finalmente “o que é a sua casa”. Falava na casa como a entendia, enquanto castelo, refúgio: mas entendi as suas palavras, então, naquilo que não mostravam. Era fácil entender o que era a própria casa para quem vive num espaçoso apartamento de dois andares e seis assoalhadas, como o meu amigo vivia.

Saberão, saberia eu, o que era isso — a casa — de que falava? Poderia a casa precária, remendada e remediada, transmitir a quem nela vivesse o mesmo sentido de protecção?

Conheci quem tivesse perdido as suas casas ou tivesse sido obrigado a arrendá-las, mudando-se para comunas, sem privacidade. A dor dessas perdas comunica com o sentido de que me falava o meu amigo, a de se perder junto com o lugar da vida íntima a noção de baluarte contra o mundo que pode ser um apartamento mesmo modesto.

As perdas que testemunhei, a perda do abrigo, vividas como humilhação, destruíram por dentro as pessoas que as viveram: sabemos como o crédito se serve da vergonha e da manipulação da nossa auto-imagem. Endividados ou na bancarrota, os desapossados perderam a cara para aparecer em público, cerraram-se em silêncios. Vi-o no rosto de várias pessoas que amo, eram os tempos da troika. A desfiguração de perder quanto se teve, disfarçada como disfarçam os adultos.

Se o centro das grandes cidades é hoje, em virtude do preço da habitação, um lugar homogéneo, no que diz respeito à casa onde se vive, é exactamente o privilégio de que me falava o meu amigo aquele que está vedado à maioria dos portugueses, jovens, idosos, maduros, até crianças, em virtude da crise da habitação. Entender a casa onde se vive como um lugar que, a médio/longo prazo se constrói, lugar onde nos sentimos protegidos do mundo, casa que é a quem nos confessamos, que é testemunha silenciosa do avesso de quem somos em público. Quem nos vê alguma vez do modo que nos vêem as nossas casas? Quem nos ouve chorar, rir, dançar, gemer? Quem nos viu a fazermos os nossos filhos, a chorar os nossos mortos, e nos conheceu no prazer e na derrota e na miséria e na agonia e nas aflições todas que escondemos uns dos outros — senão a casa onde nos abrigamos todos os dias?
Quando penso no direito constitucional à habitação, considero a casa nestes termos: o único lugar onde não disfarçamos em todos os quartos. O acesso a uma habitação condigna também é um acesso a este direito a um lugar de autenticidade e de hospitalidade irrestritas.

A indignidade da crise actual e dos seus responsáveis denota o desconsiderar também deste aspecto. Um tecto também é uma protecção do cidadão comum contra o mundo e aqueles que o governam.