Durante o século XX, a esquerda foi o nome da esperança. Representava a dignidade do trabalho, o sonho da igualdade, a utopia de uma humanidade reconciliada consigo mesma. Era o contraponto moral e político de um sistema fundado na acumulação e na exploração. A sua força residia na ideia de libertação, colectiva, material, concreta.

Hoje, tal força esvaziou-se. A esquerda, despojada das suas referências históricas (classe, produção, conflito social), refugiou-se na moral. Onde antes havia projecto, há agora sentimento. O discurso político cedeu à gramática da virtude. O mundo deixou de dividir-se entre exploradores e explorados e passou a dividir-se entre puros e impuros, entre os ‘do bem’ e os que cometem erros crassos de linguagem.

A indignação converteu-se em moeda moral. O capitalismo, com o seu génio assimilador, absorveu também a rebeldia: transformou o protesto em produto, a diferença em nicho de mercado, a identidade em marca pessoal. Assim, o sistema encontrou a sua válvula de escape perfeita: uma esquerda que já não o ameaça, mas o ilustra.

As redes sociais fizeram o resto. A revolução deu lugar à exibição pública da virtude. O militante  tornou-se curador de causas, o compromisso reduziu-se a uma partilha indignada. A justiça social  migrou para o território da emoção, onde tudo é medido pelo grau de ofensa e não pela  transformação do real.

Este novo moralismo tem os traços de uma religião sem transcendência. Há dogmas, rituais, palavras proibidas, heresias, e sobretudo uma sensação de pureza ameaçada que exige permanente vigilância. Nietzsche chamaria a isto a moral dos fracos: a que se alimenta do ressentimento e se legitima pela culpa, uma moral reactiva, não criadora, que nasce da negação, não da afirmação, pois o ressentido precisa de um inimigo para existir.

O ‘tirano’ de hoje não é o tirano exterior, mas o impulso interior que transforma cada ideia em tribunal. A cultura do cancelamento (agora trumpisticamente menor) é o seu braço secular: julga, absolve, excomunga. A liberdade, o outrora valor supremo da esquerda, torna-se suspeita, porque  a liberdade implica contradição, erro, imperfeição.

O paradoxo é cruel: quanto mais se proclama a diversidade, mais se impõe a homogeneidade. Quanto mais se exige tolerância, menos se admite dissidência. A esquerda, que nasceu para  libertar, enclausura-se na gramática do medo; medo de ofender, medo de ser mal interpretada, medo de perder a aura de pureza.

Mais, aprisiona e condiciona o discurso contraditório, um mero vislumbre de ideia, uma opinião  tímida, e torna-os um alvo a abater. Com a velha e gasta superioridade moral, qual templário em  Acre, combaterá até ao fim o último dos ímpios.

No fim, resta um vazio político que o sistema agradece. O poder não precisa mais de censurar,  basta deixar a moral trabalhar. O activismo torna-se estética, o protesto mercadoria, e a virtude,  espectáculo. O novo militante não quer mudar o mundo: quer ser visto a querer mudá-lo (muito, e radicalmente).

A esquerda, despojada da sua utopia social, tornou-se guardiã do rito e do dogma. E assim  cumpre, sem o ver, a função da nova Igreja: distribui culpas, promete redenção simbólica e  mantém a ordem moral. Mas uma esquerda sem transcendência, sem povo e sem economia, é  apenas mais uma seita: ‘piedosa’, ruidosa e inofensiva.

A esquerda que outrora libertava, hoje absolve e condena. Assume o papel de árbitro moral, não  de força transformadora. Já não pretende mudar as estruturas, mas as consciências, e fá-lo com  o mesmo zelo de quem, no passado, administrava a salvação das almas. A política converteu-se  em catequese.

O moralismo, quando triunfa, transforma a liberdade em medo: medo de errar, medo de ofender, medo de ser impuro. A esquerda contemporânea vive nesse medo. Mais preocupada em não ser a ‘má da fita’ do que em ser o farol da humanidade, tornou-se prisioneira da sua própria  ‘sensibilidade’. As causas multiplicam-se, mas perdem substância; a retórica da inclusão exclui  quem pensa de outro modo e a promessa de igualdade dissolve-se na competição por virtude. O  militante substitui o operário; o ‘post’ substitui o panfleto; o cancelamento substitui o confronto. O resultado é uma esquerda hiperconectada, mas incapaz de transformar o real.

A esquerda não foi derrotada a partir de fora: desarmou-se por dentro, ao confundir justiça com  sensibilidade, acção com emoção, revolução com retórica.

Talvez seja esse o seu drama maior: ter trocado o poder de agir pelo voluntário e apetecível conforto de ter razão. O moralista não transforma, ele admoesta. O político constrói; o moralista corrige. E quando a esquerda se converteu em moral, perdeu o povo, perdeu o conflito e perdeu  a realidade do mundo.