Os recentes tumultos em França, de que as nossas «acampadas» são, felizmente, uma pálida repercussão,  envoltas na habitual liturgia das causas justas, vieram, uma vez mais, mostrar que há manifestações de  radicalismo que constituem ameaças à democracia e outras que, beneficiando da conveniente designação de  «activismo» (vide texto de José Manuel Fernandes aqui no Observador), parecem adquirir uma espécie de  imunidade ideológica. Tudo depende, naturalmente, da causa proclamada e, sobretudo, da simpatia que esta  desperta entre os zelosos guardiães do pensamento do bem.

Para aqueles a quem esta peculiar distribuição da superioridade moral ainda não toldou a memória, nem a  capacidade de distinguir os factos das conveniências, talvez valha a pena revisitar a História e elaborar uma  pequena resenha dos autores de algumas das maiores atrocidades políticas, tantas vezes esquecidas no afã de  atribuir à extrema – não existe outra – direita uma espécie de monopólio universal da violência e do terror.

A extremidade do terrorismo  

Sabemos que a análise dos factos não é o maior dom dos que se apressam a fazer interpretações. Há um erro recorrente no debate contemporâneo: discutir o terrorismo (ou qualquer outro fenómeno) a partir  de convicções, e só depois procurar os factos que as sustentem. Se quisermos inverter o método, começando pelos dados e só depois passando à sua interpretação, o ponto de partida deve ser o mais recente relatório da  Europol, o EU Terrorism Situation and Trend Report (TE-SAT) 2025, relativo a 2024.

Os números são objectivos: 58 ataques terroristas (consumados, falhados ou frustrados) na União Europeia e  449 detenções por crimes relacionados com terrorismo. A distribuição por tipologias é elucidativa: cerca de 24  ataques jihadistas, 21 ataques de extrema-esquerda, 4 ataques separatistas e 1 ataque de extrema-direita.

Duas conclusões imediatas impõem-se quanto ao número de incidentes. A actividade terrorista associada à  extrema-esquerda supera claramente a da extrema-direita no contexto europeu recente; em termos de  letalidade e risco estratégico, o jihadismo mantém-se como a principal ameaça. A realidade, portanto, não  confirma narrativas simplistas. Nem as que ignoram a esquerda, nem as que ignoram o jihadismo.

A memória longa da violência política  

A leitura contemporânea tende a esquecer que o terrorismo de extrema-esquerda não é um fenómeno residual  nem recente. Pelo contrário, marcou profundamente a Europa durante décadas. As Brigadas Vermelhas  assassinaram o primeiro-ministro italiano Aldo Moro em 1978; a RAF conduziu uma campanha de assassinatos  e sequestros até aos anos 90; o grupo grego 17 de Novembro foi responsável por 23 mortes; a ETA matou cerca  de 850 pessoas ao longo de décadas. Não se trata de episódios marginais, mas de uma tradição de violência  política organizada, ideologicamente estruturada.

O plano mais profundo: a violência de Estado  

Se o terrorismo é a expressão fragmentada da violência política, o século XX revelou algo mais abrangente: a  capacidade de o próprio Estado se tornar o principal agente de repressão. Os regimes que mais profundamente concentraram poder, controlaram sociedades e reprimiram populações surgem, em larga medida, associados a  projectos de matriz comunista: A União Soviética sob Joseph Stalin, com milhões de mortos em purgas, Gulag e  fomes induzidas (incluindo o Holodomor); A República Popular da China sob Mao Zedong, com dezenas de  milhões de mortos no Grande Salto em Frente e na Revolução Cultural; A Camboja sob Pol Pot, cerca de um  quarto da população eliminada em quatro anos; A Coreia do Norte, com um sistema de campos de trabalho e  repressão contínua; Cuba sob Fidel Castro, com execuções políticas e campos de trabalho; e, em versão mais  recente, a Venezuela sob Hugo Chávez e sucessores, com erosão institucional e repressão crescente.

A União Soviética não se limitou ao seu território: construiu um sistema de dominação sobre a Europa de Leste,  reprimindo revoltas como a Hungria (1956) e a Primavera de Praga (1968). A conclusão é empiricamente  sustentada: o maior volume de violência estatal organizada do século XX concentrou-se em regimes de matriz  comunista.

Aqueles que votam com os pés  

Há um outro indicador frequentemente ausente nas discussões ideológicas (e abordado apenas fora da bolha, nessas deploráveis conversas de café): de onde fogem as pessoas? Cerca de 3,5 milhões de alemães fugiram da  zona soviética e da Alemanha de Leste entre 1945 e 1961, dos quais cerca de 2,7 milhões já sob a RDA  formalmente constituída, antes da construção do Muro de Berlim; cerca de 3 milhões de cubanos emigraram  desde 1959, quase metade só nos últimos anos, com o país a perder mais de 15% da sua população residente  entre 2022 e 2023; mais de 7,7 milhões de venezuelanos abandonaram o país na última década; milhares  continuam a fugir da Coreia do Norte, apesar do risco de morte.

O padrão é consistente. As populações fogem, de forma esmagadora e sistemática, de regimes fechados para  sociedades abertas, o sentido inverso é a excepção residual, não a regra. Não é um dado teórico, percepcionado  ou uma sensação – é profundamente humano.

  A lente selectiva: o problema do anti-imperialismo  

Um dos factores que ajuda a explicar a forma como estes fenómenos são interpretados é o uso de uma chamada  “lente anti-imperialista”: uma leitura que tende a explicar os conflitos sobretudo como reacção a potências  dominantes, geralmente o Ocidente. Enquanto ferramenta analítica, essa lente tem utilidade. O problema surge  quando é aplicada de forma desigual.

Se o conceito de imperialismo for levado a sério, então não pode ignorar o domínio da União Soviética sobre a  Europa de Leste ou a projecção de poder da República Popular da China em regiões como o Tibete ou Xinjiang. Quando o anti-imperialismo se torna selectivo, severo com uns, indulgente com outros, deixa de ser análise e  passa a ser posicionamento ideológico.

Essa assimetria reflecte-se também na leitura da violência. Movimentos armados são, por vezes, enquadrados  como “resistência”; regimes autoritários são interpretados como “respostas a pressões externas”. Ou seja, a  responsabilidade dos agentes tende a diluir-se no contexto. Não se trata de apoio directo, mas de uma diferença  na forma de julgar a violência consoante a sua origem.

  Conclusão  

Os dados mostram que a extrema-esquerda mantém expressão relevante em número de ataques terroristas; o  jihadismo permanece o principal vector letal; a extrema-direita tem expressão operacional mais reduzida no  contexto europeu recente.

A história mostra que regimes comunistas produziram níveis massivos de repressão e controlo social; milhões  de pessoas fugiram desses sistemas.

E o presente sugere que continuamos a olhar para a violência de forma selectiva. Não pelo que é, mas por quem a pratica. A extremidade do terrorismo não reside apenas nos actos. Reside também naquilo que estamos  dispostos a relativizar. Porque, no fim, o maior risco não é o extremismo em si. É a incapacidade de o reconhecer  quando não confirma a narrativa que preferimos.