«Portugal não se fez ou unificou nos tempos modernos nem tomou a sua forma com o ideal pagão e anti-humano de deificar [endeusar, divinizar, sublimar no sentido de superior] uma raça ou um império». (António de Oliveira Salazar, Discurso Oficial de 1934)
A transparência, mais do que a translucidez (de opacidade relativa) interpretativa da perspicuidade cristalina da declaração supra de Salazar sobre a Identidade Portuguesa, reflecte a posição doutrinária do Estado Novo, que se baseava em factores históricos e culturais-civilizacionais – dos elementos agregadores da História de Portugal, da interpretação imperial do Império, multirracial e uni nacional, e da Língua Portuguesa conectante – dos portugueses «todos» do mundo portugalino, do lusitanismo-portugalismo, e da Nação-Povo única(o) de «Portugal do Minho a Timor».
Falamos da «Portugolândia» idiossincrática-axiológica sentida, vivenciada e interpretada valorativamente, assumida-comungada e de assumpção personalizada pessoal-individual e de colectividade-colectiva nacional dos portugueses europeus, dos portugueses africanos, dos portugueses asiáticos e dos portugueses sul-americanos.
Mais, falamos dos portugueses que lutaram, combateram e morreram pela Pátria-Mãe nas guerras do Ultramar, muitos deles autóctones; portugueses indígenas e continentais, infelizmente abandonados à sua sorte e traídos muitos deles no atrapalhado, precipitado e atabalhoado processo de descolonização da esquerda radical dominante no período revolucionário abrilista e pós-Abril.
Mais, falamos do português que está no Panteão Nacional, ídolo-herói nacional festejado da portugalidade, caso de Eusébio da Silva Ferreira, português africano (nascido em Moçambique), do Tenente-Coronel Marcelino da Mata, outro africano, condecorado com a Ordem da Torre e Espada, patriotas, entre outros portugueses continental-ultramarinos.
Mais, a título exemplificativo e pedagógico-didáctico, para combater o enviesamento histórico, deixar a nota de que quando o Brasil foi atacado a partir de 1580 (com a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir em 1578, sem deixar herdeiros, e a crise dinástica que se seguiu; perda da independência nacional para Castela-Espanha, Filipe II e seguintes, com a União Ibérica até 1640, com a Restauração da Independência) pelos holandeses, foi defendido por voluntários, as companhias de emboscada, chefiadas por Matias de Albuquerque (branco, nascido em Lisboa, c.1547, Conde de Alegrete, português do continente, fidalgo e administrador colonial luso-brasileiro, governador da capitania de Pernambuco e governador-geral do Brasil ), por Henrique Dias (negro), português angolano, pelo índio português da Amazónia chamado O Camarão, heróis nacionais e patriotas condecorados, segundo o professor Sousa Lara, entre outros – sendo que é um desvario lamentável e uma idiotice falar de «raça pura», uma ideia peregrina ignara que não colhe historicamente, de modo algum – que fere e flagela a História e a memória de Portugal imperial.
Mais, não podemos julgar-avaliar a factologia histórica do passado pelas lentes do presente e pela ideologia crítica que deturpa, aponta o dedo e acusa, pede reparações e exige pedidos de desculpa, num fundamentalismo, radicalismo, wokismo e frenesim, e ignorância confrangedores – a História é o que é, acontece – em contexto. É claro que houve escravatura; não se trata de negar nem de suavizar uma narrativa romântica do «bom colonizador». Trata-se de fazer o enquadramento historiográfico no tempo-mentalidades em concreto. Eram outros tempos. Aliás, como aconteceu aquando da Revolução Industrial, deixamos como exemplo, a exploração do trabalho infantil, em que as crianças eram vistas e tratadas nas fábricas como adultos em miniatura; facto que estando mal, a historiografia tem de estudar e analisar, não com os olhos do nosso tempo moderno-contemporâneo, mas situado estrutural, conjuntural, em sincronia e diacronia, e realidade psico-sociológica, cultural e das mentalidades temporal. Reescrever e adulterar História, pervertê-la por vício ideológico é que não.
Donde, a declaração discursiva de Oliveira Salazar citada, demonstrar-provar o facto de que a identidade imperial portuguesa não se baseava na ideia-conceito de deificar-superiorizar uma «mirabolante raça pura superior lusitana» do português europeu em relação aos outros portugueses das colónias-províncias – sendo que a História é o que é, sem interpretações revisionistas revisitadas, de «delirium wokista», de patéticas problemáticas imberbes, simbolismos deturpados, do estupidificante reparativo-retroactivo, de anacronismo histórico estéril, sem sentido de Estado, de ideológica manipulação e desvario esquerdizante habitual e de preconceito-convicção doutrinária – estruturante de confusão-baralhação da História nacional.
Mais, a frase de António Salazar refuta a ideia de que Portugal se fez-construiu com base num ideal de culto de «raça pura superior», do autoritarismo imperialista, crença que era comum em algumas ideologias políticas da época, como o fascismo italiano de Benito Mussolini e o nazismo alemão de Adolfo Hitler, mas não no caso português. Sendo que Salazar defendia que a identidade nacional portuguesa era construída-advinha da nossa História, da nossa cultura, tradições e costumes – a diáspora do portuguesismo – pelo mundo português, ligado pelo factor agregador da Língua Lusíada. Donde, falar de «raça pura» no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, é uma inverdade-mentira-leviandade conceptual histórica perigosa, de ideologia-esquerdopatia extremada, mistificada e mistificadora, de logro, descontextualizada, divisionária e disruptiva do pulsar da portugalidade.
«A cunhagem da palavra portugalidade ocorreu entre as décadas de 50 e 60 do século XX (decorrendo de uma lógica estado-novista para que as ex-colónias portuguesas fossem vistas pela ONU não como territórios autónomos, mas como parte integrante do território português, o que é corroborado pelo discurso parlamentar da Assembleia Nacional, a partir de 1951), sendo um produto do Estado Novo. Trata-se de um processo que foi sublinhado após a revogação, em 1951, do Acto Colonial, em que as colónias passaram a chamar-se províncias ultramarinas e em que foi disseminado o slogan – “Portugal do Minho a Timor” – destinado a combater os movimentos independentistas que [por] lá emergiam, defendendo a pertença [e interiorização axio-valorativa pela integralidade da humanidade-terrus imperial portuguesa] desses territórios a Portugal. Foi em 1947, com a publicação do opúsculo Em Defesa da Portugalidade, da autoria de Alfredo Pimenta que, pela primeira vez, alguém se debruçou de forma específica sobre a portugalidade, discorrendo sobre o seu significado e tipificando o conceito. Após um hiato na sua utilização, na sequência da Revolução do 25 de Abril [uma vez mais a esquerda ideológica e doutrinária, de ideário radical narrativo-romanceado, a negar-baralhar os factos históricos e a História], em que se verificou um distanciamento em relação a assuntos que eram característicos do Estado Novo, o termo vai sendo reintroduzido no léxico, não fugindo, no entanto, ao ideário luso-tropicalista em que foi forjado (Ferronha, 1969), provocando equívocos.» (Vítor de Sousa, O Estado Novo, a cunhagem da palavra «portugalidade» e as tentativas da sua reabilitação na actualidade, Resumo, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Universidade da Beira Interior, Dezembro de 2017)
Da ideia de grande país, uno, unificado e indivisível, e do conceito-princípio da lusitanidade imperial (com o Estado português a nunca assumir explicitamente o factor-facto do Império), fica a citação salazariana, que não deixa dúvidas: «Somos um país grande, não somos um país pequeno. Comandamos interesses muitas vezes importantes, e isto no Mundo [em referência concreta-discreta ao Império]. Nós continuamos aferrados [ancorados] à ideia de que somos pequenos, flameamos [ardemos com chama, ondulantes, ondulamos] em pequeno. Há que fazer tudo em grande. Mas somos para aí uns pobres e parecemos não ter envergadura para isso». (António de Oliveira Salazar, Citações e Pensamentos).
Mais, o «Dia da Raça» era-foi uma comemoração instituída pelo Estado Novo, criado oficialmente por Salazar em 1933, celebrado a 10 de Junho, data-dia da morte de Luís de Camões, sendo que o regime transformou este evento num símbolo nacionalista, baptizando-o de «Dia da Raça» – a raça portuguesa, de todos os portugueses, com todos os portugueses de aquém e além-mar – com o objectivo de exaltação e orgulho nacional patriótico, promovendo a ideia de unidade nacional, do conceito-concepção do Império unido, onde todos os portugueses – do continente, das ilhas e das colónias-províncias – todos faziam parte da grande comunidade lusitana, todos ligados pela Língua, pela cultura, pela História, e de sentimento-lealdade ao estado único-comum, o Estado português.
Mais, pensamos ser pertinente distinguir-explicar os conceitos de nacionalismo e patriotismo, sendo que ambos os termos estão intimamente interligados, com o patriotismo a fazer parte do nacionalismo.
O nacionalismo pode ser entendido como uma ideologia (não no caso nem para o caso, sem extremismos e sem o nacionalismo de Estado de xeno-aversão); mas que foi o caso-juízo ideológico, (quiçá involuntário em alegação-dúvida analítica) grave dos discursos oficiais de confusão-erro, paradoxo e ilogismo da «raça pura» de Lídia Jorge, conselheira de Estado, e do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, nas comemorações nacionais-nacionalistas do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas de 10 de Junho, ano da graça de 2025, sendo que aqui deve ser e é de obrigatória interpretação de um movimento-mentalidade que enfatiza a importância da Nação-Povo como uma unidade política, histórica e cultural-civilizacional do multiculturalismo em coesão e coexistência – o nacionalismo em sentido amplo-inclusivo, a multiculturalidade que enfatiza os interesses nacionais, com o foco na soberania do Estado e na Identidade Nacional Portuguesa, com um Legado cultural, linguístico e histórico, manifestado no patriotismo, com o amor e lealdade à Pátria e aos símbolos que o representam, à realidade cultural comum e à História – com um sentimento macro de pertença das Comunidades lusíadas europeias, africanas, asiáticas e americanas, compartilhado pelos cidadãos e pela cidadania comum partilhada-assimilada no espaço-tempus da portugalidade. Criticar-abordar o nacionalismo da Nação-Povo Português, no sentido do todo não abrangente, é desvirtuar o nacionalismo-pátrio com a ideologia, o que não cabe aqui e descontextualiza. É criticar implicitamente Camões, Vieira, Pessoa, é não perceber a ideia do «Quinto Império», sendo que sem Império não haveria portugalismo-lusitanismo nem nacionalismo-patriotismo Camoniano, estando ambos intimamente conectados, sem haver deturpação, preconceito ideológico anacrónico e figurada miscigenação conceptual – sendo aqui uma e a mesma coisa, sem revisionismo histórico, e com todos a sentirem-se portugueses igualitariamente nos festejos da portugalidade da alma, do fado-destino e do imaginário de ser, de estar e sentir-partilhar o que é ser português na Europa e in mundus communis lusitaniae imperialis humanitatis – no mundo da humanidade imperial lusitana comum –
A filosofia de António de Oliveira Salazar e do Estado Novo, repetida à saciedade e recapitulada, de que: «Portugal vai do Minho a Timor; somos muitas raças, mas uma só Nação», um só Povo, uma só Gente, uma só Pátria, não tem nada a ver com a ideia de «raça pura», tendo, isso sim, a ver com a afirmação da portugalidade, do portugalismo em diáspora, do Povo Português unido, com o orgulho nacional inclusivo, com a luta, heroicidade e mesmo dar a vida pela Pátria-Mãe e pelo simbolismo filosófico da grande nação portuguesa plurissecular dos tempos do Hexa Império Português, com 587 anos de História.
Segue-se a interpretação política marcelista do todo nacional identitário do portuguesismo assumido: «Portugal está em África para defender os portugueses que lá vivem e para garantir a sobrevivência do país. [ideia de união política da portugalidade defendida pelo Estado Novo].» (Marcello Caetano)
Realidade que mostra a unidade defendida pelo Estado Novo da portugalidade.
Rematamos com o pensamento do professor José Hermano Saraiva acerca da nova portugalidade, pós-imperial, intemporal, resiliente e global:
«Isto é que é muito importante. É que existiu, e continua a existir, um Oriente português que nada tem a ver com a política. Eu há muitos anos publiquei um livro chamado “A Formação do Espaço Português” em que acentuo exactamente isso: Portugal não era um Estado, não era uma organização política. Era uma ideia, um espaço de missão, como eu lá chamo. Onde quer que houvesse portugueses e se rezasse em português, eles diziam que eram portugueses. Essa ideia continua hoje a ser verdadeira.
O principal responsável por esta exposição, o dr. Miguel Castelo-Branco [Presidente da Casa dos Vinte e Quatro da Nova Portugalidade], contou-me há momentos que quando apresentou o seu passaporte lá na alfândega [na Tailândia], o funcionário viu e disse: “Português? Ah, tem graça. Eu também sou português”. Ele ficou espantado com um asiático que lhe dizia que era português e lhe falava em inglês e disse: “Mas português porquê?”. “Bom, eu também sou cristão”.
A ideia da Portugalidade, do Império Português, não tem nada a ver com organização política, com obediência a um senhor. Não, é uma ideia espiritual. É uma comunidade de gente que acredita talvez no mesmo Deus, embora sob formas muito diferentes, é uma comunidade dispersa pelo mundo. E isso lembra muito a comunidade judaica. O espaço português não é um Estado, não é um país, não é um império, não é um domínio [territorial]. Não, é sobretudo uma ideia [o “Quinto Império” global reinterpretado]. E isso continua a ser. Continua a haver a ideia de um Portugal, de um português que eles [os portugueses do Oriente] não sabem já bem o que é. Ligam vagamente com tradições religiosas, com o culto de antepassados, com vários viajantes que [por] ali passaram. E os nossos diplomatas, com toda a razão, sublinham a urgência política que é organizar, dar consciência, dar instituições a essa realidade espiritual e cultural [civilizacional] que persiste na Ásia apesar de todas as transformações políticas. [O mesmo se aplicando a todo o universo da Portugalidade].» (José Hermano Saraiva, A Alma e a Gente, Os Portugueses do Oriente, 5 de Fevereiro de 2005.
Disse.