«Quanquam animus meminisse horet, luctuque refugit. Incipiam!»
Tradução: Embora minha mente estremeça com o pensamento e se retraia de tristeza. Vou começar!

«Crudelis ubique»
Tradução: Cruel em todos os lugares.

«Luctus, ubique Pavor, et plurima Mortis Imago!»
Tradução: Luto generalizado, medo em todos os lugares e muitas imagens de morte!

«Apocalypticus!»
Tradução: Apocalíptico!

«Parece que a população estava toda absorta com a ideia que era o Dia do Juízo Final [o Fim do Mundo]; e desejando, portanto, empregar-se em boas acções, tinham-se coberto de crucifixos e santos; homens e mulheres, sem distinção, durante os intervalos entre os abalos [as réplicas do tremor de terra] estavam quer a cantar ladainhas [ou litania; é uma forma de oração católica curta e com invocações aos Santos, à Virgem Maria ou à Santíssima Trindade, com interjeições como: «Rogai por nós!»; «Tende piedade de nós!»; «Ouvi-nos!». A palavra ladainha deriva do grego «litaneía» e do latim «litania», significando oração, súplica ou rôgo, em busca de intercessão, usada no culto católico, levando os fiéis-crentes a um estado espiritual de imersão na fé, introspecção e devoção] quer, num fervor de zelo, a atormentar os moribundos com cerimónias religiosas; e sempre que a terra tremia, bradavam «Misericórdia!» Todos de joelhos, nos tons de voz mais dolorosos que se possam imaginar [das emoções-reacções psicológicas da população]. O receio, por conseguinte, de que o meu estado [o narrador-relator encontrava-se ferido, vítima do terramoto] pudesse incitar a sua piedade [compaixão, no sentido de religiosidade, e consequentes práticas religiosas católicas, sendo o contador um cidadão inglês que vivia em Lisboa, que professava a fé-religião protestante, o que provocaria um  choque de valores e axiologia cristã entre  a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica] numa altura como esta, em que todo o Governo se achava paralisado [da inacção provocada pela comoção e medo que o terramoto trouxe] e era possível adivinhar que viragem o seu zelo  furioso [devoção religiosa] podia tomar contra esse pior dos criminosos, o «Herege» [o não crente católico; aquele que confessava-revelava a fé protestante; logo, uma pessoa que professava uma crença, fé ou prática religiosa devota contrária à doutrina ou aos dogmas – do grego, dógma, que significa de opinião e acreditar naquilo que se pensa ser a verdade inquestionável e indiscutível; a verdade revelada – do catolicismo estabelecidos, no caso,  e em contexto religioso, aquele que segue-convoca uma heresia: ser protestante e não católico]! Fez-me recear a aproximação de qualquer pessoa. Junte-se igualmente a isto, que o Cais da Pedra [que significa um cais construído em pedra, não sendo específico para este ou aquele cais em concreto, mas uma designação geral aplicada a vários cais em pedra, na Lisboa ribeirinha setecentista (século XVIII), significando o embarcadouro (cais, porto) e a muralha que o rodeia; rodeava. O primeiro cais da pedra de que há registo, localizado no Terreiro do Paço, foi mandado construir pelo rei D. Manuel I e terminado por D. João III], adjacente a esta praça [o Terreiro do Paço, também conhecido como Praça do Comércio; na época, em 1755, aquando do Grande Terramoto, o maior cataclismo natural jamais acontecido na Europa, a praça-zona era conhecida como Paço da Ribeira – Baixa de Lisboa, junto ao rio Tejo, uma das maiores praças europeias – que significava-afirmava o poder real e o centro administrativo da cidade de Lisboa, capital do reino de Portugal e dos Algarves, título adoptado pelo rei português D. Sancho I e mantido pelos seus sucessores até ao século XVI], já se tinha afundado e o mínimo avanço  da água submergir-nos-ia a todos. Passei cerca de duas horas em tais considerações, durante as quais, o Sr. Forg e toda a sua família tinham vindo para a praça e se juntaram à família do Sr. Graves. As chamas estavam quase defronte […] Verifiquei que a Sr.ª Graves era de opinião corrente [colectiva] de que se tratava do último dia [o Dia do Juízo Final, o Fim do Mundo]; e, ao tentar convencê-la do contrário, ela disse-me que era de pouca importância para nós, já que as chamas estavam mesmo a aproximar-se das lojas de pólvora no lado oposto e ela esperava que explodissem a qualquer momento. Este novo terror [horripilante horror] impediu-me de continuar a falar e aguardámos todos o acontecimento silenciosamente [à espera do destino, das explosões devastadoras e mortais], […] embora houvesse três explosões, umas sucedendo imediatamente às outras com um grande estrondo, não foram acompanhadas, pelo que conseguimos saber, de qualquer prejuízo [humano, morte(s)]».
(The Lisbon Earthquake of 1755 – British Accounts – O Terramoto de Lisboa de 1755 – Testemunhos Britânicos – Um relato do que aconteceu ao Sr. Thomas Chase, em Lisboa, no Grande Terramoto: escrito por ele próprio, numa carta a sua mãe, datada de 31 de Dezembro de 1755, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Edição bilingue, 1990, pp. 86, 87, 99)

A abrir o nosso texto, até aqui a citação-testemunho e documento-carta da época, e porquê? Porque é uma fonte histórica coetânea que reúne os três elementos naturais que interagiram com o quarto elemento – a terra, que tremeu, tremeu e tremeu – e do caos caótico dos elementos que conflagraram no terrível Terramoto de Lisboa, no século XVIII, ano da graça de 1755, no dia 1 de Novembro, coincidente com o feriado religioso do Dia de Todos os Santos – «ironia das ironias» – um sábado, sismo cataclísmico – de grau-ponto 8,7 a 9,5 na escala logarítmica de Richter – sistema usado da vírgula decimal, que significa dos tremores de terra registados mais devastadores e intensos da História, de destruição catastrófica massiva total ou quase total – (como nota, deixar o registo de que o grau 10 nunca se verificou, sendo que teoricamente a escala richteriana pode ser matematicamente infinita; o maior impacto jamais assinalado, notório, verificou-se no Chile, a 22 de Maio de 1960, em Valdivia, com um sismo de magnitude confirmada de 9,5 na escala de Richter, sentido em várias partes do mundo e seguido de um maremoto-tsunami que se propagou-afectou (n)o oceano Pacífico, causando danos e vítimas no Havai, Japão e Filipinas) – que devastou a cidade e capital do reino de Portugal, seguido de um maremoto (sismo no fundo do oceano Atlântico que causou o deslocamento de uma grande massa de água), seguido de um tsunami (o efeito colateral do maremoto, uma série de ondas gigantescas libertadoras de grande quantidade de energia que se propaga pelo oceano e que ao chegar à costa provoca grande, grandíssima destruição), e de um-vários incêndios que deflagraram por toda a cidade e que lavraram-arderam por quase uma semana: 5 a 6 dias seguidos segundo os registos coevos. Donde – terramoto-maremoto-tsunami-fogo – a natureza em fúria-ímpeto e a cólera-ira rompante dos elementos naturais, evento que marcou a história da capital portuguesa e a arquitectura setecentista de reconstrução lisboeta e da Baixa, à imagem, estilo e semelhança pombalina.

De acordo com os especialistas-cientistas na matéria – sismólogos – é facto certo vir a acontecer no futuro vindouro, um novo e devastador terramoto em Lisboa, que pode sobrevir a qualquer momento e instante fatídico – infelizmente, parece que o relógio natura-terrestre está em contagem decrescente e vem-se aproximando a morte marcada com o destino; a possibilidade real de um novo terramoto, amplamente destrutivo em Lisboa, deve-se ao facto da localização da «cidade Alfacinha» na fronteira entre as placas tectónicas da Eurásia (massa de terra combinada da Europa e da Ásia, que são dois continentes conectados sem um oceano que os separe) e da Núbia (a maior parte da placa africana, que está em processo  de separação da outra-restante porção da placa africana, podendo num futuro distante vir a dividir a África); placas que convergem lentamente, 4 a 5 mm por ano e a acelerar segundo medições de GPS mais recentes a indicarem um aumento anual da fissura de 7 mm por ano; a relação entre as placas tectónicas tem a ver com a condicionalidade-contingência da placa da Núbia se estar a separar da placa da Somália (África oriental) e da sua fronteira com a placa da Eurásia, a Sul, que é uma zona de convergência onde ocorre actividade sísmica e vulcânica e sismos, como é o caso do grande sismo de Lisboa de 1755 – acumulando tensão na crosta terrestre, que mais dia menos dia irá libertar-se. Embora a deformação seja lenta, é altíssima a probabilidade real de um novo e mega-terramoto em Lisboa, sendo muito preocupante a descoberta recente da fissura aumentada-activa. A localização de Lisboa numa área geologicamente activa, com duas grandes placas tectónicas a colidirem, não ajuda nada, mesmo nada, sendo que cientificamente é impossível prever e antecipar a data exacta do novo Grande Terramoto de Lisboa – «inevitável» – com a impossibilidade de nada poder(em) fazer os homens; resta a prevenção e a monitorização-medições atenta, atempada e antecipada de cenários-evacuação e da protecção civil em prontidão. Fazemos votos de adiamento ad infinitum de um novo cenário de terramoto em Lisboa – de infinitum dilationem –

Trazemos hoje aqui à colação, também num sábado, nesta data que assinala os 270 anos do dantesco e infernal Grande Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, o cenário histórico humanamente vivido há quase três séculos atrás na capital do reino de Portugal, sendo rei D. José I e Pombal Secretário de Estado do Reino: Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra entre 1750 e 1755; posteriormente, entre 1755-1777 Pombal foi Secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino, assumindo na prática e em plenitude a chefia do Governo, que corresponde ao actual cargo de Primeiro-Ministro. Sebastião José de Carvalho e Melo (um estrangeirado, foi um diplomata e embaixador de Portugal nas cortes de Inglaterra e Áustria; como ministro do rei D. José I, implementou todo um conjunto de reformas no âmbito do despotismo esclarecido, que incorporou o ideal intelectual e filosófico do século XVIII do Iluminismo e das ideias iluministas que valorizava a razão para amodernar o reino-estado, para o progresso, para o conhecimento, para a organização da sociedade e do impacto do racionalismo crítico – do despotismo esclarecido dos déspotas-autocratas: razão, progresso, ciência e reformas para modernizar o Estado – sem abrir mão do poder absoluto da Coroa e da centralização administrativa), mais tarde conhecido como Marquês de Pombal, que assumiu um papel de enorme importância-relevo na reedificação de Lisboa destruída – Pombal destaca-se pela relevância histórica e arquitectónica do «estilo pombalino» na reconstrução de Lisboa, comprovada pela criação da Baixa Pombalina, de execução idealizada-concretizada a régua e esquadro, um plano urbanístico inovador que transformou a zona mais afectada pelo Grande Terramoto de 1755, ao introduzir um novo modelo-paradigma de cidade com ruas rectas, largas e lineares-rectilíneas dispostas em paralelo, de geometria-arquitectura funcional – ruas em grade – organizadas segundo um plano ortogonal, com quarteirões perpendiculares (com ângulos rectos a 90º), plano que incluiu a criação de praças largas, como a Praça do Comércio e o Rossio, e o uso da «gaiola pombalina», uma estrutura-sistema de construção anti-sísmica tridimensional (em comprimento, largura e altura) de madeira incorporada nas paredes de alvenaria para absorção e dissipação preventiva da energia libertada por futuros terramotos, para reforçar os edifícios contra abalos sísmicos, infra-estrutura de esgotos, corta-fogos entre edifícios e requalificação de espaços públicos – e que realizou reformas-melhoramentos sociais abrangentes na administração, na economia e educacionais na sociedade portuguesa da época.

Aquando da terrível catástrofe, Pombal terá proferido a famosa frase: «Enterrem os mortos [para impedir-prevenir as doenças e epidemias] e alimentem os vivos». O que demonstra tratar-se de um estadista, homem de Estado e governante pragmático, político com sentido prático e de eficiente prontidão na resolução da «crise terramótica» – sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos – enterrar a morte (medida sanitária); vivificar a vida e estabilizar o país-reino (controlo da ordem pública que visava evitar os saques e a criminalidade no fito das pilhagens e o caos, e o foco na reconstrução, com Pombal a enviar a todos os bispos do reino, em 1756, um questionário com treze (13) perguntas para recolher informações sobre os efeitos do Grande Terramoto e o estado do reino);  evitar a entrada de problemas externos (medida de segurança nacional contra inimigos de Portugal e aproveitadores da crise portuguesa). Pombal em plena animalidade política, governança e assertividade.

O Grande Terramoto-calamidade de Lisboa de 1755 foi o assunto-notícia portuguesa de maior e mais imediata e generalizada repercussão na Europa. Gerou fortes emoções, solidariedade altruísta e movimentações a nível científico, religioso e filosófico de influência duradoura-persistente – com o guião-cenário da tragédia a ser alimentado pelos relatos-descrições do marcante acontecimento para os sobreviventes, e de alegação-testemunho da terra continuar a tremer com tremores, abalos e réplicas durante semanas, senão meses seguintes, nomeadamente por cidadãos ingleses que residiam em Lisboa-Portugal – tal o pavor causado entre a população civil por tamanho sismo tão destrutivo e pela mortandade causada; e com a notícia a espalhar-se lenta-temporal e exponencialmente pela Europa, dos relatos de estrangeiros, com destaque para os britânicos, franceses e alemães «daquela cidade [Lisboa] que agora já não existe», e alimentada pela literatura de inspiração dramática, trágica e de tragicidade.

Deixamos aqui a nota de que o pânico-trauma foi tal e tamanho que após o Grande Terramoto de 1755, D. José I, rei de Portugal, que sobreviveu, com medo dos edifícios construídos em pedra, ordenou a construção da Real Barraca, um palácio de madeira em Belém, onde viveu até à sua morte, a 24 de Fevereiro de 1777 (data que também assinala a ascensão de D. Maria I ao trono (filha) e o afastamento e fim da influência-poder do Marquês de Pombal; das rivalidades entre a nova monarca e o autoritarismo de Pombal, nomeadamente no que toca ao «Processo dos Távora» relacionado com o atentado contra D. José I, o anti-clericalismo pombalino, disputas sobre a sucessão ao trono e antipatia mútua, retirando-lhe todos os cargos, afastando-o do Governo e tendo ostracizado e banido Pombal para fora de Lisboa e proibindo-o de estar a uma distância inferior a vinte milhas da capital, ou seja, a aproximadamente 32,19 km; usado o factor de conversão de 20 milhas x 1,60934 ~ 32,1868 km, o que dá cerca de 32,19 quilómetros). Esta residência, a Real Barraca, serviu a corte durante cerca de trinta anos, até ser completamente destruída por um incêndio em 1794.

O litoral sul português, Setúbal e o Algarve também foram atingidos com abalos sísmicos, inundações das zonas ribeirinhas, destruição de embarcações, edifícios e danos severos nas muralhas e fortificações defensivas no caso de Setúbal; e o Algarve, especialmente a cidade de Lagos, também sofreu danos substanciais nas muralhas e fortificações, ficando muito danificados o Forte do Pinhão e a Ponta da Bandeira; ambas as cidades do litoral sul português foram afectadas pelo tsunami que se propagou.

Surgiram teorias e foram dadas explicações, indo do imaginário fantasioso, à ciência, à filosofia e à religião: do ar comprimido em cavernas subterrâneas, à influência da lua e do sol e da existência de um fogo central; da explicação do terramoto à época através de teorias que misturavam a filosofia natural com a teologia e a centralidade-causa do pecado humano; da explicação filosófica com pensadores como Emmanuel Kant a propôr explicações físicas baseadas em causas como combustão e cavidades no subsolo, sendo que não havia ainda o conhecimento-compreensão moderno-contemporâneo das placas tectónicas, pelo que as explicações da época se baseavam em visões-palpites que associavam fenómenos naturais e causas sobrenaturais, da associação dos elementos físicos visíveis com o «fumo subterrâneo», sendo que a abordagem-interpretação de Kant do fenómeno do terramoto era-foi inovadora por-ao rejeitar categoricamente a ideia de que o grande sismo lisboeta de 1755 era uma afronta-castigo divino e que, ao contrário, devia e tinha de ser visto e estudado apenas e só em termos totalmente físico-materiais, do âmbito corpóreo; por exemplo Rousseau argumentou que, embora o evento fosse natural, o seu impacto foi amplificado pelas escolhas-factor humano da densidade populacional e da fragilidade das construções; a nível religioso, o sobrenatural-transcendental, o metafísico surgiu naturalmente como explicação do fenómeno físico, consequência do «pecado humano» e o respectivo «castigo divino» de uma sociedade dissoluta e pecaminosa, desviada de Deus, com particular destaque e evidência-referência em Portugal, França e Inglaterra.

Donde, da falta de uma explicação cabal, científica e moderna, ter levado a um estado de espírito de grande confusão e ao desenvolvimento de várias teorias, tendo o evento do Grande Terramoto de Lisboa de 1755 provocado o impulso e evolução da ciência sismológica, do estudo e pensamento científico, preparando o caminho futuro para a teoria das placas tectónicas que explica que a crosta terrestre é composta por  grandes blocos rochosos que se movem lentamente sobre o manto, e que os terramotos são causados pela tensão acumulada quando estas placas interagem, colidindo e libertando energia que se propaga em ondas sísmicas que têm como resultado final os tremores de terra. A Teoria das Marés não foi invocada na época porque era desconhecida, mas de facto existe uma relação entre os terramotos e as marés que pode desencadear, influenciar e exponenciar a magnitude de grandes terramotos, especialmente se acontecer-ocorrer durante as fases de maré alta-máxima (Lua Nova e Lua Cheia e tensão de alinhamento entre a Lua, o Sol e a Terra), de maior pressão gravitacional das marés. Acontece que a madrugada do dia 1 de Novembro de 1755 correspondeu a uma fase da Lua de «Lua Nova». O Grande Terramoto de Lisboa de 1755 ocorreu com a Lua Nova, com a Lua alinhada entre a Terra e o Sol, numa conjugação-puzzle factorial que sobre-dimensionou a catástrofe cataclísmica provocada pelo Terramoto lisbonense setecentista.

Continuando a visão-imagem coevo-contemporânea em flic flac intelectivo- dialéctico sísmico do inferno na terra, com a interpretação religiosa de um Deus misericordioso mas justiceiro, vingador e castigador-punidor dos males-pecados cometidos-sofridos, visiva alimentada e propalada pelos  viventes-sobreviventes do Grande Tremor de Terra e viajantes internacionais, com as pessoas vulneráveis e apavoradas, as mentes dormentes, de imberbe apatia modorrenta, inércia e torpor de choque, de mais-valia religiosa e acriticismo racional pensante, a organizarem procissões de desagravo dos «pecados mortais» que a Igreja Católica excitada pregava, exaltava e sublimava – sucediam-se os sermões e exorcizavam-se as pessoas e os pecados – que faziam desfalecer a moral do povo, aterrorizado pela «justiça sanguinária» vinda do Alto; e até a perseguição de Pombal aos jesuítas foi invocada pelo Padre (Pe.) Gabriel Malagrida como causa e razão da catástrofe «que não teria nada de natural, mas tratando-se de uma intervenção-castigo directo de Deus» – o pecado, a heresia e a ira divina – da cólera de Deus que fulmina a humana gente lusa-lisboeta habitante e estrangeira; um caldo de fanatismo religioso insano acusatório da desgraça humana vivida, reinante na obediência popular e na ausência de criticismo do povo, preso no dogmatismo religioso (assente em pressupostos e conjecturas) e despido de cepticismo, impossibilitando a interrogação da razão e da análise crítica, com a Igreja a anular o caminho do empirismo para o racionalismo da observação da realidade e das ideias.

Filosoficamente, foi debatida a questão da aceitação de Deus, e do Homem que não controla a Natureza.

Na literatura, o Grande Terramoto de Lisboa foi utilizado como cenário de romances de aventuras dramáticas – fonte inspiracional – da dor, do drama humano, do sofrimento, emoção, comoção e infortúnio.

Nota de registo é o facto de ter havido 77 mortes entre os súbditos britânicos, de longe a maior comunidade de estrangeiros a viver em Lisboa à época. O auxílio financeiro britânico foi o único que Portugal aceitou, no âmbito da aliança multi-secular entre Lisboa e Londres, com representação diplomática permanente, e tendo Portugal rejeitado o apoio de Espanha e França (do antagonismo, malquerença e inimicícia, do latim, inimicitia, da inimizade histórica).

T. D. Kendrick, apresentou em «The Lisbon Earthquake» (Londres, Methuen, 1956), o mais completo estudo sobre o Grande Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755: «As pessoas ficaram seriamente perturbadas e sentiram que tinham recebido uma solene mensagem sobrenatural [com apelos cruciantes da Igreja Católica exortando ao arrependimento dos comportamentos pecaminosos e vidas desregradas, libertinas e devassas, de imoralidade depravada e ética perversa, e à introspecção, e exortando o Clero ao arrependimento e à leitura da Bíblia, nomeadamente do Novo Testamento e dos Evangelhos]. Talvez esta consternação tenha sido mais generalizada em Inglaterra do que no continente [europeu]. Disputas de tratados e diferenças religiosas não diminuíam o afecto básico de Inglaterra por Lisboa e pelos portugueses; muitos ingleses conheciam bem Portugal e tinham lá vivido felizes, ou tinham amigos nessas condições; a nação [Portugal, o povo português] não tinha laços tão estreitos com qualquer outro país [reino] estrangeiro». (op. cit., p.146)

De acordo com a interpretatio religionis temporis, o Grande Terramoto foi visto em Portugal e no estrangeiro como um castigo de Deus, com acusações directas da Igreja Reformada – da Igreja Protestante – acerca da ira-fúria de Deus que se abatia-abateu sobre o povo português-lisboeta que tinha na sua prática religiosa dois pecados capitais, a saber: a Inquisição com os autos-de-fé, e as imagens religiosas, os «Santos» das igrejas comparáveis aos ídolos que Moisés destruíra, conforme relatado-relato do Antigo Testamento bíblico.

Já curiosamente e ao contrário, os portugueses sobreviventes vítimas do Grande Terramoto, de fé católica professada, viam-viram nas imagens e relíquias de culto veneradas, o sinal-vida e a prova da divindade-milagre. Com os ingleses, no contraditório, a realçarem o facto da sua igreja-templo de Lisboa ter ficado de pé, na qual não existiam imagens nem pinturas, em alusão-crítica à religiosidade da Contra-Reforma Católica, com os seus dogmas, liturgia, rituais, crenças e veneração-adoração dos «Santos», intercessão-mediação da Virgem Maria, e dos sacramentos ; do Protestantismo, apenas e só a Cruz e o simbolismo da Cruz de Cristo – as antípodas da interpretação religiosa humano-divina do Grande Terramoto, e o Povo no meio, e da fé-explicação (Catolicismo versus Protestantismo) a confusão-ignorância popular – e do impressionamento inglês do Grande Terramoto português, tendo sido decretado por proclamação real (rei Jorge II da Grã-Bretanha, que à data incluía a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales) um dia de jejum e penitência nas Ilhas Britânicas, em 6 de Fevereiro de 1756.

Compendiando o «Eco», o Grande Terramoto de Lisboa de 1755 teve grande repercussão internacional, seguindo-se após a destruição da cidade a vinda de estrangeiros a observar e a relatar a destruição da capital de Portugal, a quarta capital europeia mais importante da época, logo a seguir a Londres (Inglaterra), Paris (França) e Nápoles (Itália). Compilando filosoficamente, o impacto foi tal que influenciou o pensamento de intelectuais como Voltaire e Kant (atrás referencio-mencionado) – ao provocar um debate de ideias e argumentos de forma crítica e estruturada sobre o «Mal» e a «Providência Divina» e por questionamento da visão teológica predominante do mundo, e ao propôr explicações mais racionais e aclarações-explanações mais humano-explicativas dos eventos-desastres naturais; da explicação física, mais racional e científica (racionalismo), por oposição,  antípode e oposto-inverso do e ao pensamento sobrenatural-metafísico e do castigo divino dos homens pecadores – donde, a crítica ao teologismo dogmático e tendencioso (faccioso e de facção), precedente da filosofia iluminista, e consequente-paulatino abandono da causalidade divina e a afirmação crescente da razão e da ciência – ao afirmar o experimentalismo e a valorização da razão humana e do método científico – movimento que enfatizou a importância da observação da Natureza, em detrimento da Fé e das explicações religiosas para os «males do mundo».

Quanto às repercussões-ressonância e ecos da destruição material massiva de Lisboa foram avassaladoras: Convento do Carmo, um dos grandes símbolos da destruição causada em Lisboa pelo Grande Terramoto de 1755; mais 45 conventos, num total de 46 conventos destruídos. Sendo de destacar as perdas da Igreja com o desaparecimento de várias igrejas e conventos: Convento de São Domingos; Convento de São Francisco; Convento do Espírito Santo; Convento da Trindade. Donde, resumindo, das 45 igrejas paroquiais desmoronaram-se 35, e dos 65 conventos 54 vieram abaixo, ficando de pé apenas 11 conventos, mas com sérios danos estruturais. De registar ainda o facto de, com as igrejas desaparecidas, também desapareceu o espólio das sacristias, das quais constavam autênticos tesouros: relicários (objecto para guardar relíquias de um santo, da Santa Cruz, etc.), crucifixos, cálices, coroas, cruzes, lâmpadas-lamparinas e imagens de ouro e prata, ricamente decoradas-adornadas com pedras preciosas e pérolas; a Biblioteca Real foi destruída com mais de 70 mil volumes e documentos; o Teatro Real da Ópera do Tejo, inaugurado a 31 de Março de 1755 e destruído no mesmo ano, a 1 de Novembro de 1755; 55 palácios destruídos; mais de 20 mil edifícios foram reduzidos a ruínas (destroços, entulho e cinza) em toda a cidade de Lisboa; todos os hospitais/locais para o tratamento de doentes de Lisboa, num total de 6, foram afectados e sofreram destruição severa, incluindo o maior e mais importante, o Hospital Real de Todos-os-Santos, localizado no Rossio: «Os seis hospitais da cidade arderam, tornando ainda mais difícil o socorro às vítimas». (https://lisbonquake.com); o Hospital da Santa Casa da Misericórdia (assistência social, à pobreza e tratamento-cuidado dos enfermos; Hospital de São Lázaro, dedicado ao tratamento de leprosos, que existia desde o século XIII; Hospital de Nossa Senhora da Luz, fundado em 1610, pertencia à Ordem de Cristo; Hospital do Desterro, fundado no início do século XVII, pertencia à Ordem de São Bernardo; Hospital dos Clérigos Pobres, um hospital menor que atendia sobretudo membros do clero, e que tinha por trás a Irmandade da Misericórdia de Lisboa, que em 1646 ofereceu uma casa própria na Igreja do Hospital à Irmandade dos Clérigos Pobres.

Após o Terramoto, foi criado em Lisboa o Hospital de São José, em 1775, por decreto do rei D. José I, para substituir o Hospital Real de Todos-os-Santos, destruído em 1755. Da destruição do velho hospital resultou a necessidade do novo hospital, transferido e que passou a funcionar no Colégio jesuíta de Santo Antão-o-Novo.

As perdas foram colossais – continuando – o Grande Terramoto de Lisboa de 1755 provocou a perda de inúmeros edifícios políticos e administrativos da Coroa-Estado, onde estavam guardados milhões de documentos, com o registo de toda a História do Império Colonial, com cartórios, arquivos inteiros com os registos das mercadorias, das tripulações, das frotas, de mapas raros e instrumentos náuticos da História dos Descobrimentos – o pulsar temporal das Descobertas marítimas de Portugal – sendo que foram ainda destruídas: a Alfândega; a Casa da Índia; o Terreiro do Trigo; os Armazéns da Ribeira das Naus; as Secretarias de Estado da Guerra, da Marinha e do Ultramar; parte dos Arquivos e Edifício do Desembargo do Paço (o mais importante tribunal do reino de Portugal à data, 1755) e também o Palácio onde estava alojada a Inquisição. Foram ainda seriamente danificadas as principais cadeias da cidade, o Aljube e o Tronco. Das residências-palácios reais perderam-se: o Paço da Ribeira; o Paço da Quinta de Alcântara; o Paço da Alcáçova; o Palácio Corte-Real, e o Palácio da Bemposta. Também das 33 residências das principais famílias da corte não escaparam à avalanche de «destruição terramótica» setecentista lisboeta: falamos das Casas dos Condes de Redondo, do Marquês de Gouveia, do Duque de Cadaval, do Conde de Castelo Melhor, do Duque de Lafões, dos Marqueses de Távora, com perdas irreparáveis de edifícios, recheio (pinturas, tapeçarias, mobiliário raro, baixelas, bibliotecas-livros, jardins, etc.).

Só para ter uma ideia do impacto económico negativo da tragédia do Grande Terramoto de Lisboa de 1755, de acordo com a historiografia e a análise histórica dos historiadores, considerando o PIB do reino de Portugal à época em cerca de 200 000 contos anuais, os cálculos apontam para um prejuízo provocado pelo Terramoto, de acordo com testemunho coetâneo, na ordem dos 365 440 contos de perdas, apontando para quase o dobro do Produto Interno Bruto anual (sendo que os números variam).

Certo é que as perdas-prejuízos materiais-económicos foram colossais. Dando exemplos: outras fontes históricas falam de 229 520 contos de danos, a apontar para um valor-prejuízo quase equivalente ao PIB do ano de 1755. Mais, verificados os manuscritos da época (coevos), encontramos uma perda de 18 000 contos só em diamantes. Nas perdas por edifícios destruídos: Palácio Real, Patriarcal, Teatro Real e Alfândegas, 4 000 contos; dinheiro em metal precioso, ouro e prata, 4 000 contos; dinheiro em bens móveis: jóias, ouro e prata em objectos, recheios de palácios, peças de arte (pinturas, esculturas, louças, serviços, etc.), tapeçarias, mobílias, bibliotecas, recheios das igrejas e conventos, leitura-cálculo na ordem dos 210 000 contos. Donde, todos estes números serem indicadores dos estragos-perdas-prejuízos altíssimos, em valores da época, causados pelo Grande Terramoto de Lisboa de 1755. Seja como for, mesmo as estimativas por baixo e mais conservadoras, dão como ponto assente valores-prejuízo entre 32% e 48% do PIB de Portugal provocado pela «terra treme» de 1755, em Lisboa. Significativo!

Na actualidade do 3º milénio, século XXI, ano da graça de 2025 d.C., exactamente 270 anos depois do Grande Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, não é possível afirmar com exactidão um valor actualizado para os enormíssimos «prejuízos terramóticos», mesmo numa análise mais austera, sendo sempre a soma-adição por estimativa na ordem de «números golianos».  No entanto, segundo projecções-cenários variáveis traçados pela IA (Inteligência Artificial, com base em algoritmos e análise de dados matemático-estatísticos), os cálculos indicam que o impacto económico seria equivalente a um ano inteiro do Produto Interno Bruto português (PIB, com previsão para o corrente ano de 2025 acima dos 300 mil milhões de €uros, segundo dados do «Trading Economics»; Economia do Comércio) de Portugal, se o Grande Terramoto ocorresse hoje. Outras simulações comparam os custos a aproximadamente dez pontes Vasco da Gama (que custou 897 milhões de euros, em 1998), ou ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR, com um orçamento de 16,6 mil milhões de €uros), indicando que os danos-prejuízos poderiam orçar sempre em muitos milhares de milhões de €uros – custos concentrados significativamente na Área Metropolitana de Lisboa – AML, que inclui a Grande Lisboa e a Península de Setúbal. A AML foi criada formalmente em 1991; é a maior área de concentração populacional do país com 2.871.133 habitantes nos censos de 2021, e hoje seguramente com mais de três milhões de habitantes (da invasão migratória imigrante descontrolada), e de concentração económica, contribuindo com a maior fracção do PIB. Inclui dezoito concelhos-municípios: Alcochete, Almada, Amadora, Barreiro, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Sintra e Vila Franca de Xira.

Encerramos o nosso texto dissertativo voltando ao princípio dos elementos-factos históricos do Grande Terramoto de Lisboa de 1755, para memória futura, precisamente, repetimos, quando no dia 1 de Novembro de 2025 se passaram 270 anos sobre a catástrofe, sismologicamente «condenada a repetir-se» e «futurando» num futuro que inexoravelmente vem vindo em aproximação do desastre anunciado de um novo e devastador terramoto em Lisboa – fica o registo-lamento lancinante e doloroso – da aflição-sofrimento vindouro que adiamos sine die.

Dos dados do Grande Terramoto de Lisboa de 1755: Epicentro, no mar, oceano Atlântico, região do Banco de Gorringue, um monte submarino entre o Algarve e a Madeira, com a distância ao epicentro a ficar a cerca de 200 a 300 km do território continental português, a sul-sudoeste do Cabo de São Vicente, e a aproximadamente 290 km de Lisboa; a causa, uma falha geológica, zona da Ferradura (provável), com fissura entre as placas tectónicas africana e euro-asiática (com alegados 100 km de comprimento e 50 km de largura, no fundo do Atlântico); magnitude de 8,7 a 9,5 da escala de Richter, de intensidade máxima, destruidor, catastrófico; data, 1 de Novembro de 1755, um sábado, há precisamente 270 anos atrás, dia de feriado religioso do Dia de Todos os Santos; hora mais provável de ocorrência do Grande Terramoto, 9h40, com duração de vários minutos, com a terra a tremer em três momentos-ondas distintas (triplo abalo sísmico, com o segundo abalo a ser considerado muito e o mais violento de todos, que rapidamente desmoronou a maioria das casas e edifícios, sendo o primeiro abalo menos intenso mas determinante na fragilização da infra-estrutura da cidade, e o terceiro um abalo menor que ocorreu após um período de tremores, tendo sido descrito como o que «levou a cidade à loucura»); descrito por testemunhas por «um som inicial de trovão» vindo das profundezas da terra, seguido por extremas e violentas, violentíssimas vibrações; após o abalo inicial seguiu-se um devastador maremoto e tsunami com ondas da altura de dezenas de metros (segundo testemunhos, entre 20 a 30 metros); seguido de um mega-incêndio constituído por múltiplos incêndios em simultâneo por toda a cidade que durou vários dias e cujas ruas, vielas estreitas (quelhos) e becos da «velha Lisboa» ajudavam a propagar o «incendiário fogo» que, de acordo com as testificações, durou-ardeu aproximadamente uma semana e que consumiu o que restava da cidade, transformando Lisboa numa infernação incandescente e caos traumático; a duração total do «evento terramótico», do Grande Terramoto de Lisboa é estimada entre 8 e 15 minutos, com o sismo principal, o segundo, a durar cerca de 2 minutos; consequências, sismo considerado-visto como invulgar, e que produziu danos extremos a centenas de quilómetros de distância do epicentro, sendo que a Grande Lisboa actualmente é e continua sendo uma zona de alerta-risco de repetição de abalo sismológico-terramoto reeditado:

«Enquanto o actual mapa [sismológico] oficial atribui o nível mais alto de risco ao Sul de Portugal, diminuindo gradualmente para norte, a interpretação apresentada agora concentra o risco na área da Grande Lisboa».
(Diário de Notícias, João Duarte Fonseca, 7 de Janeiro de 2020).

Relembrando, Terramoto, seguido de maremoto, seguido de tsunami, com estimativas-testemunhos coetâneos de ondas entre os 20 e os 30 metros de altura (com deslocação de grandes massas de água); seguido de incêndios devastadores. Vítimas: numa Lisboa de 200 000 habitantes (com relato exagerado que fala em «350 000 habitantes»), com números díspares entre 12 000 a 90 000 mortos (mas seguramente na ordem das dezenas de milhares de mortes) – Grande Terramoto-maremoto-tsunami-grande incêndio multiplicado por vários fogos ardentes – que com todos os factores combinados, destruíram muito significativamente Lisboa: as estimativas sugerem entre 17 000 e 20 000 ou mais edifícios destruídos, alegadamente 80% a 85% do casario, 4/5 das casas-edifícios. A hora do acontecimento do Grande Terramoto de Lisboa do dia 1 de Novembro de 1755, de acordo com os relatos da época, varia entre as 9h30m, 9h40m, 9h45m, e as 9h50m; donde, podermos afirmar com alta probabilidade que o Grande Terramoto de Lisboa ocorreu nos vinte minutos fatídicos que distam entre as 9h30m e as 9h50m da manhã do dia 1 de Novembro de 1755, uma manhã solarenga e amena em Lisboa, «fazia um tempo sereno e o céu não tinha uma nuvem», repentinamente ensombrada pelo chão e casas a tremer e com o barulho-som como de «carruagens [nos paralelos) conduzidas com violência a alguma distância» (opus citatum, p. 39) e pela mortandade que se seguiu. A hora mais comummente referida-aceite da ocorrência do Grande Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755 é 9h40m.

Lembramos da importância económica de Lisboa que era, na época, o centro de comércio europeu e mundial de ouro, antes do Grande Terramoto de 1755 – a capital portuguesa era um centro nevrálgico do comércio de ouro, especiarias, diamantes, sedas e jóias do hexa Império Colonial de Portugal – atraindo comerciantes da Europa e do Mundo. A ostentação, opulência e extravagância-esplendor estava bem patente em palácios, igrejas e conventos. Do impacto da «tragédia terramótica» resultou o fim da era do ouro.

A reconstrução de Lisboa foi lenta, marcada pelo «pombalismo-estilo pombalino», ficando terminada a Baixa Pombalina em 1758, e cuja completa restauração da capital veio até ao século XIX, e mesmo séc. XX, com a renovação de fachadas dos edifícios, redes de esgotos e infra-estrutura citadina de prolongamento-adaptação secular tardia.

A cidade de Lisboa tem hoje o Museu Quake, um centro de interpretação-simulação do Grande Terramoto que recria a experiência. Uma experiência imersiva (de mergulho experiencial literal) que utiliza cenários e efeitos visuais e sonoros, que não sendo em 3D, faz uma abordagem muito realista, transportando as pessoas para a época e permitido aos visitantes vivenciar a catástrofe de forma interactiva e educativa, uma experiência física sensorial, de estímulo dos sentidos e de sensações dos eventos do horribilis e fatídico-mortal dia 1 de Novembro de 1755, e do impacto do terrível Terramoto.

Rematamos com uma imagem-vivência do «Grande Terramoto», pelo historiador João Lúcio de Azevedo (1855 – 1933) que a respeito do «Grande Terramoto» narrou o seguinte: «Nos altares oscilam as imagens; as paredes bailam; dessoldam-se traves e colunas; ruem as paredes com o som calvo da caliça que esboroa, e de corpos humanos esmagados; no chão onde os mortos repousam aluem [desmoronam] os covais (abrem-se covas-valas), para tragar os vivos […]. O horror todo do inferno em ais e tormentos [da impotência humana, o sofrimento atroz da dor horrenda e do horrendo horripilante]. Fuga desordenada com atropelos fatais [do pânico generalizado], e o tropeçar contínuo em pedras e cadáveres […]. Por toda a parte ruínas [cenário apocalíptico]». (https://brasilescola.uol.com.br, AZEVEDO, João Lúcio de, O Marquês de Pombal e sua época, «Annuario» do Brasil [termo italiano, que significa anuário em português, publicação anual que contém informação organizada, dados e relatórios temáticos], Seara Nova, Renascença Portuguesa, Rio de Janeiro, Lisboa, Porto, 1922, p. 142)

Das palavras o sentimento!

Disse.

Nota: O autor escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.