Por deformação profissional, confio nas estatísticas — e elas dizem-nos que a depressão rouba anos de vida com qualidade e encurta horizontes. Mas, mais do que números, vejo as pessoas que preenchem estes números. Não é raro chegar-me alguém à consulta em busca de uma segunda opinião, depois de “vários tratamentos” falhados, dizendo “a minha depressão que não responde a nada”. Às vezes há uma história familiar que sugere uma doença mental grave com raízes hereditárias. Muitas outras (mais) vezes encontro vidas atravessadas por stress no trabalho, conflitos em casa, perdas recentes ou marcas de um trauma antigo. Muda a origem, repete-se o sofrimento.
Quase todos me falam das mesmas dificuldades no caminho: a concentração que foge, a memória que falha, a energia que desaparece. E, sobretudo, como lhes muda a forma de estar no mundo e lhes retira o sabor do mundo. No consultório, descrevem-me as ruas que antes percorriam e que agora parecem intransponíveis, um tempo colado ao passado e sem futuro, pessoas queridas que já não as tocam, um corpo pesado “como numa gripe” sem febre nem tosse. A depressão não é “só” mais tristeza do que aquela que habitualmente vivemos: é uma perturbação profunda da nossa ligação ao real. As tarefas de sempre tornam-se penosos esforços de alpinismo, a vergonha e a culpa esmagadoras alimentam o isolamento e as conversas, até mesmo as palavras, encolhem até ao silêncio.
Pedir ajuda é um ato de responsabilidade, não de fraqueza. Percebo o medo que ainda existe: a psiquiatria carrega um passado de tratamentos austeros e efeitos secundários intensos. Mas já não é assim. Hoje trabalho numa especialidade muito diferente, com opções eficazes e, regra geral, bem toleradas. Contudo, ainda escuto perguntas honestas: “Vou engordar?”, “Vou ficar com um ar estranho?”, “Vou deixar de ser eu?”, “Isto vai tirar-me a vontade de viver a minha vida?”. Cabe-me explicar, escolher em conjunto, desmistificar e mostrar como vão melhorar evitando os efeitos secundários.
Há, no entanto, casos que não respondem aos primeiros passos. Antes de colar o rótulo “resistente”, faço-me perguntas simples e difíceis: tomou mesmo como foi prescrito? esperámos tempo suficiente? houve psicoterapia com objetivos claros? Só depois faz sentido falar de “depressão resistente”. E, mesmo quando alguém não melhora com duas tentativas bem executadas (dose certa, tempo suficiente, adesão real, psicoterapia apropriada), é importante travar a fundo e repensar: estaremos a chamar “depressão” ao que não é?
A perturbação bipolar pode “disfarçar-se” de um episódio depressivo. Os problemas da tiróide, do sono ou a dor crónica podem-se apresentar de forma muito semelhante, mas exigem intervenções diferentes. O álcool, que muitos alegam (erradamente) “ajudar” à noite, estraga o dia. Os traumas antigos que pesam no presente ou os traços de personalidade que dificultam relações e desregulam as emoções. Se não olharmos para além da superfície, erramos o diagnóstico — e o tratamento.
E quando é mesmo resistente? A boa notícia é que hoje temos mais caminhos. Há medicamentos com perfis bastante mais “amigos” da atenção e da clareza mental e, mais importante ainda, abordagens combinadas que juntam fármacos e psicoterapia de forma estratégica. Existem técnicas de neuromodulação, não invasivas, que ajudam a “treinar” circuitos cerebrais. Existem novas intervenções com vias diferentes de ação, como terapêuticas moduladoras do sistema glutamatérgico, aprovadas para casos selecionados de depressão resistente, com critérios de elegibilidade, contraindicações e necessidade de vigilância. Não são milagres, mas, para muitas pessoas, marcam a fronteira entre a ideia de morrer e a vontade de voltar a viver.
Quando o tratamento certo encaixa, vejo ganhos concretos em casa: mais disponibilidade para os filhos, menos culpa, energia para as tarefas e o desespero a abrandar. E noto ganhos objetivos no trabalho: menos faltas, menos erros, mais foco, criatividade e decisão. Às vezes é necessário parar por um tempo; quase sempre é crucial regressar com um plano, de forma gradual e realista. Famílias que aceitam, compreendem e apoiam, fazem toda a diferença. Empresas e chefias também: com horários flexíveis na recuperação, tarefas ajustadas, metas sensatas e zero estigma. Um ambiente que acolhe acelera a cura; um ambiente que julga trava-a.
Se se reconhece nestas linhas, não desista. Fale com o seu médico. Reabra o diagnóstico, trate as outras doenças, peça um plano claro para quando os primeiros passos falham. “Depressão resistente” já não significa o que significava: hoje quer dizer que precisamos de pensar melhor, personalizar o cuidado e usar o que a ciência já nos dá. A esperança, aqui, não é um slogan; é um trabalho conjunto — e começa no próximo passo.
Luis Madeira é médico psiquiatra e professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e coordenador do Centro de Bioética e Humanidades Médicas da FMUL, é atualmente presidente-eleito da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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