As crianças de hoje não têm infância. Pode parecer um exagero nostálgico, mas é uma constatação dolorosamente real. Não há joelhos esfolados nem calções rasgados, não há o pó das ruas nem o riso das aventuras partilhadas. Crescem limpas, protegidas e, por isso mesmo, amputadas dessas experiências. Vivem uma infância sem arranhões e uma infância sem arranhões é uma infância sem o contacto com a realidade.
Crescem no conforto, mas sem descoberta. Vivem em segurança, mas sem sentir na pele o que é a coragem. Num mundo higienizado, onde tudo é medido, previsto e autorizado, onde o erro tornou-se pecado e o risco, uma heresia. A infância, esse território mágico entre o instinto e o juízo, foi substituída por uma sucessão de regras, atividades e protocolos. O brincar livre, cedeu lugar à pedagogia do controlo. Toda essa liberdade, foi substituída por uma tutela enviesada dos adultos, que confunde o conforto da sua ansiedade, com a segurança das nossas crianças, mas onde esquece a importância da experiência para o seu desenvolvimento.
Esquecemo-nos de que o crescimento humano não é um processo de domesticação, mas de construção do ser humano através da revelação da experiência. A criança aprende porque toca, cai, experimenta, desafia. É nesse contacto cru com o real que se forma o discernimento, a prudência, o carácter. O medo e o erro são mestres, que sempre nos acompanharam, talvez os únicos que realmente ensinam. Mas nós, os adultos do século XXI, resolvemos bani-los do processo educativo, em nome da segurança e de um suposto conforto emocional.
O resultado é uma geração imaculada, mas frágil. Crianças que sabem sobre tecnologia, mas quase nada sobre o mundo. Pequenos especialistas em ecrãs tácteis, incapazes de suportar a mínima frustração. Jovens que não erram porque nunca arriscaram. Que não caem porque nunca caminharam sozinhos. Que vivem num presente digitalmente excitado, mas existencialmente estéril.
Confundimos o cuidado com o controlo, o amor com a vigilância. A sobre proteção tornou-se uma forma moderna de mutilação emocional. Nascida do medo de ver sofrer, acaba por gerar adultos que nada sabem sobre resiliência. Impedimos que os nossos filhos se defrontem com o real: com a dor, a dúvida, o perigo, e depois admiramo-nos quando desabam perante o primeiro obstáculo. Educamos para o êxito, mas esquecemos de ensinar que para tal, é preciso aprender sobre o cair e levantar-se.
As consequências não são apenas individuais, são civilizacionais. Quando uma sociedade perde o sentido do risco, perde também a imaginação e a coragem para enfrentá-lo. O medo torna-se sistema educativo e a prudência, uma prisão. E é assim que nascem as gerações dóceis: obedientes, mas sem chama; informadas, mas sem intuição; permanentemente estimuladas, mas espiritualmente inertes.
A infância, na essência, é o primeiro laboratório da humanidade. É o lugar onde se descobre que subir a uma árvore pode ser perigoso, mas que o perigo é o preço da liberdade. Onde se aprende que há consequências, mas que a coragem consiste em enfrentá-las. Que a prudência não é um ceder perante o medo, é o saber que nasce do confronto com o mundo.
Devolver a infância às crianças não é um capricho saudosista. É um gesto de resistência cultural e um grito de socorro, por uma humanidade que tende para o caminho errado. É reconhecer que crescer exige atravessar o bosque e não observá-lo através de um ecrã. Que é preciso permitir-lhes sentir o frio, o aborrecimento, o fracasso, e viver o risco. Que é preciso deixá-las perder-se um pouco para que saibam encontrar-se. Só quando voltarmos a ouvir o choro, pelos joelhos arranhados e os risos, pelas aventuras proibidas, poderemos dizer, que a infância, esse laboratório que constrói o homem, regressou.